Ex-reitor da Universidade dos Açores, José Enes, evocado amanhã na Igreja Matriz de Ponta Delgada

José EnesMorreu na Quinta-feira, 1 de Agosto, com 89 anos, o Professor José Enes, um dos grandes vultos da intelectualidade açoriana dos séculos XX e início do século XXI.
A sua memória vai ser evocada amanhã, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, às 12 horas, na Eucaristia paroquial. Em nome da comunidade de São Sebastião, o Padre Nemésio Medeiros deixa um convite a quantos conheceram e conviveram com José Enes para se associarem a este momento de celebração da sua memória.
José Enes nasceu nas Lajes do Pico no ano de 1924. Estudou no Seminário de Angra e formou-se em escolástica tomista na Universidade Gregoriana de Roma (1945-1950 e 1964-1966). Dedicou a sua vida ao ensino, iniciando-o no Seminário de Angra. Mais tarde, foi professor fundador e Reitor do Instituto Universitário dos Açores e subsequentemente da Universidade dos Açores. Em Lisboa, foi professor na Universidade Católica Portuguesa e na Universidade Aberta (1992-1994), de onde se jubilou como vice-reitor. Exerceu funções públicas de relevo e colaborou com várias universidades públicas portuguesas e estrangeiras. Autor de inúmeros artigos para jornais e revistas, publicou sete livros, entre os quais a sua tese de doutoramento: “À Porta do Ser”. Da sua autoria é, entre outros, o poema “Montanha do Meu destino” que o Grupo Coral das Lajes do Pico interpreta com música do falecido e grande maestro, Emílio Porto.
De acordo com um trabalho da investigadora catarinense, Lélia Nunes sobre o Livro “José Enes – Poesia, Açores e Filosofa” de Miguel Real, “a poesia e a crítica literária de José Enes, durante o período de onze anos (1953-1964), não constituíram um compartimento estanque na sua vida. Pelo contrário, foram veículo de entrada no desenvolvimento da sua segunda paixão (açorianidade) através de leituras, associações e convívio com intelectuais. Esta preocupação pela açorianidade está presente no seu primeiro livro da colecção “Cadernos de Pensamento”. De importância, ainda, foi a sua identificação com a Geração Gávea que no dizer de Miguel Real “se estatuiu como uma das mais emblemáticas designações para a compreensão da história do movimento cultural dos Açores do século XX “ com colaboradores como Emanuel Félix, Rogério Silva, Almeida Firmino, Silva Grelo, Artur Goulart e José Enes. O convívio com os poetas Eduino de Jesus, Silva Grelo e Coelho de Sousa, assim como a análise da poesia de Cortes-Rodrigues, Roberto Mesquita, Ruy Galvão de Carvalho e Vitorino Nemésio veicularam José Enes a uma interpretação cultural de açorianidade através do “contacto e da vivência da história da poesia dos Açores”.
Desde o princípio, José Enes “procura um novo modo de fazer crítica literária. Está numa fase de ‘tanteamento’. “José Enes tenteia e tacteia o seu próprio caminho, utilizando palavras e expressões próprias, de evidente cariz filosófico...”. Mais tarde, a criação poética será, para José Enes, não uma “atitude diletante, mas uma função vital, uma tomada de consciência do seu (do poeta) papel no mundo”. Numa análise do artigo “Duas Tentações dos Poetas”, publicado em 1957, Miguel Real escreve: “evidencia-se o selo filosófico característico da sua crítica, e logo o autor estabelece a sua singularidade face ao programa da crítica literária portuguesa de fins da década de cinquenta do passado século”.
Em 1954, José Enes afirma “a existência de uma genuína literatura açoriana” e regista-lhe características: “a presença do mar, saudade de longes nunca vistos e melancolia, acompanhados de um cuidado pelos mais humildes”.
As primeiras três Semanas de Estudo dos Açores foram secretariadas por José Enes entre os anos de 1961 e 1964 com o fim de “reunir especialistas ilhéus e nacionais sobre temas fulcrais dos Açores” – Nas palavras do seu secretário: “mais saber melhor viver”.