Cruz Vermelha de Ponta Delgada distribuiu este Natal mais de 400 cabazes a famílias carenciadas

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João Subtil - Cruz VermelhaNo passado mês de Março foi nomeado presidente da direcção da Cruz Vermelha de Ponta Delgada. Que balanço faz da sua actividade até ao momento?
Poderia não me arriscar ainda a fazer um “balanço da actividade”, pois o período em apreço ainda é curto – menos de um ano. Contudo, confesso que todos os dias procuro avaliar o que foi feito e o que não foi. E mais, o que se desfez.
Do que se fazia já e não é iniciativa própria, conseguimos cumprir o que era habitualmente previsto, e que alguns entenderam não ser viável, nem exequível: fizemos duas recolhas de alimentos em parceria com os hipermercados Modelo-Continente, com quase mil famílias abrangidas; participamos, em parceria com as lojas Agriloja, numa acção de recolha de brinquedos, que nos foram doados por lojas e cidadãos anónimos, para serem distribuídos por meninos carenciados; já foram entregues duas caixas, com muitas dezenas (confesso que não os contei), na Casa do Povo da Ribeira Grande, para os distribuir, neste Natal, pelas mais de 300 crianças carenciadas e muito carenciadas das freguesias próximas; outra foi levada, também já, para a Escola Básica da Lagoa, para o mesmo fim; continuamos a receber roupas e sapatos, que uma vez seleccionados e arrumados, são distribuídos, em dois dias por semana, a membros necessitados; participamos em parceria com a autarquia de Ponta Delgada, em acções de recolha de medicamentos, para posterior entrega a quem precisa; esta actividade, porém, é diária, pois diariamente chegam-nos as embalagens, completas ou não, trazidas por particulares ou por instituições que as recolhem; este ano já foram ajudadas mais de 267 pessoas!
A Delegação participou também no Dia da Criança, na Feira Lar Mar e Campo e mostrou os seus voluntários no Rally SATA, no passeio de Bicicleta organizado pela PSP e no passeio dos idosos em escapada a Santa Maria; não esquecendo os enfermeiros voluntários que prestaram apoio aos peregrinos da Procissão do Senhor Santo Cristo em Ponta Delgada.

Que projectos já implementou no seu mandato?
Foram lançados já vários projectos, como sementes em terra que tem de ser adubada: lançámos o convite para a juventude participar na criação de uma Juventude Cruz Vermelha, que pratique o espírito de doação de Henry Dunant, o fundador da Cruz Vermelha. Já se apresentaram 40 jovens de idades entre os 17 e os 28 anos.  A vida escolar e os caminhos da busca do trabalho ou do emprego, “levam-nos e trazem-nos” mas lá vão respondendo, mal, à chamada.
Aguardamos a concretização de um protocolo de autorização de utilização de um terreno da Marinha, para instalar a Juventude CVP, para aí receberem a sua instrução institucional e a formação adequada. Além de aí sediarem as suas actividades. Uma das actividades que os jovens (quatro deles) projectaram centra-se na possibilidade de ajudarem os idosos sós, criando bolsas de voluntários que poderão conversar com os idosos, mitigando a solidão; este projecto será desenvolvido sobre o sistema de Teleassitência da CVP, que está protocolado com a PT, no Continente Português, e que já chegou a ser protocolado com os municípios de cá.
Pretende-se retomar a formação CVP em primeiros socorros, primeiros socorros UE, Sistema Básico de Vida e Desfibrilação Automática, tendo sido já enviada carta à CCIPD e a várias empresas. Com o apoio do COE de Angra do Heroísmo já foram realizadas, este ano, duas acções de formação em primeiros socorros e, com recurso a formador próprio, uma acção de SBV, todas em Ponta Delgada e Ribeira Grande.
Neste momento está ainda ser desenvolvido, com a ajuda e boa vontade de amigos arquitectos e engenheiros, o projecto de adaptação de um espaço que a Secretaria Regional do Trabalho e Segurança Social nos concedeu para a instalação do nosso Posto de Saúde, destinado a substituir o que actualmente tem a sua actividade suspensa.

Quais foram os principais obstáculos que enfrentou?
Os primeiros obstáculos são os normais, quer dizer, os do costume: O que é isto? Como é isto? Como se faz isto?
Em Lisboa, onde está sediada a Cruz Vermelha, esclareceram-me: “se queres ter dinheiro para gastar, tens de o ganhar”. E deram-me os Estatutos e a chave da porta.
Ora, as fontes de receita da Delegação limitavam-se, e ainda se limitam, às quotas dos membros associados, aos donativos e a algum mecenato, pouco.
A Câmara Municipal de Ponta Delgada distribui, anualmente, uma verba variável da ordem dos dois mil euros (este ano foi um pouco menos). Se perguntarem por outros apoios tenho de dizer que do IDSA recebemos duas verbas destinadas ao pagamento do arrendamento e despesas do armazém onde está localizado o Centro de Recursos de Apoio à Emergência Social, do qual fazemos parte, com outras entidades, por protocolo assinado em 2007.
A falta de verbas disponíveis constitui uma dificuldade prioritária quando se pretende desenvolver ou melhorar as actividades de uma organização. A publicidade, a propaganda e a realização de actividades remuneratórias tornam-se impossíveis de atingir, a não ser que se encontre quem por amizade nos ajude.
Por outro lado, a falta de liquidez impede de se contratar pessoal administrativo necessário, mesmo quando se pretende chegar aos programas PROSA, FIOS, etc., a que as organizações IPSS’s tanto recorrem. E como não há funcionários, temos apenas uma funcionária administrativa a meio tempo, quem vai resolver estas questões? Quem vai trabalhar? Obviamente os voluntários, quando e se tiverem tempo e disposição. Esta situação atinge quase todas as delegações, mesmo no Continente Português. Excepção feita às que já estão munidas de actividades e projectos remuneratórios, tais como unidades hospitalares, lares e escolas.
A ideia é agarrar nos estatutos e nas orientações e tentar desenvolver algum projecto que permita “ganhar dinheiro”, ao mesmo tempo que se desenvolvem aqueles que são a imagem de marca da CVP. Que é como quem diz, desenvolver e “vender” formação e as actividades de prestação de socorros e apoio a idosos. Ou mesmo criar unidades na área de saúde que sejam rentáveis.
Mas a oportunidade pode já ter sido há alguns anos, é verdade, e o mercado já estar ocupado, ao mesmo tempo que a crise reduziu a possibilidade de interesse, é verdade.
Mas há ainda pior que isto. Mas, fica para outra altura…

O que mais o emocionou na Cruz Vermelha durante esses primeiros meses? Qual foi, para si, o melhor momento?
Os melhores momentos são todos aqueles em que desponta o sorriso de quem recebe.
Os melhores momentos são aqueles em que há alguém que vem juntar, com olhar limpo, a sua dádiva ou o seu esforço, ou mesmo só a sua vontade, que também ajuda.
Como a senhora que, durante a chamada de controlo semanal, disse à operadora do call centre da Teleassistência que não tinha possibilidade de se deslocar para receber o cabaz de Natal.
E a mensagem foi-nos passada; já tínhamos terminado a nossa distribuição de mais de quatrozentos cabazes,  cada um com mais de 15 quilos, mas, rapidamente, se começou à procura do que restasse, pouco que fosse, para fazer mais um cabaz.
Alguém, fora a organização, também apareceu, por acaso, com mais alimentos que entre vários tinham recolhido.
O cabaz foi feito com o tamanho dos outros e foi entregue à senhora…
Connosco está hoje uma senhora voluntária, brasileira, que foi voluntária nos campos de refugiados do Tibete, e nos disse, quando veio pedir roupa, que nunca se tinha imaginado a pedir ajuda e a pedi-la à CVP.

Este ano a Cruz Vermelha já ajudou quantas pessoas resultante das campanhas de sensibilização que organiza?
Foram apoiadas já mais de 500 famílias com roupas, cerca de mil famílias com alimentos, 267 pessoas com medicamentos, e cerca de 1400 utentes do posto de saúde até ser suspensa a sua actividade. Espera-se que o número de meninos atingidos pelas campanhas de brinquedos exceda os 300.
Completo com os 50 meninos que foram ao Circo em Ponta Delgada, com o apoio do circo Brasil, dos supermercado Continente e da Kairos.

São inúmeros, os pedidos de ajuda...
Os que referi são os que receberam, mas muitos mais são os que nos pedem, tantas vezes sem podermos ajudar.
Neste momento é crítica a procura de tratamentos no posto de saúde, que não podemos prestar.

Os pedidos de ajuda junto da vossa instituição continuam a aumentar ou já se nota alguma estagnação?
Dir-lhe-ei que sim, pois são consequência directa das necessidades sentidas.
Tenho notado também que muita gente que pede já veio de outras instituições.

Apesar de haver muita entrega de vestuário, os medicamentos continuam a ser o grande problema…?
O problema dos medicamentos, como lhe chamou, não é resolúvel pela nossa acção nem pelo voluntariado, como é bom de ver. Por várias razões, que vão desde o tipo de medicamentos, que são entregues, que não correspondem aos pedidos, até à quantidade que tem de ser eliminada, quer pelo estado, quer pelo prazo ultrapassado.
Do que vejo por aqueles que de nós se aproximam e pedem, o problema que têm é não terem dinheiro que chegue para pagar o que lhes é prescrito, seja ou não genérico.
Nem conseguem esperar por uma retribuição do IRS ou uma comparticipação do sistema de saúde.
Tanto quanto pude saber, as unidades de farmácia não podem participar em processos de doação e recolha de medicamentos mesmo dentro de prazo e com embalagens íntegras. São regras totalmente compreensíveis que regulam o mercado. Estas mesmas regras atingem as farmácias solidárias, que pretenderiam comercializar os medicamentos a preços “solidários”.
Nós não temos farmácia solidária. De qualquer modo na nossa actuação procuramos as regras de respeito pelos prazos, pelo  “armazenamento” e, obviamente, pela prescrição médica.

O que acontece quando alguém vem procurar um medicamento e a Cruz Vermelha não pode atender ao pedido?
Lamentamos muito, mas nada podemos fazer…

Entre as pessoas que procuram mais ajuda, estão os grupos vulneráveis, como vítimas de violência doméstica, toxicodependentes, desempregados, mas, sobretudo idosos com reformas muito baixas. A Cruz Vermelha tem um programa específico para essas pessoas com maior expressão agora no Natal?
Há organizações de cariz governamental e IPSS’s também vocacionadas para ajudar esses universos, com valências apropriadas e devidamente apoiadas, quer pelo Governo Regional, quer pelas autarquias
A Cruz Vermelha tem os programas Missão Sorriso e o Sorriso de Natal específicos para quadras de Natal e da Páscoa. Outros programas de carácter nacional são prosseguidos pela Cruz Vermelha, mas não dedicados exclusivamente para esta época. São exemplo Montepio Jovem, a Frota Solidária, o Causa Maior, destinados a apoiar projectos das entidades solidárias, IPSS’s e juvenis, e através desses projectos, atingir o público necessitado.

As campanhas de Natal revigoram esperança nas pessoas pobres?
Acredito que todos nós necessitamos de “flashes” que nos despertem a nossa confiança nos outros e na sua ajuda.
As campanhas podem ser esses “flashes”.
Mesmo quando aquele que necessita, por exemplo, vem ter connosco à beira da caixa de recolha de alimentos e nos diz “eu quero participar e dar este saco. Mas diz que posso ir lá também para receber um cabaz?”
Porque não?

A solidariedade própria dessa época deveria ser sentida ao longo de ano e não apenas no Natal?
A solidariedade deve ser uma atitude permanente, dependente apenas da necessidade presente e da possibilidade de ajuda ou apoio.
Creio que a disponibilização de mais dinheiro ou salário nas épocas natalícias, quem sabe para prover a mais gastos no comércio para satisfação da alegria de presentear, terá canalizado a atenção da solidariedade para estas épocas.
Mas, não, a solidariedade é necessária todo o ano.

Como vê a evolução da actual crise económica no nosso país?
Com apreensão. Lembro-me que, quando andei na Escola Primária, tínhamos o lanche distribuído pela Cáritas, o leite em pó e o pão com queijo amarelo…

Apesar da crise económica, as pessoas, em geral, têm sido solidárias?
Creio que sim, os resultados obtidos nas campanhas que foram realizadas este ano, apontam nessa sentido.

A Cruz Vermelha conta com quantos elementos e voluntários?
A Cruz Vermelha conta com milhares de voluntários e dezenas de milhares de membros, em Portugal.
Aqui em Ponta Delgada, temos cerca de duzentos e cinquenta membros associados, e contamos com alguns voluntários que respondem ao apelo, na ordem da dezena, que variam conforme a ocasião e a disponibilidade.
Claro que inscritos são mais, mas a sua disponibilidade nem sempre é a mesma.

O que é preciso para se ser sócio da Cruz Vermelha?
Dirigir-se à Delegação mais próxima, neste caso a nossa na rua do Melo, 40, em Ponta Delgada, de manhã nos dias úteis.
Também pode inscrever-se no site da Cruz Vermelha Portuguesa,  se o quiser fazer pela internet.

Quer deixar alguma mensagem?
A Cruz Vermelha é um movimento de todos e para todos. Apesar do que apontei, quando referi dificuldades, entendo que elas podem ser superadas quando todos participamos.
Lembro-me assim da história das palhinhas que o Avô pediu aos netos para lhe trazerem. Uma de cada vez podia ser partida, todas unidas resistiam.
Mais, um sozinho pode errar, muitos também, mas juntos hão-de acertar.
A todos um Feliz  Natal e um Bom Ano Novo.