“O turismo açoriano tem razões para sorrir”

Gilberto vieira 2Gilberto Vieira é um conhecido empresário de turismo rural, há longos anos, Presidente da Associação de Turismo Rural Casas Açorianas e proprietário da Quinta do Martelo em Angra do Heroísmo. Neste Dia Mundial de Turismo, que hoje se comemora, Gilberto Vieira fala ao nosso jornal do turismo nos Açores e dos problemas no sector.

 

Comemora-se hoje, Domingo, o Dia Mundial de Turismo. O sector nos Açores tem razões para sorrir?
O tema deste ano do Dia Mundial do Turismo é, tal como no ano passado, “Turismo e Desenvolvimento Comunitário”. Daqui a dois anos o mote será “Turismo Sustentável – Uma Ferramenta para o Desenvolvimento”. Não cabe aqui analisar o tema escolhido para 2016 pela Organização Mundial de Turismo que é “Turismo para Todos – Promover a Acessibilidade Universal”.
Dito isto, é importante reter as ideias – chave definidas para 2014/2015 e 2017: o papel do turismo no desenvolvimento comunitário e a sustentabilidade desse mesmo movimento de visitantes num determinado território, nomeadamente em ecossistemas especiais e frágeis.
Nesse contexto, o turismo nos Açores tem razões para sorrir pelo crescente conhecimento e interesse pela nossa realidade. Entre o esforço de promoção e novas realidades no capítulo das acessibilidades, a visibilidade deste destino único, por várias razões, está a experimentar um crescimento assinalável. É, obviamente, um motivo de “desenvolvimento comunitário”, mas não podemos esquecer nunca o conceito de “sustentável”. Por isso penso que, mais do que o “sorriso” que o sector possa apresentar hoje, devido à realidade mais recente, que culmina um esforço promocional de quase duas décadas, com altos e baixos, é a sustentabilidade e a autenticidade que devem ser as maiores preocupações.

 Os Açores são cada vez mais um destino para turismo rural e de natureza ou deve apostar nas grandes unidades hoteleiras?
Já disse publicamente, em diversas ocasiões, que não há nenhum conflito entre a hotelaria convencional e o turismo rural e de natureza nos Açores. A força crescente do destino Açores atrai variados tipos de visitantes e há espaço para a convivência entre os diversos géneros de alojamento. Verifico, com agrado, que a opção pelo alojamento em espaço rural é crescente. Mas não podemos descurar a promoção contínua deste segmento, que é o que verdadeiramente nos diferencia, para além da paisagem, acessível, a espaços, a todos os turistas. Mas as vivências inolvidáveis estão no nosso mundo rural e costeiro.    

Há uma boa política de promoção? Ou há falhas?
Em termos genéricos, o esforço de promoção tem sido bem orientado, de acordo com os padrões do mercado global. No entanto, esse percurso teve algumas falhas, por má avaliação dos objectivos, face àquilo que os Açores têm como vantagem nesse mercado global.

O que é que está a falhar na ilha Terceira?
Em termos de turismo, a Terceira sempre teve um constrangimento que pode parecer de menor importância, mas que é fulcral: digo isto há trinta anos – a Terceira não tem um aeroporto. Mesmo sendo a maior e a mais equipada estrutura aeroportuária nos Açores, as limitações impostas por desígnios militares, tantas vezes a rondar o arbitrário, provocaram sempre dificuldades e incertezas no movimento da aviação civil que estrangularam a utilização comercial daquela pista. O mesmo se verifica no presente, como no alegado interesse de operações “low cost” propostas para as Lajes, mas cuja autorização foi negada.
Para além disso, ainda não se conseguiu uma divulgação eficaz do que Angra significa em termos de  património mundial, nem do facto de a Terceira ter a maior reserva natural endémica dos Açores, para além de uma identidade etnográfica e gastronómicas únicas.

 Os voos charters de Boston e de Madrid vão resultar? É a solução para o turismo na Terceira?
É minha convicção que o mercado da costa leste dos Estados Unidos vai muito para além do denominado “mercado da saudade”. Açorianos em visita de saudade sempre existiram, como é natural. Mas o mercado global de quem está a quatro horas de voo de chegar a um local especial, às portas da Europa, mas com características cada vez mais procuradas de diferenciação, em relação à oferta global turística, é um potencial que urge ser explorado, aguçando o apetite com o que, verdadeiramente, temos para oferecer.
Se os charters de Boston, na época proposta, tiverem como objectivo apenas o “o mercado da saudade”, não creio que tenham grandes possibilidades de êxito. É, precisamente, no mercado universal dos norte-americanos que reside o potencial sucesso dessa operação. Pelo que temos, mesmo de inverno, para oferecer, numa altura em que as condições climatéricas são extremamente severas nos locais em que vivem.
Quanto à operação de Madrid, calculo que o operador tenha em mente as relações históricas de ter sido a Terceira a única parcela de Portugal que resistiu três anos ao domínio filipino, bem como a tradição tauromáquica.
Num e noutro caso, o sucesso das propostas depende, essencialmente, da capacidade dos operadores.

Há quem diga que a política de turismo na região está desorganizada e se não fossem as low cost em S. Miguel estavam todos na falência. Concorda?
Curiosamente, os números do turismo nos Açores, revelaram, no mês anterior ao início da operação das “low cost”, já um aumento à volta dos dois dígitos do movimento de entradas e dormidas de turistas nos Açores. É um dado curioso. É óbvio que essa tendência se acentuou nos meses seguintes com o efeito da chegada das companhias de  baixo custo.
Quanto à alegada desorganização, pode admitir-se que, a dada altura, perante o crescimento acentuado da procura turística no arquipélago, houve um surto de investimentos, alguns eventualmente mal calculados e que sobredimensionaram a oferta. Alguns desses empreendimentos, construídos no pressuposto de um aumento exponencial da procura, algo que, entre outras razões, saiu gorado devido à crise nacional e internacional recente, poderiam estar em risco de falta de sustentabilidade.

É imperioso as low cost operarem na Terceira? Porque acha que estas companhias não estão a operar na ilha?
Começo pela segunda parte da pergunta: não sei. O único dado concreto, é a afirmação pública do diretor de uma dessas companhias, garantindo que pedira para operar nas Lajes (e no Montijo), autorização que foi negada pelo Governo da República.
Quanto à questão de ser “imperioso” as low cost operarem na Terceira, há dois eixos a ter em conta. Em primeiro lugar, a população da Terceira é, naturalmente, unânime em querer ter acesso directo a voos mais baratos, nas deslocações para o continente. Neste contexto, pode considerar-se “imperioso” ter essa operação. Quanto à mais-valia para o turismo na ilha, naturalmente o acréscimo de visitantes, por essa via, dinamizará, no imediato, a actividade turística, embora, para ser honesto, podermos correr riscos de alguma massificação (e de uma eventual perigosa atitude “low cost” em serviço e preço) que sempre combati, devido ao facto de considerar que a Terceira (e não só esta ilha), tem características diferenciadas, com potencial para atrair clientes verdadeiramente interessados, ávidos de experiências e ambiências únicas, em que o poder de compra não é obstáculo. 

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