“O mais importante é mesmo o carinho que damos à roupa”

fatima soaresFoi a experiência no ramo da lavandaria que levou Fátima Soares a aceitar o desafio de ter o seu próprio negócio. Depois de ter estado a trabalhar durante vários anos por conta de outros, em 2006 esta empresária tomou as rédeas de um projecto próprio, localizado na Rua do Provedor, em Ponta Delgada: a Lavandaria Fátima Soares. Uma decisão de que não se arrepende passados 12 anos.

 

Diário dos Açores – A lavandaria existe há quanto tempo?

Fátima Soares – Vim trabalhar para esta lavandaria no ano 2004 e estive a trabalhar por conta do antigo proprietário até 2006, altura em que adquiri o negócio. Como já tinha estado a trabalhar durante 14 anos numa outra lavandaria e já tinha alguma experiência na área foi-me proposto ficar com esta lavandaria.

 

O que a levou a deixar de ser funcionária para passar a patroa?

FS – Tive que pensar muito, não foi uma decisão fácil. Mas não me arrependo. Até ao momento tenho tido bons resultados. Foi uma aposta muito grande e um grande investimento, mas valeu a pena.

 

Como foi evoluindo o negócio?

FS – Depois de ter adquirido o negócio, e como as pessoas já me conheciam e conheciam o meu trabalho, comecei a ganhar os meus clientes. Importa referir que nos dois anos antes, esta lavandaria não tinha grande actividade, até estava para fechar. Mas quando passei para proprietária, as pessoas foram sabendo e fomos tendo mais trabalho até aos dias hoje. Faço um balanço muito positivo à minha actividade desde 2006.

 

Hoje a lavandaria está muito diferente de há 12 anos atrás?

FS – Sim, muito diferente. Hoje temos muitos mais serviços. No início, esta lavandaria não era conhecida, fruto de não haver publicidade e também porque a pessoa que estava aqui não tinha muita formação nesta área. Mas, quando vim trabalhar para cá, fomos ganhando aquilo a que se chama de “clientes grandes” como é o caso, por exemplo, do Coliseu Micaelense, Ateneu Comercial ou o Clube Micaelense. Neste momento, por causa do Carnaval, estou cheia de toalhas destes espaços.

 

O que é preciso para manter um negócio deste género?

FS – Muita dedicação. Costumo dizer às minhas colaboradoras que temos que tratar a roupa dos nossos clientes como se fosse nossa, ou mais ainda. É preciso ter carinho pela roupa. Nos dias de hoje há roupas muito complicadas, há nódoas difíceis de tirar e há que ter cuidado com os tintos. Há muita roupa branca, por exemplo, a que vem mais amarela por causa das águas férreas das Furnas, que requer cuidados mais especiais. São trabalhos mais difíceis, mas tentamos, duas ou três vezes, e insistimos para fazer o melhor para os nossos clientes.

 

A lavandaria tem alturas com mais trabalho?

FS – Temos sempre trabalho. Mas na passagem de ano e Carnaval intensifica-se o trabalho.

 

E o que a lavandaria tem para oferecer?

FS – Eu costumo dizer que temos sempre boa disposição, carinho e simpatia por todos quantos nos procuram. Já criamos uma relação de amizade com muitos dos nossos clientes que não deixam de procurar os nossos serviços e também mostram carinho por nós. Isso acontece também porque sou uma pessoa persistente na roupa. Sou “chatinha”, faço de tudo para entregar uma peça de roupa na perfeição. Há vestuário que às vezes vem com a falta de um botão, ou descosida e o cliente nem sabia. Costumo arranjar estas peças, mesmo que o tempo seja pouco, para que quando a roupa for entregue, vá toda em condições para os nossos clientes.

 

Ou seja, para além da lavagem, ainda faz serviço de costura?

FS – Sim, naquilo que posso fazer.

 

Quais os serviços de que dispõe?

FS – Temos limpeza com água, a seco e serviço de engomadaria. Há pessoas que só querem que passemos roupa a ferro. Geralmente estes são clientes semanais. Temos sempre muitas camisas só para engomar, calças e fardas. Fazemos de tudo um pouco. Tudo o que seja para lavar, estamos prontos para aceitar qualquer serviço.

Recebemos todo o tipo de roupa ao longo de todo o ano. No Carnaval aparecem mais os fatos, os vestidos de gala e as toalhas dos espaços onde se vão realizar os bailes. 

Também por altura da Quaresma somos muito procurados pelos romeiros. Já há romeiros que vêm todos os anos para impermeabilizarmos os xailes, os lenços, as sacas e às vezes há quem peça para impermeabilizar os fatos de treino. 

 

Conta com quantos colaboradores?

FS – Já houve uma altura em que tinha sempre dois colaboradores. Mas para não estar com a corda ao pescoço, optei por ter apenas uma funcionária a tempo inteiro. Quando é preciso, costumo ter uma outra colaboradora pontualmente. O meu marido também me dá uma ajuda e é um grande apoio, apesar de ele ter o seu trabalho fora da lavandaria. Costumo também estar sempre na loja. Já não tenho férias, vou só tirando uns bocadinhos para ir ver os meus filhos.

Trabalhamos todos os dias da semana. Há alturas em que trabalho aos Sábados e Domingos. Isso aconteceu recentemente por causa dos bailes de Carnaval do Coliseu. São muitas horas de trabalho e muita dedicação.

 

É preciso gostar muito deste trabalho para se ter esta dedicação…

FS – Sim! Sem dúvida. Gosto muito do que faço. Comecei nesta vida com 21 anos, mas nunca mais deixei esta área. Trabalhei na lavandaria de um hotel em Ponta Delgada, também estive numa outra lavandaria durante 14 anos e depois vim para aqui. A minha vida é roupa e água.

 

Não há nódoa que não consiga tirar?

FS – Às vezes há. Há nódoas que, por mais que façamos, são impossíveis de eliminar. Tento satisfazer os clientes, no entanto, às vezes não se consegue, até porque não faço milagres.

 

Já lá vão 12 anos de Lavandaria Fátima Soares, tem novos projectos?

FS – Não. Os tempos não estão favoráveis a que se façam novos investimentos. Existem mais lavandarias em Ponta Delgada, que são nossas concorrentes, por isso não penso em novas aventuras.

É preciso muita força de vontade. Ter um negócio destes não é fácil e no Verão é ainda mais complicado, quando temos que passar a ferro com o calor.

Não é para qualquer pessoa. É preciso mesmo gostar de roupa.

Faz-se um esforço muito grande, porque o cansaço também se manifesta nas pernas por estar todo o dia de pé.

 

E sentiu dificuldades ao longo destes anos?

FS – O cansaço foi uma das dificuldades. Em termos de negócio, já houve uma altura em que havia mais pessoas a procurar os nossos serviços. Também passamos por algumas situações de pagamentos em atraso, mas tudo se ultrapassa…

 

A manutenção da lavandaria também implica grandes gastos?

FS – Costumo ter um técnico que, anualmente, vem ver as máquinas. No dia-a-dia, se for preciso algum reparo, o meu marido já está a par de muitas situações e consegue arranjar. Se for algo mais complicado, entra-se em contacto telefónico com técnicos do exterior e tenta-se resolver as situações que vão surgindo.

Tenho máquinas muito antigas e por isso são mais duradouras.

 

E no que diz respeito aos produtos…

FS – Muitos dos produtos que utilizo vêm de Portugal Continental, como é o caso dos produtos para limpezas a seco ou mais químicos. De resto, também compro muitos produtos por cá, como o amaciador, pó, detergente ou o branqueador.

 

Como olha para o futuro?

FS – Enquanto tiver forças, vida e saúde não saio daqui. Gosto muito deste espaço e da nossa localização, principalmente porque está perto do Santuário do Senhor Santo Cristo. Uma vez que sou bastante devota, gosto de saber que estou perto Dele. Gosto de estar aqui!

 

Porque gosta tanto desta área?

FS – Também por causa dos clientes. Sinto-me bem em fazer este serviço. Agrada-me a simpatia dos nossos clientes. Há dias em que estamos mais cansados, ou mais aborrecidos, e de repente aparece um cliente, que me chama pelo meu nome, e só isso já me deixa feliz e bem-disposta.

 

Foi preciso ter formação?

FS – Já fui a algumas formações e, na lavandaria, quando é preciso, eu mesma a dou. No entanto, fui aprendendo muito foi comigo própria. Nesta área o mais importante é mesmo o carinho que damos à roupa e é isso que transmito às minhas colaboradoras. Eu estou sempre a dizer que é preciso fazer sempre tudo com carinho e amor.

 

Sente-se uma empresária realizada?

FS – Sim, muito! Sinto-me muito feliz. Nunca pensei que algum dia ia ter um negócio meu. Mas curiosamente quando vim trabalhar para a lavandaria, o antigo proprietário dizia-me que a lavandaria ia ser minha, e eu descartava esta hipótese. Quando falei sobre este assunto com o meu marido, inicialmente ele perguntou-me se eu estava maluca? (risos)… Mas o certo, é que adquiri o negócio e já se passaram 12 anos. Não estou nada arrependida. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida, a seguir a ter casado e aos meus filhos.

Por: Olivéria Santos