Recepção apoteótica nos EUA

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As comemorações do Dia de Portugal, que se iniciaram no fim-de-semana, em Ponta Delgada, estenderam-se ontem a Boston e Providence, nos EUA, onde a comitiva chegou no domingo com uma hora de atraso em relação ao previsto.

“Os EUA são um grande país, mas Portugal ainda é maior. Temos o maior país do mundo”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa aos milhares de pessoas no ‘City Hall’ de Boston, onde estava a decorrer o ‘Boston Portuguese Festival’, com uma recepção popular apoteótica e em que os guarda costas viram-se “gregos” para separar o Presidente dos milhares de populares.

“Viva a cidade de Boston e o Estado de Massassuchets, viva os Estados Unidos da América, mas sobretudo viva o mais importante: Viva Portugal“, disse ainda o Presidente da República.

O chefe de Estado, que se deslocará a Washington no final do mês para uma reunião com o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou ainda que vai regressar aos EUA em Novembro.

“Em Novembro, estarei com as comunidades portugueses com as quais não me encontrarei agora”, disse, antes de adiantar que visitará nessa altura a costa oeste e a importante comunidade lusa de Fall River, na costa leste.

Marcelo Rebelo de Sousa disse saber que algumas comunidades portuguesas nos EUA ficaram tristes por não receberem agora a sua visita. “Desde já prometo que em Novembro visitarei as comunidades que não pude visitar agora em Junho. Virei à costa oeste, a Fall River, que ficaram agora muito tristes. Mas virei cá em Novembro”, acentuou.

Na sua intervenção, o Presidente da República estendeu a todos os órgãos de soberania a mensagem sobre o “orgulho” do país em relação às comunidades portuguesas e adiantou um pouco sobre algumas posições que transmitirá no final deste mês a Trump.

“Ele bem pode agradecer aos portugueses, porque tem aqui uma comunidade que trabalha pelo futuro dos EUA, que é honesta, trabalhadora, competente e que honra Portugal. Tem amor pelos EUA mas não esquece a nossa pátria, o nosso querido Portugal”.

O chefe de Estado, acompanhado do primeiro-ministro, António Costa, e pelo Presidente do Governo dos Açores, Vasco Cordeiro, seguiram depois para Providence, capital de Rhode Island, onde participaram no evento WaterFire, este ano dedicada a Portugal.

No palco, Marcelo e Costa foram recebidos e antecedidos nos discursos pelo ‘mayor’ Jorge Elorza, que ofereceu ao Presidente a chave da cidade, e pela governadora do Estado de Rhode Island, Gina Raimondo, que anunciou a criação de uma matrícula automóvel especial de comemoração do dia de Portugal.

“Temos uma capacidade de compreender, de dialogar, de aproximar pessoas. Somos assim. Nós unimos, não dividimos, nós criamos a paz, não a guerra. É assim que nós somos, é essa a nossa força, é essa a vossa força”, enalteceu o chefe de Estado.

Marcelo reconheceu que Portugal e os seus representantes podem parecer estar longe, mas tal não é verdade. “Às vezes parece que estamos longe. Não estamos, estamos perto“, disse, depois de elogiar aqueles que “todos os dias criam Portugal” em Providence.

Por sua vez, António Costa manifestou-se confiante na solidez futura das relações entre Portugal e EUA, defendendo que os dois países estão unidos por valores comuns como o amor à liberdade e à democracia.

“É absolutamente essencial continuarmos a estreitar as relações entre Portugal e os EUA, porque somos ambos duas democracias, ambos amamos a liberdade e o esforço e o respeito de cada um para construir a prosperidade. É nessa comunidade de valores que Portugal e os EUA vão continuar a construir um futuro cada vez mais próximo através deste oceano Atlântico que une os nossos dois países”, disse.

Costa dirigiu também palavras à comunidade portuguesa, dizendo que o objetivo dos órgãos de soberania nacionais “é estreitar cada vez mais as relações com a diáspora portuguesa”.

“Por isso, a Assembleia da República aprovou uma nova lei da nacionalidade que facilita aos netos dos portugueses a obtenção da nacionalidade. Por outro lado, o Governo aumentou o prazo de validade do cartão do cidadão, assegurando-se que cada titular está automaticamente recenseado para poder participar nas eleições em Portugal. É muito importante a vossa participação, quer aqui nos EUA, quer lá em Portugal”, afirmou.

Tal como tinha feito horas antes em Boston, o líder do executivo referiu-se ao programa de visita aos EUA, que termina no próximo sábado.

“Vou ficar esta semana nos EUA para promover o investimento em Portugal, mas sei que o meu trabalho está muito facilitado, porque sempre que falamos com um americano ele conhece bem Portugal através de cada um de vós. Esse é o melhor cartão-de-visita que Portugal pode ter”, declarou.

 

Marcelo elogia os muitos Portugais

 

No domingo, ponto alto das comemorações em Ponta Delgada, durante a cerimónia na Avenida Marginal de Ponta Delgada, o Presidente da República sinalizou que o país prefere a “paciência dos acordos, mesmo se difíceis”, à “volúpia das roturas, mesmo se tentadoras”. 

O Presidente fez um discurso curto em que falou sobretudo daquilo que define os portugueses enquanto povo. 

Numa intervenção curta, de cerca de cinco minutos, o chefe de Estado elogiou a diáspora portuguesa e o “abraço” que Portugal dá “a quem chega, migrantes ou refugiados”, e a cultura de “pontes, diálogos, entendimentos”.

O Presidente estava acompanhado de algumas das mais altas individualidades do Estado, entre as quais o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro. 

”Preferimos a paciência dos acordos, mesmo se difíceis, à volúpia das roturas, mesmo se tentadoras. O multilateralismo realista ao unilateralismo revivalista”, sublinhou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República teceu ainda elogios aos “muitos Portugais” que garantem “riqueza” ao país e frisou que não pode ser tolerada discriminação nesta diversidade identitária. “Como não sublinhar a pátria que somos, a autonomia que evocamos e o universalismo fraternal. A Pátria numa só, feita de muitas vivências”, disse Marcelo durante o seu discurso.

 “Não toleraremos que os Portugais sejam discriminados naquilo que de essencial assinala o estatuto da nossa cidadania cívica, económica, social e cultural”, disse ainda.

A habitual Cerimónia Militar, que decorreu no centro da maior cidade açoriana, contou com a participação de mais de mil militares dos três ramos das Forças Armadas.

 

Reassumir o papel no Atlântico

 

Por sua vez, o presidente das comemorações do 10 de Junho, Onésimo Teotónio de Almeida, disse que Portugal, que abriu rotas em todo o planeta, pode “reassumir o papel de rampa de saída, de ponte sobre o Atlântico”.

“Lá de fora sentimos com afago todo este interesse por Portugal e pelos Açores, em particular, e bem gostaríamos que ele fosse mais do que apenas uma descoberta do país como paraíso de férias e aposentação. Queremos o reconhecimento de um Portugal que abriu rotas para as mais diversas partes do planeta e agora bem poderá reassumir esse seu papel de rampa de saída, de ponte sobre o Atlântico”, declarou.

O professor catedrático da Universidade de Brown, nos Estados Unidos da América, que falava em Ponta Delgada na cerimónia comemorativa do 10 de Junho, afirmou que Portugal é um “país moderno e aberto” alheio aos conflitos que decorrem em outras geografias do globo, que se pode “constituir como esse espaço privilegiado”.

 

Intenso orgulho na palavra Açor

 

No sábado, o presidente do Governo Regional dos Açores afirmou  que o arquipélago dá testemunho de uma autonomia que “já venceu desafios”, mas que também quer continuar a vencê-los, destacando “o intenso orgulho” na palavra Açor. 

“Damos testemunho de uma Autonomia que foi, é e quer mais ser por causa dos desafios que já venceu, mas sobretudo por causa dos desafios que quer vencer”, afirmou Vasco Cordeiro, no Palácio de Santana, após a apresentação de cumprimentos do Corpo Diplomático ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Salientando o contributo dos Açores que, disse, “deram Presidentes da República, cientistas, militares, embaixadores, ministros e escritores, políticos e poetas”, o chefe do executivo açoriano sublinhou também a capacidade de “resistência” e de “reconstrução” do povo açoriano que “resiste a tempestades, a terramotos, a vulcões e a piratas, povo que também já resistiu à fome e às pragas, à solidão e em alguns casos ao esquecimento”.

“Aqui Portugal é diferente. Não esquecemos de onde viemos, nem ignoramos onde estamos, mas sobretudo sabemos quem somos”, referiu, reforçando “o orgulho” da identidade açoriana.

E, acrescentou, “neste intenso orgulho na palavra Açor está também o orgulho do que demos e do que damos pelo nosso país”.

Vasco Cordeiro referiu também que os Açores deram “homens e jovens que por Portugal deixaram a sua vida num qualquer campo de batalha e que mesmo quando aí não deixaram a vida em muitos casos deixaram partes de si, do corpo ou do espírito”.

“E tudo isto fizemos sem nunca impor condições, nem moedas de troca”, reforçou o presidente do Governo açoriano.

Vasco Cordeiro referiu-se ainda à importância do mar, mas também destacou que os Açores “dão presença em áreas de vanguarda da exploração e do conhecimento espacial”.

“Por tudo isto, e por tanto mais, é que não podem restar dúvidas que aqui Portugal é diferente. E não queremos que deixe de ser Portugal, mas também não queremos que deixe de ser diferente, porque essa nossa diferença não nos diminui em nada”, reforçou.

Vasco Cordeiro disse que os Açores dão “dimensão estratégica” pela “terra que temos e pelo mar” e dando “empenho e território na construção de pontes e parcerias para a paz, para a ciência e para o conhecimento”.

 

Marcelo mergulha no Pesqueiro

 

O Presidente da República aproveitou no sábado uma pausa na agenda das comemorações do 10 de Junho para tomar banho em Ponta Delgada na piscina natural do pesqueiro onde dezenas de açorianos aproveitavam o dia de sol.

“Vir aos Açores e não mergulhar é ofensivo”, considerou Marcelo Rebelo de Sousa.

Após cerca de 15 minutos de banho, o chefe de Estado tirou dezenas de fotografias com outros banhistas e elogiou a temperatura da água, “nos 21, 22 graus”, acima dos 14 com que tomou “nas últimas vezes” no continente.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa assistiram, à noite, a um concerto na igreja paroquial de São José e a um espectáculo de fogo de artifício.

 

Reacções ao discurso

 

O líder parlamentar do PSD afirmou que o Presidente da República deixou no discurso de 10 de Junho “uma mensagem de calma e tranquilidade” e de “necessidade de cumprir o que está acordado”.

“Ouvimos uma mensagem de calma, de tranquilidade, da necessidade de cumprir o que está acordado, da necessidade dos calendários serem respeitados e, portanto, foi essa a mensagem do senhor Presidente da República, uma mensagem de tranquilidade para os portugueses”, sustentou Fernando Negrão.

O líder parlamentar do PSD falava, em declarações aos jornalistas, na cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, após a cerimónia comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, num comentário sobre o discurso do chefe de Estado.

“Naturalmente nós escutaremos todos em conjunto na Assembleia da República a questão do Orçamento. Se ele será negociado pelo PS com os partidos à sua esquerda. Tem sido assim e é expectável que continue a ser assim. E, portanto, o que leio da mensagem do senhor Presidente da República é isso mesmo. A expectativa é essa, que seja negociado pelo PS com os partidos à sua esquerda”, comentou ainda Fernando Negrão. 

Por sua vez, o presidente do PS, Carlos César, considerou que as comemorações do Dia de Portugal nos Açores e nos Estados Unidos são uma prova da presença multinacional do país, que deve orgulhar os portugueses.

“Portugal é um país com uma história muito intensa, com uma presença multinacional, com uma credibilidade hoje não só no espaço europeu, como nas áreas onde intervém em missões internacionais, envolvendo em especial as nossas Forças Armadas. Temos muitas razões para termos orgulho em ser portugueses”, afirmou.

Por seu turno, o deputado do CDS-PP Telmo Correia considerou que o Presidente da República foi “coerente” com o que tem dito.

“Só temos de sublinhar que o Presidente da República é coerente com aquilo que sempre tem dito e tem defendido. É uma questão que a nós não nos diz directamente respeito. Nós fazemos o nosso papel enquanto partido da oposição e partido crítico deste modelo de governação”, adiantou.

O PCP classificou de “discurso de circunstância” a intervenção do Presidente da República na cerimónia oficial do 10 de Junho, lamentando que Marcelo Rebelo de Sousa não tenha abordado “preocupações centrais” do país.

“Foi um discurso muito geral, sem abordar questões em concreto. Um discurso de circunstância”, afirmou o dirigente do PCP nos Açores, Vítor Silva, que representou o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, que não esteve presente nas cerimónias oficiais na cidade de Ponta Delgada.

 

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