Haverá este mês um novo PS e um novo PSD nos Açores?

ALRAA 2017

 A ‘rentrée’ vista pelos nossos comentadores

José Gabriel Ávila 2José Gabriel Ávila

“Vasco Cordeiro tem de entender as vozes críticas que existem, em surdina, no interior do Partido”

 Vasco Cordeiro vai suceder a Vasco Cordeiro no Congresso do PS do próximo fim de semana. A sua liderança estará reforçada para assumir, sem problemas, uma nova vitória absoluta nas eleições de 2020 ou prevê alguma alteração?

A liderança de Vasco Cordeiro não está em causa, presentemente. Isso só acontecerá quando e se o PS perder a maioria parlamentar, como é normal acontecer. 

Ademais, aos olhos da opinião pública, não se conhece um militante que se destaque pela contestação interna ou por propostas e pensamento alternativo, que esteja já a fazer caminho para um dia “afrontar” Vasco Cordeiro.  

O líder socialista, porém, tem de entender as vozes críticas que existem, em surdina, no interior do Partido, vindas de militantes “mais antigos” que criticam a tendência do governo para um liberalismo que não se conforma com os princípios programáticos do PS.

 

As propostas que Vasco Cordeiro apresenta na sua moção são suficientemente mobilizadoras para uma renovação ou espera que haja espírito crítico por parte de dirigentes e militantes do PS?

Na minha opinião, a moção que o líder do PS vai submeter e aprovar em congresso, as únicas novidades que apresenta respeitam sobretudo às consequências da extinção do cargo de representante da República. Por não haver revisão constitucional já, não terão consequências imediatas. 

Esperava que Vasco Cordeiro assumisse também a necessidade de descentralizar os órgão de Governo, abrindo a possibilidade estatutária de localizar secretarias e direcções regionais fora das ex-capitais de distrito. 

Esta matéria entronca com as tímidas propostas para inverter a desertificação e erosão demográfica crescente em algumas ilhas e concelhos as quais, a meu ver, não trarão quaisquer resultados benéficos.

Enquanto jovens e famílias não se sentirem minimamente seguros com a deficiente prestação dos cuidados de saúde; enquanto se abrir os braços a empreendedores externos que optam pelas centralidades de São Miguel e Terceira e não se majorar, significativamente, os apoios a empreendimentos nas ilhas pequenas; enquanto as autarquias sem capacidade financeira, se virem obrigadas  a terem de ocupar os desempregados em programas temporários, desaproveitando as suas competências e capacidades, para não dependerem do RSI, o processo de desertificação manter-se-á imparável. 

As ocupações temporárias não geram segurança familiar e não incentivam os jovens a permanecer.  

O decréscimo demográfico e o abandono das ilhas pequenas é mais grave e complexo do que se faz menção na Moção de Vasco Cordeiro, e de resolução mais urgente que as novas alterações estatutárias e o novo ordenamento jurídico-político que se pretende alterar. 

 

Daqui a poucas semanas haverá alterações na liderança do PSD-Açores. Quem acha que estará mais apto: Alexandre Gaudêncio ou Pedro Nascimento Cabral?

Pedro do Nascimento Cabral vem fazendo um percurso político interessante tendo em vista ocupar o lugar de Presidente do PSD-Açores, desejo que nunca escondeu. 

Nos debates semanais na RDP-A e nas suas crónicas na imprensa, manifestou o seu pensamento sobre o que deveria fazer o PSD-A para ser poder regional. 

Nos próximos dias apresentará em detalhe a sua moção de estratégia, e então sim, os militantes conhecerão como pretende governar os Açores, se for eleito.

Alexandre Gaudêncio “atravessou-se no caminho de PNC”, como comentou um militante social-democrata picoense. 

Com um percurso de autarca elogiado dentro e fora do partido, não se sabe como irá compatibilizar a Câmara da Ribeira Grande com a liderança do PSD-Açores. 

Há quem tema que o poder lhe caia nos braços e que, as duas muito absorventes funções tenham efeitos negativos o que a acontecer, poderia redundar em derrota nas eleições de 2020 e, na perda da segunda Câmara maior dos Açores. 

É temendo isso que muitos militantes se interrogam o que leva o jovem Alexandre Gaudêncio a pretender mais poderes, quando o tempo lhe é favorável a uma carreira política. 

 

O PSD, com uma nova liderança, poderá almejar umas eleições mais disputadas em 2020 ou terá ainda que aguardar por 2024, quando Vasco Cordeiro já não se poderá recandidatar?

Tudo dependerá dos três actos eleitorais do próximo ano: europeias, regionais da Madeira e nacionais.

É sabido que quem está no poder tem mais condições para ser reeleito. 

Todavia, numa conjuntura económica e política tão incerta e complexa como a do mundo ocidental, é cada vez mais difícil traçar cenários. 

A ascensão dos partidos de direita xenófoba, a crescente implantação do neoliberalismo nas políticas da União Europeia e a hipótese de uma nova e anunciada crise financeira podem mudar as opções dos eleitores, já que os ideários do PSD e do PS são muito semelhantes. 

São tempos difíceis a exigir respostas concertadas. E um partido fragmentado e dividido  dificilmente se assumirá como alternativa saudável e oposição credível. 

A Região e o arquipélago precisam de um PSD-A estável, dinâmico e forte que credibilize o regime democrático e incentive a cidadania.

 

armando mendes 2Armando Mendes

“É preciso uma vassoura poderosa para limpar o polvo montado na Região”

 Vasco Cordeiro vai suceder a Vasco Cordeiro no Congresso do PS do próximo fim de semana. A sua liderança estará reforçada para assumir, sem problemas, uma nova vitória absoluta nas eleições de 2020 ou prevê alguma alteração?

O problema real que está por detrás da sua pergunta tem pouco a ver com reforço menor ou maior da liderança de Vasco Cordeiro. 

A questão central tem a ver com condições políticas gerais e de cidadania que possam, por alguma forma, libertar os Açores e os açorianos de máquinas de poder que no tempo longo tendem a criar estruturas de opressão, de injustiça e de apropriação pessoal e grupal do poder efectivo (situações estas que nos projetam muito para além do poder político ao nível da decisão política dita de topo). 

No tempo da Autonomia, a eternização do PSD (1976-1996) no poder criou uma sociedade aprisionada por essas estruturas; no tempo do PS (1996-...) essa linha vermelha que tinha sido estabelecida (na memória colectiva dos açorianos) com a queda do PSD já foi ultrapassada. 

Casos recentes como a história inacreditável das evacuações por helicóptero (contada pela vosso jornal) ou a insuportável situação dos idosos (contada pela TVI, por exemplo), são apenas pequenos exemplos de como a nossa sociedade está aprisionada por interesses que nada têm a ver com o bem comum. 

Aparentemente, nessas histórias começa a revelar-se um fenómeno terminal, que tem a ver com prováveis conivência e encobrimento por parte de decisores políticos de topo.

Vasco Cordeiro, que conhecemos de longo tempo, parece-nos ser uma pessoa decente e com uma boa formação humana - demonstrando, aliás, esses predicados no inquérito que mandou abrir ao caso das evacuações sanitárias. 

Mas o líder de um partido no poder há tanto tempo será capaz de, num determinado momento, desmontar todo o sistema descrito atrás? 

Mota Amaral, segundo a nossas interpretação da sua saída de líder do Governo Regional, percebeu que já não conseguia ter mão nessa tenaz que vai apertando a sociedade - ao ponto de lhe vergar a vontade própria - à medida que um mesmo partindo se vai eternizando no poder eleição após eleição. 

Para regenerar os Açores, Vasco Cordeiro precisará primeiro de vontade e depois duma vassoura mais poderosa do que a melhor que existe no mercado para limpar o polvo montado na Região desde 1996. Muito dificilmente conseguirá. Até porque o polvo tenderá a resistir e a contra-atacar.

Todos os estudos que conhecemos dizem o mesmo. A saber: qualquer sociedade perde vontade própria e capacidade de exercer a cidadania quando um partido se eterniza no poder. A situação piora em sociedades de pequena dimensão demográfica. 

As duas regiões autónomas portuguesas são duas situações exemplares. 

A melhor solução é uma alternância de poder em tempo curto que, periodicamente, liberte a sociedade e lhe devolva a esperança. 

“Terminar” o polvo antes de ele se transformar num monstro indomável deve ser uma regra mínima de higiene cidadã.

 

As propostas que Vasco Cordeiro apresenta na sua moção são suficientemente mobilizadoras para uma renovação ou espera que haja espírito crítico por parte de dirigentes e militantes do PS?

No actual estado da arte, a crítica é pouco saudável. Mesmo que a estrutura política de topo incentive o debate crítico, as estruturas de poder real que tomaram conta da sociedade não perdoarão críticas que as exponham. 

Quer isto dizer que o grande perigo que espera os críticos é o ostracismo por parte de quem controla de facto os mais importantes itens da vida em sociedade e mesmo as estruturas intermédias da governação. 

Por exemplo, poucos decisores de topo acreditarão nas campanhas em curso para tentar liquidar jornais e calar jornalistas. 

Essa é uma realidade subterrânea em relação à qual é muito difícil coligir provas concludentes. Mas os resultados vão estando à vista. 

São consequências sem causas...

Entre outras, agradam-nos ideias de Vasco Cordeiro, expressas na moção, sobre, por exemplo, a reforma da Autonomia, a revisão do Acordo das Lajes e a revisão das prioridades no apoio aos idosos (embora esta última proposta fique muito aquém do que é desejável). Porém, os interesses do polvo estarão pouco virados para essa dimensão - que é nobre - da política. 

O polvo estará mais ativo na negociação feudal do poder, o que ocorrerá nos corredores do Congresso. 

Julgamos ter razão nesta análise. O que é grave.

 

Daqui a poucas semanas haverá alterações na liderança do PSD-Açores. Quem acha que estará mais apto: Alexandre Gaudêncio ou Pedro Nascimento Cabral?

Não conhecemos suficientemente qualquer dos candidatos e nunca lemos as respectivas moções. 

Significa isto que não nos é possível emitir uma opinião sobre os eventuais pontos fortes e fracos de cada um. 

Resta-nos, assim, desejar boa sorte aos dois.

 

O PSD, com uma nova liderança, poderá almejar umas eleições mais disputadas em 2020 ou terá ainda que aguardar por 2024, quando Vasco Cordeiro já não se poderá recandidatar?

O PSD só poderá sonhar com o regresso ao poder se ultrapassar um pesado institucionalismo político que o tem afectado, conseguindo falar ao coração dos açorianos. 

Terá também que mobilizar os açorianos com propostas que se diferenciem inequivocamente do modelo do PS, fazendo o povo acreditar num futuro melhor. 

Terá ainda que melhorar em muito a sua capacidade de comunicação. Por outro lado, o PSD tem um problema grave no parlamento, sobretudo em debates com figuras emblemáticas não do PS (deputados), mas do governo. 

O nome mais emblemático é Sérgio Ávila (Vice-presidente), que costuma bater o PSD aos pontos e por vezes por KO. 

O parlamento é um lugar político onde se ganham e perdem batalhas e guerra. O PSD deve pensar esse espaço muito a sério.

Em qualquer caso, depois de longas quatro décadas de maiorias absolutas (com pequenos pormenores insignificantes pelo meio) - talvez tenha chegado o tempo de a alternância se fazer com mais do que um partido no poder em simultâneo. Parece-nos que poderia ser uma experiência muito interessante.

 

Nuno BarataNuno Barata

“Se ‘reconstrução’ da SATA correr mal, as eleições irão correr mal para o PS” 

 Vasco Cordeiro vai suceder a Vasco Cordeiro no Congresso do PS do próximo fim-de-semana. A sua liderança estará reforçada para assumir, sem problemas, uma nova vitória absoluta nas eleições de 2020 ou prevê alguma alteração?

Uma das vantagens - a grande vantagem arrisco dizer - do regime democrático, é que até ao contar dos votos ninguém pode estar mais seguro ou menos seguro do resultado a alcançar. 

Nas últimas regionais de 2016, o PS perdeu cerca de 9000 votos em relação às regionais de 2012. Esse número de votos perdidos não é despiciendo se atentarmos ao círculo de compensação e ao efeito que pode ter o resultado na distribuição de mandatos. 

A liderança de um partido, seja ele qual for, em regime de candidato único, não está em causa e poderá sair mesmo reforçada do congresso se, de facto, a moção de estratégia que se conhece for apresentada e for discutida com mais pormenor e de forma participada. 

Não é isso que tem vindo a acontecer nos congressos partidários mais recentes. Não se espera que venha a acontecer mas deseja-se.

 O PS Açores não tem que ter qualquer receio de debater-se, de renovar-se, de fazer diferente e para isso precisa de falar menos para fora e mais para dentro de si mesmo. 

Renovar o partido é não aceitar novos militantes ilustres que muitas vezes são apenas “Cristão Novos” em busca de uma espaço com sombra. 

Renovar o partido é purga-lo das coisas perniciosas -  onde se incluem esses agentes da oportunidade -  e reedita-lo seguindo a sua matriz ideológica e o espírito de mudança que preconizou num passado ainda recente.

Por princípio sou avesso a unanimismos, ao PS-Açores falta debate interno.

 

As propostas que Vasco Cordeiro apresenta na sua moção são suficientemente mobilizadoras para uma renovação ou espera que haja espírito crítico por parte de dirigentes e militantes do PS?

Como disse atrás, existe um perigo enorme do PS-Açores sofrer de um certo “autismo” que culmine num pensamento único. 

Isso é, infelizmente, próprio dos partidos que passam pelo poder muito tempo. 

Aconteceu no PSD de Mota Amaral e está a acontecer ao PS de Vasco Cordeiro e Carlos César. 

Dentro do PS-Açores não há quem arrisque agitar as águas.

Deve dizer-se, em nome de uma justiça de avaliação, que Vasco Cordeiro tem, ele próprio, em questões muito gerais, sido o único agitador de consciências mas sempre com propostas que caem numa espécie de saco roto. 

Nunca mais se ouviu falar das propostas que aventou no dia da Região nas Flores ou no discurso do último congresso. 

Porém, agora aparecem propostas ao conclave socialista relativas à qualificação da Autonomia, vejamos o que o PS consegue fazer sobre esse importante desiderato  nos próximos dois anos. 

Este Partido Socialista não tem desculpas, já governa a Região com maioria absoluta desde 2000, só não reformou o regime porque não quis ou não quer ou ainda porque entende que está tudo bem (voltamos à tese do autismo). 

O papel aceita quase tudo o que lá se põe, operacionalizar essas intenções é que nem sempre é fácil, possível, e aceite pelo soberano eleitorado.

 

Daqui a poucas semanas haverá alterações na liderança do PSD-Açores. Quem acha que estará mais apto: Alexandre Gaudêncio ou Pedro Nascimento Cabral?

1X2, é como jogar no totobola, só que aqui não há lugar ao uso do X. 

Eu diria que ambos os candidatos têm condições de ganhar as eleições internas directas, ambos terão condições de enfrentar o congresso, mas só um pode ser o líder que o PSD almeja há algum tempo. 

Ser Presidente do partido é a parte que custará menos a Alexandre Gaudêncio, tem conhecimento das bases, implantação bastante em São Miguel, foi secretário-geral e é um autarca com algumas provas dadas mas também com muitos rabos-de-palha por explicar e tem o apoio do actual dirigente máximo do PSD-Açores.

Nascimento Cabral tem também nas suas fileiras gente da máquina partidária e tem a enorme vantagem de não estar ele próprio ligado ao aparelho do Estado/Região/Poder Local, é aquilo que se pode chamar um outsider que sempre esteve por dentro e soube escolher a sua hora, fez o seu caminho como todos nós que andamos atentos podemos comprovar. 

Começou com cuidado a mandar recados para dentro do partido, endureceu as críticas à direcção de Duarte Freitas e lançou, no início deste ano, a derradeira “lança” anunciando a sua candidatura ainda antes do processo eleitoral ser despoletado. 

Nascimento Cabral é um estratega da política e isso dá-lhe muitas garantias de sucesso.

 

O PSD, com uma nova liderança, poderá almejar umas eleições mais disputadas em 2020 ou terá ainda que aguardar por 2024, quando Vasco Cordeiro já não se poderá recandidatar?

O resultado eleitoral de 2020 vai depender muito da forma como correrem os dossiers que neste momento são incómodos para o PS Açores. 

O Governo e o Partido Socialista, muito por culpa da s suas cedências às reivindicações populistas da oposição, e menos por culpa das suas fracas convicções, criou ao longo dos últimos anos um conjunto de problemas para si próprio e com os quais vive ensombrado.

O dossier SATA será fundamental neste processo. 

Se a operação de “reconstrução” da SATA correr mal, as eleições certamente irão correr mal para o PS.

Nos últimos anos de oposição, passado o período de “ressaca” depois da derrota de 1996, o PSD adoptou uma táctica política análoga à táctica militar usada pelos russos contra a invasão pelas tropas de Bonaparte: “Política da Terra Queimada”. 

Ou seja, foi apresentando o sem número de propostas, mais um menos populistas, mais ou menos inexequíveis, algumas desnecessárias e até perniciosas como engodo para o PS ir cometendo os erros estratégicos que cometeu. 

Quando prevalece a táctica sobre a estratégia é isso que acontece. 

O PS deixou-se levar  pelo imediatismo da táctica, da resposta rápida às provocações da oposição e nem sempre esteve à altura de responder com firmeza a esses ataques.

Neste momento o PSD espera calmamente, tal como os russos esperaram às portas de Moscovo por Napoleão, e às portas de São Petersburgo pelas tropas alemãs. 

O PSD espera e desespera por um desaire do Partido Socialista, as eleições nos Açores não se ganham, perdem-se.

 

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