Açores e comunidade tech em busca de negócios mais sustentáveis

Vítor Costa

Na economia digital, lucratividade e performance não são suficientes para determinar o sucesso de uma empresa. O novo modelo de negócios também exige actuação responsável e impactos positivos nos requisitos ambiental, social e humano. 

Reafirmando as características ímpares dos Açores nesse sentido, Vítor Fraga, presidente do Conselho de Administração da Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores – SDEA, justificou a participação no Web Summit. 

Segundo Fraga, desde 2013, a missão da instituição “passa por desenvolver e implementar um conjunto de políticas, visando o reforço da colectividade e da produtividade das empresas açorianas, bem como da inovação e do empreendedorismo”. São diversas as atribuições que estão sob a alçada da SDEA com o intuito de acelerar a transformação digital, não só em São Miguel e na Terceira, que já é conhecida como Tech Island, mas também de Santa Maria ao Corvo. 

Vítor FragaA captação de investimentos é o outro ponto crítico. De acordo com Vítor Fraga, hoje “não há lugar no mundo que não esteja em busca de investimentos”. Para enfrentar a grande competição por recursos, a SDEA criou a plataforma Invest in Azores, em que os aspectos únicos da região são promovidos junto dos investidores. O posicionamento geográfico deixou de ser apenas o factor localização, mas também representa um fuso horário que facilita as operações internacionais nos Estados Unidos, Europa e África. 

No ecossistema favorável ao investimento, destacam-se a proximidade com os agentes que detêm o poder de decisão e um plano de incentivo fiscal agressivo, composto pela oitava taxa mais baixa de IRC e pela segunda menor de IVA na União Europeia. 

Fraga complementou dizendo que “as intenções de investimento nos Açores vêm de todo o mundo, sem localidade específica: China, Estados Unidos, Canadá, Arábia Saudita, Portugal Continental, Espanha, França, Inglaterra, Brasil etc.”. O facto é que as conquistas nesta grande competição são proporcionais à confiança transmitida aos investidores. 

Outra esfera é a geração de impacto social positivo que consiste na geração imediata de mais postos de trabalhos e tantos outros efeitos desencadeados. Um bom exemplo, são os jovens que se qualificam nas iniciativas da SDEA, que saem dos cursos de formação praticamente empregados por estarem prontos para trabalhar para qualquer país e sem a necessidade de abandonar a terra natal. 

No sector do turismo, um dos mais relevantes para o Açores, pode-se sentir a exponencialização do impacto positivo em toda a cadeia. 

Pelo segundo ano consecutivo, a Sata é parceira oficial do Web Summit. Vítor Costa, membro do novo conselho de administração da companhia, declarou que estar no evento “é mais uma forma de participar num mercado muito concreto de engenharia, de incubação e do empreendedorismo, favorável em todos os sentidos para a nossa actuação estratégica no Atlântico, conectando os continentes europeu, americano e africano”. 

Na evolução do destino, estão incluídos a expansão de actuação para o verão de 2019 a favor de estabilidade e melhores serviços, bem como consolidação das rotas históricas ligadas à diáspora inerente aos Açores. 

No agronegócio, a digitalização está na pauta, com vista à optimização urgente dos processos e da expressividade do sector na economia regional. 

Zelar pela marca Açores e por toda a tradição e cultura que ela representa, também é atribuição da SDEA. Sob o selo da marca, actualmente estão contabilizadas 187 empresas e 3007 produtos alimentares, não-alimentares e serviços que, em média, acrescentam um valor de 20% às exportações. 

Gonçalo BelmonteAcreditando nesta outra forma de empreender, Gonçalo Belmonte desistiu de carreira formal executiva para fazer do seu hobby - o surf, a sua fonte de inspiração para criar um novo negócio, a Breklin, que se dedica ao fabrico de pranchas de surf de madeira.

Guiada pela sustentabilidade, a empresa se utiliza de madeira certificada da espécie criptoméria, que hoje representa um terço da floresta encontrada nos Açores. 

Segundo Belmonte, “após 40 anos, as criptomérias têm que ser cortadas para evitar os acidentes da queda e esta foi a oportunidade de unir o útil ao agradável, uma solução ecológica para a matéria-prima dos nossos produtos”. Assim os esforços da região demonstram estar em perfeito alinhamento com tudo o que está acontecendo no Web Summit. 

E este não é um movimento só de jovens e pequenos empreendedores. Um exemplo consolidado de actuação responsável foi apresentado por Tony Milikin, CEO de Sustentabilidade e Governança da gigante AB In Bev. No palco do planeta tech, dedicado às causas do futuro, Milikin apresentou iniciativas que estão em curso para minimizar os efeitos da produção anual de 20 bilhões de garrafas de cerveja. A AB In Bev tem uma facturação anual de seis biliões de dólares, sendo que uma em cada quatro cervejas consumidas no mundo pertence à marca. Segundo Milikin, “quanto maior a escala, maior tem que ser a preocupação com a sustentabilidade em todos os sentidos”. 

Camiões eléctricos, tratamento e respeito às águas, reciclagem de insumos e até financiamento aos produtores da cevada têm vindo a ser implantados para beneficiar a cadeia como um todo e não só a linha de produção. 

Ao que parece, a era do capitalismo selvagem está a reinventar-se para se adaptar aos novos tempos, em que transparência e pensar no colectivo são fundamentais para o sucesso nos negócios.

 

Por Marisa Furtado, em Lisboa, para o Diário dos Açores