A União Europeia não é um banco

A minha formação humanista teve como suporte a cultura greco-romana e judaico-cristã. Os meus professores formaram-se em universidades europeias e aí beberam as ideias do pensamento europeu moderno, derivado da Reforma e da Revolução Francesa.
A influência da cultura francesa na minha geração foi tal que, o curriculum liceal obrigava os alunos a terem cinco anos de Francês e apenas três de Inglês. A própria História universal relevava a França em detrimento de outras grandes nações. Isso fez com que ligássemos mais às novas experiências e doutrinas que chegavam de França e de outros países francófonos.
Os tempos hoje são diferentes.
Na ordem do dia, estão a ideologia e as propostas dos candidatos ao Eliseu situados entre a extrema-direita e o centro, o que me leva a pensar que os supremos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que se expandiram para todas as latitudes, são subvertidos por velhas ideologias que julgávamos arredadas do pensamento político contemporâneo.
O ciclo histórico que vivemos tem-nos trazido muitas surpresas: a eleição de Trump, o Brexit, a ameaça e ascensão ao poder de políticos e partidos europeus de extrema-direita, a crise da União Europeia, tudo resultantes de acentuadas diferenças sociais e do atropelo aos direitos humanos, que levam os cidadãos a olharem para a Europa, com uma acentuada descrença e grande preocupação.
Em Portugal, a integração na CEE, em 1 de janeiro de 1986, trouxe benefícios incalculáveis, sobretudo para as regiões menos desenvolvidas.
Nos Açores, o estatuto de Região Ultraperiférica consagrou a majoração de apoios financeiros destinados a debelar uma série de condicionantes que envolvem diferentes setores de atividade: das pescas à agricultura, dos transportes e comunicações à educação, do ambiente à indústria, etc.
Os vários pacotes financeiros permitiram, em trinta anos, alavancar o desenvolvimento socioeconómico açoriano, embora muito haja ainda a fazer.
O Orçamento Regional para 2017 prevê a transferência de cerca de 207 milhões de euros da UE, destinados a investimentos nos vários setores de atividade, enquanto as transferências do Estado para a Região foram de 80 milhões apenas.
Há, pois, que aproveitar bem as avantajadas verbas vindas de Bruxelas, para que possamos ultrapassar, de uma forma sustentada, os constrangimentos inerentes à insularidade, e não nos tornarmos um povo de invertebrados pedintes.
Causa-me certa estranheza ver a sobranceria do discurso permanentemente acusatório de responsáveis da lavoura açoriana, ameaçando o governo de manifestações por todas as ilhas, exigindo soluções para os seus problemas e a satisfação das suas pretensões. Como se a lavoura e os produtores não fossem responsáveis pela gestão e riscos da sua atividade e vivêssemos numa economia dirigida, ou do Estado patrão.
A ser assim, não nos espantemos de ver o comércio tradicional, o setor dos transportes e comunicações, os pequenos empresários de construção civil, os desempregados e outros, reivindicarem também programas e apoios específicos no âmbito do POSEI, para ultrapassarem as graves dificuldades por que passam.
Todos sabemos o quão tem sido beneficiada a agricultura no seu crescimento produtivo, cujos resultados estão à vista. Mas não se pode atribuir às entidades governamentais a má gestão de lavouras, os constrangimentos do mercado, ou a incapacidade da indústria para inovar e modernizar os produtos láteos. Repito: não vivemos numa economia dirigida, mas numa economia livre.
Para muitos, a UE a 27 foi encarada apenas como uma entidade financiadora de projetos e investimentos regionais, e pouco importou se foram bem ou mal geridos e se eram ou não sustentáveis.
Perante a incerteza de uma União Europeia que por estes dias assinala mais um aniversário da declaração de Robert Schuman, feita em Paris em 1950, os cidadãos dos Estados Membros têm de refletir se preferem pertencer a uma Europa pautada pela “cooperação pacífica e pelo respeito pela dignidade humana, pela liberdade, democracia, igualdade e solidariedade entre nações e povos europeus” , ou se só pretendem ser clientes de um banco rico de um momento para o outro pode fechar a torneira dos euros.
É que uma UE assim, não tem futuro.

*Jornalista c.p.536
http://escritemdia.blogspot.com

Recordando o Prior José Luis de Fraga

- virtuoso sacerdote e impulsionador da música e do folclore regional

Há dias o Grupo Folclórico da Fajã de Baixo comemorou 43 anos de existência, tendo havido no Centro Cultural Natália Correia na Fajã de Baixo uma sessão evocativa deste acontecimento, na qual houve um momento musical e feita uma resenha histórica da vida daquele agrupamento e ainda sido salientadas várias figuras que no «antigamente» muito contribuíram para a divulgação do folclore e da musica regional, desde os seus primórdios.
De entre essas figuras recordadas evocou-se a figura do Padre José Luís Fraga, como um dos seus primeiros e grandes impulsionadores, pela notabilidade que pode desenvolver para que a música e o folclore que nos legaram os nossos antepassados «regressassem», naturalmente, à partilha dos valores culturais do povo açoriano.
Aliás, por coincidência – se bem que em tempos diferentes - no período desta Páscoa, a propósito da colaboração que publiquei neste Jornal, recordei a sua figura quando pároco da freguesia de S. Pedro, mas na qualidade de «orador-oficial», das principais cerimónias religiosas que se realizavam na Igreja de S. José, onde fui paroquiano durante mais de 50 anos.
Desde então, fui-me habituando a «entender» a sua vasta cultura teológica e também o sentido humano que inspiravam as suas palavras, decerto pela grande aproximação que sempre demonstrou para com as famílias mais carenciadas da sua área paroquial, onde uma parte vivia do mar.
Era nítido que estávamos perante Alguém que sempre pregou o Evangelho da caridade e do amor, ao mesmo tempo que não tinha pejo em denunciar os grandes males que enfrentavam a sociedade local daquele tempo, ainda muito no seguimento da ressaca provocada pela 2ª guerra mundial e dos efeitos que teve no plano económico, incluindo a falta de trabalho, o que obrigou ao que pode dizer-se à 2ª grande fase da emigração, sobretudo para o Canadá, isto no inicio da década de 50.
Também recordo que, numa Quinta Feira Santa ia caindo «o carmo e a trindade», após o sr. Padre Fraga ter pronunciado o sermão do lava-pés, (que antes do Concilio era de tarde, separado da missa celebrativa da instituição da Eucaristia); e, entre nós, era tradição que durante o período da Páscoa se realizassem torneios de futebol com a participação de equipas açorianas, sobretudo da Terceira. E, a Associação de Futebol de Ponta Delgada entendeu marcar um desses encontros para a tarde de sexta-feira Santa!
Do alto do púlpito o sr. Padre Fraga, com a firmeza que lhe era tão peculiar, discordou da intenção e acrescentou que a única resposta dum cristão seria pura e simplesmente ignorar o facto e não comparecer.
Já se vê que a Associação de Futebol, que era presidida por António Horácio Borges, não gostou da «sugestão» e na imprensa aduziu das razões que, em seu entender, em nada comprometiam a solenidade e o simbolismo do dia.
Naquele tempo era assim, cada momento tinha o seu lugar próprio…
Quando em 1953 fiz estágio na escola S. Pedro, no edifício do «Plano dos Centenários» que ainda hoje se situa na Rua Mãe de Deus; e, no ano lectivo de 1954/55, ali trabalhei já como professor, coube-me uma turma da 4ª classe.
O ambiente escolar era amigável e a presença do Senhor Padre Fraga para orientar as lições de Moral e Religião constituía sempre um especial e diferente espaço de convívio, que tanto aproveitavam tanto os alunos como os professores, tal era a intuição como se dispunha a orientar o tema das lições.
E, se por um lado se aperfeiçoavam as verdades da Fé, por outro, obrigava-nos a reflectir o verdadeiro sentido da vida e até da camaradagem e a ajuda-mútua que deveria existir entre todos, conceitos que iam muito para além duma catequese dominical.
Mas o que de mais original distinguia essa sua presença era o facto de se fazer sempre acompanhar dum gravador - coisa rara naquele tempo- que transmitia através de bobines em fitas gravadas o que era, entre nós, um instrumento raro, só conseguido para quem tinha um amigo na Base das Lajes ou então um parente nos Estados Unidos.
Esse facto que tanto ilustrava a sua intuição de educador era factor que não só amenizava a lição, mas sobretudo procurava incutir nos alunos o conhecimento pela música regional açoriana, como ainda os despertava para os valores mais intrínsecos duma cultura que nos havia legado os nossos antepassados, quem sabe mesmo desde o povoamento.
O Sr. Padre Fraga rodava e tornava a rodar o material musical precioso que as bobines continham e, de semana para semana, era visível que os alunos se iam entusiasmando por uma arte musical que andava um tanto ou quanto esquecida  dos nossos gostos culturais, incluindo os balhos populares.
Recordo que um dos meus alunos desse tempo era o Victor Melo - que sempre deve ter acompanhado, com especial interesse, esses momentos de prazer - e até os soube absorver, de tal maneira com a intuitiva mestria que lhe transmitiu o sr. Padre Fraga, que é hoje um elemento dos mais valiosos na divulgação, no estudo e na investigação da música regional, aliás uma qualidade a que se juntaram tantos outros que, como ele, continuaram a dedicar-se à recolha folclórica, transmitindo esse dom pelas novas gerações.
Por obra que não é do acaso, senti a feliz oportunidade de com ele trocar algumas informações que confirmassem o conteúdo desse testemunho; e, porque são passados mais de 60 anos, pude ter a alegria de saber que após as audições que o senhor Padre Fraga transmitia, toda a classe passou, doravante, nos tempos destinados ao canto coral, a entoar não só as canções que obrigatoriamente os manuais da Mocidade Portuguesa exigiam, como também nos dedicamos à música folclórica que habilidosamente saíra daquele precioso gravador…
Posso pois afirmar que o senhor Padre Fraga deve ser mesmo considerado como um dos precursores que lançou as primeiras bases da música regional pelas escolas por onde passou; e nelas deixou um especial rasto de sensibilidade e de simpatia, proporcionando que os professores pudessem ser capazes de introduzir uma prática de açorianidade na aprendizagem, porque mais tarde essas canções surgiram nos orfeãos que animavam as festas escolares e, anos depois, até apareceram alguns grupos folclóricos infantis.
Creio, igualmente, que deve ter constituído uma achega valiosa nesse empolgante conhecimento e divulgação da música folclórica, o facto de, em 1953, como bolseiro da Junta Geral do Distrito, ter estado entre nós a proceder a uma recolha dos nossos cantares, o Professor Artur Santos, considerado então a maior autoridade no seu género no pais, pois após as recolhas que realizou em várias ilhas, as mesmas foram gravadas e chegaram a preencher muitos dos programas produzidos pelo então Emissor Regional dos Açores, o que ajudou a «agitar» essa onda de interesse que foi envolvendo a população local.
Com a cooperação de Manuel Inácio de Melo, (seu paroquiano /autodidacta e sempre desperto para os valores culturais e etográficos do povo), o Senhor Padre Fraga ajudou a fundou o grupo de Cantares «Tavares Canário», a que se seguiu a criação do «Grupo Folclórico de S. Miguel», enfim um período de excepcional valor no conjunto do nosso panorama músico/cultural e que hoje representa um dos mais representativos valores patrimoniais onde quer que represente S. Miguel em terras estrangeiras e mesmo no continente português.
Ainda no campo sacerdotal exerceu as funções de substituto do ouvidor de Ponta Delgada; e, uma das ausências de monsenhor José Gomes coincidiu, em Junho de 1948, com a primeira vista a S. Miguel da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, cabendo ao senhor padre Fraga a organização do triunfal programa delineado para cada uma das nossas freguesias.
Esse acontecimento foi depois reunindo em livro, por iniciativa de Manuel Inácio de Melo e constitui hoje um documento histórico de grande valor pelos emocionantes momentos de Fé e de apoteose que registam.
Por indicação do Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, o Sr. Padre Fraga foi anos depois colocado em Vila Franca do Campo, como Prior da histórica Igreja Matriz de S. Miguel e ainda como ouvidor eclesiástico, onde continuou a sua notável obra apostólica e cultural, que ainda hoje é ali recordada, na complementaridade da época dos «padres-mestres» que preparavam alunos para o ensino secundário e também para os estudos preparatórios no Seminário de Angra.
Os contactos que com ele mantive rarearam mais, mas sempre acompanhei por via do meu colega e Amigo Professor Teotónio Machado de Andrade o seu continuado percurso sacerdotal, pois os dois também mantinham um comum interesse pelos estudos etnográficos e musicais.
Aliás, também nos chegamos a encontrar naquele agradável convívio anual de amigos que o professor Teotónio promovia no belo recanto que era a sua «Fonte Milagrosa», ali para os lados da Rua da Cancela, para uma prova dos «sabores da Vila», que era mestre em preparar.
Era um momento de rara e amena cavaqueira e tinha como habituais convivas o Poeta Armando Cortes Rodrigues, o prof. José da Costa, o Reitor Dr. João Anglin, o Dr. Augusto Botelho de Simas e também Manuel Inácio de Melo, bem como outras pessoas ligadas às letras e às artes.
E, nesta quadra, do Poeta Armando Cortes Rodrigues, tudo se expressa:   
   
    Esta Fonte Milagrosa
    É recanto de amizades:
    Quem vem encontra ternura;
    Quem parte leva saudades.

Depois veio a doença … e a paragem habitual do senhor Padre Fraga, tantas vezes acompanhado pelo professor Teotónio, passou a ser à sombra do velho cedro que existia no Jardim público, onde ambos naturalmente discorriam sobre as coisas da Vila, da sua história e também do seu folclore.
São estas as saudosas imagens que ainda hoje guardo do Prior José Luís de Fraga, infelizmente uma figura que a cidade esqueceu… e que bem merecia ser reavivada pela obra apostólica e cultural que nos deixou. Aliás foi um sacerdote que esteve sempre muito acima do que era comum nos movimentos da vida da Igreja.
E foi pena que não pudesse ter vivido, em plenitude, os conceitos expressos no Concilio Vaticano II, pois pelo seu perfil de pensador acredito que, em muitas ocasiões, talvez o tivesse antecipado!           

Independentes de quê?

Com um voto expresso e público de fidelidade, vontade de servir e amor a Ponta Delgada Álvaro Dâmaso, ex-dirigente regional do PSD, anunciou a sua candidatura à Câmara Municipal desta cidade como…”independente”!
Pouco tempo depois, e após o PSD ter apresentado a recandidatura de José Bolieiro à mesma autarquia, Dâmaso dá o dito por não dito e, pela boca do responsável regional daquele partido, anuncia a sua desistência.
É legítimo pensar que, ao anunciar a sua candidatura como independente, Dâmaso visaria provavelmente antecipar-se a uma candidatura partidária do PSD e conseguir com isso arrastar até, além do apoio do PSD, o apoio de outros partidos e cidadãos de áreas políticas diferentes do PSD, ao jeito do que fez Rui Moreira no Porto, ou Décio Pereira na Calheta, em S. Jorge. Porém, após a sua desistência, resta muito pouca legitimidade para pensar na real “independência” da (ex-) candidatura de Dâmaso…
Todo este imbróglio à volta das candidaturas ao maior município dos Açores levanta uma questão pertinente, a das candidaturas municipais ditas independentes. Olhamos para Oeiras, no continente, e vemos Isaltino Morais a pretender regressar como “independente” em 2017 (e defrontar o seu afilhado “independente” Paulo Vistas), tal como já aconteceu com o “independente” Valentim Loureiro em Gondomar, ambos ligados à área do PSD mas dela afastados por conexões processuais com a justiça. Olhamos para o “independente” Narciso Miranda, em Matosinhos, e vemos um homem do PS, partido de onde foi excluído. Olhamos para Avelino Torres, de Marco de Canaveses, e vemos um “independente” hoje e um homem do CDS amanhã, ou vice-versa. Olhamos para o “independente” Marco Almeida, em Sintra, e vemos um homem do PSD, que o PSD não quis apoiar em 2013, etc. etc.
Enfim, sem falar das muitas listas não partidárias concorrentes às freguesias (como na minha, em Santa Clara) que, por estarem confrontadas com problemas muito concretos, refletem em geral uma união de vontades que vai para além dos partidos (e não contra eles), na maioria dos casos as listas de “independentes” nos municípios aparecem ou porque os seus cabeças não foram os escolhidos pelo seu partido, ou porque, sendo afetos a este ou àquele partido, estão a contas com a justiça, ou porque se têm em boa conta de si e calcularam erradamente que o partido a que estão ligados poderia servir de trampolim útil para a concretização das suas ambições políticas pessoais…
Tudo isto resulta afinal da confusão, propositada ou não, entre as chamadas listas de “independentes” e as (legais) listas de cidadãos eleitores. Estas últimas, embora não dependentes de um partido ou coligação, podem incluir no seu seio candidatos de diferentes partidos ou sem partido nenhum. Os verdadeiros independentes, esses não têm listas próprias, de acordo aliás com o sentido da palavra “independente”, e, tal como é habitual, tanto podemos encontrá-los nas listas de cidadãos eleitores como nas listas partidárias.
Insistir em colocar a etiqueta dos “independentes” nas listas municipais de cidadãos eleitores decorre não poucas vezes da intenção de as opor, como fonte de virtudes (que a realidade muitas vezes desmente), às listas apresentadas pelos “corruptos” partidos políticos, o que levado ao absurdo desembocaria provavelmente na condenação da própria existência dos partidos. Mas onde é que já vimos este filme?
Ainda pensando nas apregoadas virtudes das ditas listas de “independentes” e a propósito das eleições para o parlamento açoriano, aqui fica à reflexão da Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia…

Eleições em França: Razões para uma Reflexão, no Horizonte do Futuro

No passado dia 23 de abril deste ano de 2017, tiveram lugar as eleições francesas para a Presidência da República. Na primeira volta, foram mais votados Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Nome aziago, este último.
A França e a Europa precisam de fermento, de perspetiva, de Horizonte e de Esperança. Mas os políticos precisam de um forte arroxo, o tempo de jogadas, como se os cidadãos não existissem, - e não entendessem - tem de pertencer definitivamente ao passado. Os cidadãos não estão apenas cansados, estão fartos, estão furiosamente indignados. Ou se acerta o Rumo, ou, caso contrário, a Europa não terá uma próxima oportunidade e poderá caminhar, de modo irreversível e perigosíssimo, para o abismo.
De que Fermento precisa a Europa? De ideias, de causas, de princípios atuantes, de ação esclarecida. Se fosse francês teria votado e votaria, sem um milímetro de dúvida, em Emmanuel Macron. Só o nome cria uma ambiência afetiva que nada tem a ver com as questões de género, como se vê, mas com o Género das Ideias. Embora Emmanuel Macron não deva ser uma soma de compromissos mas corporizar a unidade de um Projeto para a França e para a Europa. É, justamente, a França e a Europa que estão, simultaneamente, em causa. Salvar uma é salvar a outra, condenar uma é condenar a outra.
A Europa tem de revigorar os seus mais profundos Valores identitários, com pessoas que valem como Pessoas. A Pessoa vale como Pessoa e só aí está a sua Grandeza e a Garantia de Ser em Honestidade, em Valores Humanos.
Quem, por ser homem ou mulher, faz a diferença entre votar em matéria de leis pela vida ou a favor da eutanásia?, em salvaguardar os mais frágeis e abandonados, os Cristos Partidos? Nem Homem nem Mulher, em Política, mas o Género Humano. Eduquemos as Pessoas, o Género Humano.
Eduquemos as Ideias que nos fazem e com as quais somos, mais ou menos gente, mais ou menos Pessoas. E temos de ser Pessoas. Com as ideias, que temos ou não temos, fazemos mais e melhor Europa ou menos e pior Europa. A Dignidade escreve-se com Maiúscula, no feminino, ou no masculino. 
De que Género eram os Pais Fundadores da Europa? Eram do Género das Ideias altas, profundas e dignas. Das Ideias que nos fazem acreditar no melhor que há em nós, em cada um de nós, no ser Humano, no Género Humano. Os Pais fundadores da União Europeia (então CEE – Comunidade Económica Europeia) sentiam a dor das feridas e das chagas da Guerra. Eram valentes e sensíveis. Lutaram e aguentaram por um Ideal, um Ideal de Paz. Os Pais da União Europeia tinham – tiveram - o sentido da Maternidade e da Paternidade da Europa. Eram Homens de Inteligência, de Sensibilidade, de Visão, de Cultura. Eram Homens que se alimentavam da seiva e da polpa da Verdadeira Política, uma Política de Rosto Humano, de e para cada Pessoa, de cada Povo. Eram Homens que vibravam com a Palavra e com a Música que habitam o Tempo.
Ora, as eleições em França são cruciais para a própria França e, simultaneamente, para a Europa. Mas é preciso que a Europa tome sentido. A Europa e os seus líderes só o serão se tiverem a Sabedoria de criar condições para que cada Cidadão seja protagonista, que cada Povo seja protagonista. Ou o projeto é comum ou não é. Essa Europa a várias velocidades tem de ser explicada – desconfio dela – porque se reporta a razões económicas e financeiras, não a razões políticas, sociais e culturais. Ora a CEE deu origem à União Europeia. E a sua divisa é “Unida na Diversidade”. E o seu Hino é o Hino da Alegria. Esses valores têm de ser revigorados. A Paz, a Liberdade, o Desenvolvimento, a Justiça, a Segurança, a Diversidade, a Unidade em Diversidade.
Quando a maioria dos povos, melhor, dos governantes – com as suas ideologias – nas costas do Povo, decidiram não incluir no Preâmbulo da Constituição Europeia, a referência às raízes judaico-cristãs da Europa, senti que era uma Traição a Deus e uma traição aos europeus. Tal referência não tinha, como é natural, um vínculo programático.
Só os Valores dão força e coesão à Europa. Emmanuel Macron não tem um valor acrescido pela idade cronológica que tem. A sua juventude não vale por si. Nós temos a idade do nosso olhar, diz Vergílio Ferreira. Que olhar, profundo, tem Emmanuel Macron sobre a Europa? Será que nele mora o Espírito e a Alma da Europa? É Preciso ver latejar esse ideal e realidade. Ora, Jacques Delors, - Grande Presidente da Comissão Europeia, que foi – continua a dar sinais pujantes e provas de maturidade, - inequívoca -, de juventude, de pragmatismo e de sonho. As Utopias têm um potencial enorme de realização. Só um Coração Grande pode Saber Abraçar e Pensar a Europa. 
   

Nota: Este texto foi lido, originalmente, na Crónica Sinais no Caminho das Palavras, no Programa Entre Palavras, da Rádio Atlântida, no passado dia 30 de abril, deste ano de 2017. 


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

Leituras e Escritas do Mundo (III) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

Somos seres de falta, de falha e de imperfeição por isso se nos impõe a exigência, a autoexigência, o respeito mútuo. É tempo de levantar a bandeira dos valores maiores. Quanto estamos longe destes caminhos! Quanta falta nos fazem esses caminhos. Haveria mais e melhor Justiça, mais e melhor Educação, mais e melhor Cultura, mais e melhor tudo. A Lógica de Cristo foi outra, de facto, como nos ensina o Papa Francisco e os seus antecessores, - João Paulo II e Bento XVI -, como nos ensinam os Santos e Sábios. E como dar a volta a isto, a este mundo, sem outra lógica? Deixamos de nos reconhecer como irmãos. Então, o que podemos esperar de Deus? “Estamos sós e sem culpas”? ou será que estamos sós e com culpas? Não há nenhum cientismo que nos valha, não há nenhum cientismo que possa substituir o dever da Moral - em todos os setores - e da sua vivência. Aliás, o cientismo é, já, a degenerescência da verdadeira Ciência.
Caros ouvintes talvez seja tempo para ouvirmos outra Canção (música e letra) dos Il Divo, Aleluia.
Repugna-me a ganância, o luxo, a hipocrisia e a mediocridade. Também me repugna a caridadezinha de má consciência que nada tem a ver com a Lição da Caridade de uma Mulher tão frágil, mas com tanta força, que foi Santa Madre Teresa de Calcutá. O tempo que vem aí é um tempo de discernimento crítico. Reafirmo, vigorosamente, que a Pobreza e os sem abrigo não podem ser um negócio para quem quer que seja. Não estamos a parar para recriar a Sociedade, não à luz de modelos materialistas e economicistas, de sinais contrários, mas à luz do Humanismo Cristão, do Humanismo Humano, que não recusa, até, um genuíno humanismo laico, desde que a Pessoa seja princípio e fim em si mesma, como defende o Grande Filósofo Kant (1724 - 1804). Quem ouviu e seguiu o Grande Papa, Filósofo e Teólogo, São João Paulo II quando denunciou o “capitalismo selvagem”? É que do lado do capitalismo parece que as algibeiras estavam cheias, daí a crítica que lhe faziam em matéria de costumes. Uma visão redutora e, até, mesquinha, face a uma Figura de semelhante grandeza. Lembro-me das suas exéquias, da presença, impressionante, de líderes políticos e religiosos de todo o mundo, que se renderam, que tiveram de se render, na sua insignificância política - desde logo de países poderosos - face à Sabedoria e Visão de um Espírito Superior, de um Papa que sempre se opôs à intervenção militar no Iraque, como atrás afirmámos. O que estamos a aprender? Estamos a aprender? Queremos aprender? A História ensina-nos tanto e (quase) nada aprendemos com ela. Temos dito. O que é muito diferente da saudável reflexão que Nietzsche faz no livro Utilidade e Inconvenientes da História para a vida. 
E, todavia, somos e queremos ser, nestas Terras, os Açores, Irmãos do Divino Espírito Santo, que está sempre por se cumprir, em interioridade, para além da exterioridade, que pode ser um caminho, mas nunca O Caminho. É preciso mergulhar nessa imensa Interioridade - nos Açores Profundos, na sua Gente, de Alma Grande -  e nela encontrar uma Mesa de tantos Nós, vivos e mortos, que ficaram, em Espírito de Vida, também pelas vidas que viveram. Parece-me, às vezes, que os vivos estão cada vez mais mortos e os mortos estão cada vez mais vivos. Também nesse sentido que se restaure o Feriado do Dia de Todos os Santos. Mas recordar é pouco, evocar é mais, é mais fundo.
É preciso que a Literatura se faça Pão e Luz, se faça Educação e a Educação se possa nutrir de Letras que alimentam, para dar ser ao ser. É preciso cumprir as Bem-Aventuranças, pelas quais daremos conta no Juízo Final. E será a linha divisória ao que neste mundo já pode significar orientar a nossa vida, pessoal e coletiva, pela Categoria do Ser ou do Ter. O Ser é o Verdadeiro Ter que se partilha e compartilha, que se doa. Não o ter da moeda que cai da mão de quem não lhe faz falta. Há tantas formas de fome, há tantas formas de sede. Primeiro a física, cuidar do corpo, mas, igualmente, a fome e a sede espirituais, que ajudam a crescer, em estima. A metafísica que nos ensina que não somos apenas nem principalmente matéria - que degenera em materialismo - mas Espírito, que é fonte de abundância, de fartura, para dar e receber. Metafísica, de carne o osso, que nos faz olhar ao espelho, ver luz e sentir a dignidade de ser gente, ter trabalho, ter emprego, respeitar e ser respeitado.
A dignidade humana tem de ter um conteúdo concreto, caso contrário, é uma falácia perigosa na boca de sofistas, daqueles que fazem dos famintos e dos pobres objeto de investigação ou motivos de políticas sociais. Não. “O outro totalmente outro”, na expressão de Levinas, que me interroga, que nos interroga, que nos interpela, a fundo, a todos, recusando uma suposta solidariedade feita com o dinheiro que é de todos. Todos e cada um têm – e tem - de ser protagonistas das suas vidas, embora haja momentos em que seja necessário não apenas dar a cana mas também o peixe. Estamos tão longe do que significa, na sua raiz cristã, a palavra solidariedade e caridade. Mas cada um tem de descobrir o projeto que é, o projeto de ser que o habita, nas suas potencialidades e aptidões. As políticas públicas - seja onde for - têm de criar condições para que o outro seja quem é, quem deseja ser, quem quer ser como pessoa, em pessoa.  Ninguém pode ser expropriado do seu próprio ser. O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo, a partir de Roma, da Europa, - a partir de si mesmo - denunciando a situação dos excluídos, dos sem-abrigo, dos migrantes, dos refugiados. E todos nós somos, também, tudo isso potencialmente. E o Papa Francisco, de modo tão humano e intenso, faz-nos questionar e colocar no lugar do outro, - mesmo quando entra numa prisão -, para nos fazer sentir essas realidades, essas chagas que grassam no Mundo.
Também o Secretário Geral da ONU, Engº António Guterres, denuncia o grave desrespeito pelos Direitos Humanos, em todo o Mundo. Que Mundo é esse? Ainda há pessoas? Ainda há Instituições lideradas por pessoas de elevada estatura humana e categoria para os cargos que exercem? Aonde estão?
E estas perguntas, convergem para uma questão maior: Onde está Deus, no nosso Pensamento e no Horizonte das nossas vidas pessoais e coletivas?
Eis que irrompe o Silêncio.
Tempo para ouvirmos a Canção (letra e música, The Sound of Silence).
Tempo, agora, para referirmos alguns livros, alguns no seguimento de muitos dos aspetos que afirmámos: Os Fundamentos Espirituais da Europa, de Joseph Ratzinger; Um Ensaio sobre a Constituição da Europa, de Jürgen Habermas;  Não Nos Esqueçamos de Deus. Liberdade de Fé, Cultura e Política, de Angelo Scola; Europa. Os seus Fundamentos. Hoje e Amanhã, de Joseph Ratzinger; O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões, de Raimon Panikkar; A Ideia de Europa, de George Steiner, com Prefácio de José Manuel Durão Barroso.
De seguida, propomos uma outra Canção. Desta vez Para os Braços da Minha Mãe, de Pedro Abrunhosa, com Camané, também. (audição da Canção).
Já quase no final deste Programa – Leituras e Escritas do Mundo – sobre o Tema (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus, temos muito gosto em ler um Soneto de Antero de Quental, que se intitula “Na Mão de Deus”.
Caros ouvintes, praticamente no final deste nosso primeiro Programa – Leituras e Escritas do Mundo – temos muito gosto em partilhar convosco, em ouvirmos, em conjunto, Ilhas de Bruma. Este nosso Arquipélago dos Açores, - os Açores. Miguel Torga afirma: “O universal é o particular menos os muros”. Estamos no Centro do Mundo. Os Açores são Mundo, são mundos, no conjunto e no Horizonte do Mundo. Ilhas de Bruma, que falam ao fundo dos Açores, ao fundo de cada um de nós, nas funduras e nas alturas, nesse nosso modo muito peculiar de ser que esta canção, esta bela canção, tão profundamente expressa, também numa dimensão metafísica e humana.
(Audição, Letra e Música, de Ilhas de Bruma).
Um bom dia para todos. Foi com muito prazer que convosco partilhámos Leituras e Escritas do Mundo.
O Mundo na Rádio, para Pensar com os cinco sentidos.         


Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia 02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

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