O estranho caso do capitão Dreyfus

Nos finais do século XIX, um acontecimento social e político tornou a França num campo de batalha da opinião pública à volta de um grande escândalo. Espionagem a favor dos alemães, que podia ser pior?
Era o caso Dreyfus. Os franceses, durante anos, não falavam de outra coisa. Em público, ou privado, quem tocasse no assunto, arriscava-se a uma tal discussão que acabava em desacatos ou até numa boa bordoada. Mas que caso era esse que muito ultrapassou acontecimentos aparentemente bem mais graves e colocou os franceses falados nos quatro cantos do mundo?
Até então, Alfred Dreyfus, (1859-1935) era apenas mais um capitão francês, de família alsaciana, que podia talvez até ter uma bela carreira. De repente, uma série de suspeitas caem sobre ele. Acusam-no de traição e de conspirar contra a pátria a favor dos alemães. Os indícios foram sempre muito polémicos e confusos.
Surgiu um documento altamente comprometedor de espionagem nas repartições do Estado Maior alemão, em 1894. Uma empregada de limpeza encontrou-o num caixote de lixo e daí começava um caso que inflamou os ânimos dos franceses dividiu a nação e até muitos outros países do mundo incluindo Portugal e o Brasil.
As características deste capitão Dreyfus são importantes para o entendimento do caso. Era da Alsácia, província perdida pelos franceses há bem pouco na guerra. Era judeu e ainda por cima de família de industriais ricos. Muito reservado e com ar um pouco agradável, não tinha muitas simpatias. Podia-se desconfiar dele com o antissemitismo crescente. Era ainda o primeiro judeu a chegar a um posto tão elevado.
Sem consenso acerca do modo como foi descoberto o tal documento comprometedor, o certo é que um mal-estar e desconfiança invadiam o Ministério de Guerra e alastravam-se por todo o lado. Quem seria o culpado ou os culpados? Havia um traidor oculto e não se podia saber até onde o caso podia ir. Para apaziguar os ânimos e manter a moral face ao escândalo, era preciso, o mais depressa possível, identificar o espião, ou conseguir um bode expiatório que seria excelente para acabar com o clima de suspeita que se vivia.
O documento fatal, ou o “bordereau”, como ficou conhecido, era uma carta sem assinatura e que precisava de ser identificada. Foi sobre o capitão Dreyfus, que era então oficial de artilharia, que caíram as suspeitas.
A culpa ou inocência do oficial alsaciano discute-se por todo o lado. As provas? Passavam a segundo plano.
Foi rápida a solução oficial do caso. É acusado em setembro, em outubro Dreyfus é preso e o julgamento por um tribunal militar foi célere, bastaram quatro dias, pouco antes do Natal de 1894. Dado por culpado, Dreyfus é condenado.
A sentença foi prisão perpétua na Ilha do Diabo para onde embarca logo em Fevereiro do ano seguinte. Antes, a 5 de janeiro, num espetáculo terrivelmente humilhante, retiram-lhe os galões e quebram a sua espada de oficial. A multidão ululante seguiu os acontecimentos com furor e o julgamento foi dado pela opinião pública.
A colónia penal na ilha do Diabo, nas Guianas francesas, ironicamente denominado arquipélago das ilhas da Salvação era uma monstruosidade. O livro “Papillon” de Henri Charrière, 1969 e o filme do mesmo nome, demonstram a vida infernal dos presos, onde era fácil enlouquecer, suicidar-se ou morrer de mil doenças do clima insalubre. Além disso, o capitão estava a ferros, sem ver a luz do sol e tinha ainda tais castigos que só demonstravam o ódio que criara à sua volta.
O antissemitismo, ajudado pelo ódio aos alemães e desprezo por traidores, deu provas de grande força pelo enorme tumulto da multidão enfurecida que acompanhou o caso. A opinião pública tomava conta da situação e não eram os tribunais que ditavam a sentença.
O castigo de Dreyfus não calou o público. Pode dizer-se que era a ponta de um enorme icebergue do ataque aos judeus que aconteceria anos mais tarde, com toda a sua violência. Algum tempo depois da ida de Dreyfus para o degredo, aparece outra acha para a fogueira. Em outubro de 1896, o jovem jornalista Bernard Lazare, um poeta e anarquista da época, inicia a publicação de mais de 60 artigos intitulados “O erro judiciário - A verdade sobre o caso Dreyfus” no jornal “L’Echo de Paris”. Todo o francês lia e discutia a ferro e fogo o assunto.
Entretanto um irmão do acusado, Mateus Dreyfus, estava convicto de que era preciso haver novas investigações antes das campanhas para revisão do caso.  
A exaltação dos franceses acendeu-se ainda mais quando apareceu no jornal “Le Matin”, uma nota a confirmar a assinatura do prisioneiro no fatal memorando.
Faltava ainda mais um golpe de teatro. Nos fins de 1897, Mateus Dreyfus, sempre seguro da inocência do irmão, descobre que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy era o verdadeiro culpado. Sem mais dúvidas, a sua assinatura é reconhecida. Um banqueiro de origem portuguesa, de nome Castro, afirma que a assinatura encontrada é de um seu cliente Esterhazy.
Face às provas que evidenciavam a inocência de Dreyfus, agora era possível um segundo julgamento. O caso contava já com o apoio do escritor Zola e muitos outros dreyfusianos ilustres. Para indignação e espanto de uns, incompreensão e suspeita de outros, Dreyfus é novamente julgado e recebe a uma sentença outra vez condenatória. Agora, porém era “com atenuantes” o que não deixa de ser confuso. É óbvio que cresceu a indignação dos que acreditavam na inocência do oficial judeu. Por outro lado, como entender esses atenuantes se dão nova condenação agora com 10 anos de trabalhos forçados?
Acirraram-se os ânimos e as polémicas por todo o lado. Os antissemitas franceses estão exaltadíssimos e há fortes manifestações em Paris clamando contra os judeus. Porém os anti dreyfusianos depararam-se com defensores dos judeus, em número crescente, enquanto do outro lado a reação também subia de tom. Aos defensores de Dreyfus, Bernard Lazare e Scheurer veio juntar-se o jornalista Teodoro Herzl, criador do sionismo, do ideal do Estado de Israel, muito perturbado pela vaga de antissemitismo que alastrava na França e no resto da Europa.
Este ódio aos judeus tinha fortes raízes. O escritor Edouard Drumont, em 1886, publicara “La France Juive”, uma obra muito polémica contra os judeus. Outras obras semelhantes aparecem. O clamor era grande e o clima reacionário crescia com ataques a judeus, roubos, pilhagens, mortos e feridos. Na Argélia houve até autênticos “pogroms” com muitos mortos e as revoltas sucediam-se.
A escritora judia, Hannah Arendt recentemente ainda evocava “toda a vida política da França durante a crise Dreyfus passou-se fora do Parlamento”. Seria à volta de um assunto do foro dos tribunais, que os franceses tanto se exaltavam e ainda mais se agitavam. Demonstra bem os terríveis conflitos que se escondiam por trás de um só homem. Vítima ou culpado, no fundo era de menor importância. Nada melhor do que o sentimento da vingança e do insucesso para empedernir o coração e debilitar a razão.

Continua

Por: Lúcia Simas

O Inimaginável da Globalização e o Enigma do Futuro

 Podemos considerar como a primeira era da globalização, a época dos descobrimentos marítimos, com a nova abertura ao mundo.
De meados do século XIX até finais dos anos 20 o mundo conheceu uma nova era de globalização.
Não havia controlo de divisas, de modo que, mal foi estabelecida a ligação transatlântica por cabo em 1866, as crises financeiras bancárias em Nova York, passaram a fazer-se sentir em Londres ou Paris.
Até 1914, não se exigia passaporte para viajar, salvo em tempo de guerra.
As invenções do barco a vapor, do telégrafo, do caminho de ferro, do telefone e do automóvel, marcam a segunda era de globalização e de capitalismo financeiro global, que foi quebrada pela 13-Guerra Mundial, pela Revolução Russa e pela Grande Depressão.
O mundo dividido, geográfica e ideologicamente, que emergiu da 2ª Guerra Mundial, foi então congelado pela Guerra Fria, que foi um sistema internacional, que durou de 1945 a 1989, quando com a queda do Muro de Berlim, foi substituído por outro sistema, a nova e atual era da globalização pós Guerra Fria.
De onde se deduz que, o período de cerca de 75 anos, entre o início da 1ª Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria, mais não foi do que um longo intervalo, entre uma era de globalização e a outra.
Para imaginar a ordem de grandeza entre as duas épocas de globalização, segundo F.M.I., só em 1997, o fluxo de capitais privados do mundo desenvolvido para todos os mercados emergentes, totalizou 215 biliões de dólares, quando, em 1900, se mediam em centenas de milhões de dólares.
A segunda era de globalização, foi construída à volta da baixa do custo dos transportes, graças à invenção dos caminhos de ferro, do barco a vapor e do automóvel.
A atual era de globalização, está a ser construída à volta da baixa do custo das telecomunicações, graças aos microchips, aos satélites, ás fibras óticas e á Internet. Estas novas tecnologias, têm a capacidade de tornar o mundo mais apertadamente interligado. Em 1930, um telefonema de três minutos entre Londres e Nova York custava 300 dólares ( em dólares de 1996); hoje, através da Internet, é praticamente de graça.
O que torna a nossa era de globalização única, não é apenas o fato de estas tecnologias estarem a permitir, às tradicionais nações-Estados e às empresas, chegar mais longe, mais depressa, com menos custos, e mais profundamente, em todo o mundo, do que em qualquer outra época da história; é o fato de permitirem que, simples pessoas, individualmente o façam também. Por exemplo, uma americana, residente nos EUA, jogar bridge na Internet, com três franceses residentes em França, ou com uns fulanos na Sibéria; ou o caso de uma pessoa nos EUA sentada numa cadeira junto do seu computador ligado à Internet, carregar num botão - click no rato é o termo técnico - enviar ou transferir milhões de unidades monetárias, para os antípodas geograficamente ou de uma pessoa na Europa, transferir pelo mesmo processo, uma avultada importância de dinheiro para um banco offshore sediado algures numa das ilhas da zona das Caraíbas.
As prodigiosas maravilhas do computador, ligado ou não à Internet, do telefone celular, pelo qual se fala, enviam mensagens e se tiram fotografias, do fax, que parece um truque mágico, de colocar uma mensagem numa caixa e ela ir sair noutra caixa para onde a desejamos enviar, causam-me confusão e provocam pouco entusiasmo. Mas, eu já tenho mais seis anos, além dos três quartos de século de idade. Contudo reconheço que são uma banalidade e cartilha obrigatória e indispensável para as novas gerações. Quanto a mim, pode aplicar-se o ditado: burro velho não aprende línguas...
Todavia, e em contrapartida, tenho o mérito de ter aprendido o novo acordo ortográfico. Caminho na direção certa da atual ortografia do português. Quanto ao português é que, não sinto vibrar em mim, a expressão porque me orgulho de ser português, título de um livro de Albino Forjaz de Sampaio, pois esse orgulho tem-se esvaído, desde há uns anos atrás, pela política e pelos políticos do meu País.
É um fato ( sem ser peça de vestuário masculino...)
Ainda relembro as palavras do meu falecido primo, Dr. José Estrela Rego, que me disse - a propósito dos meus artigos para o Jornal Diário dos Açores e, do curso de economia que não concluí, primeiro, por motivo de doença e, segundo, porque fui apanhado pelo 25 de Abril, mas pelo qual, depois, me apaixonei, aprofundando o estudo e atualizado - ter sido uma pena eu nunca me ter interessado pelo computador.
E hoje, sinto as consequências desse meu desinteresse, quando agora estou a preparar para publicação, a biografia de meu Pai, feita por mim, por força das circunstâncias, guardada há muitos anos e, presentemente, a ser dactilografada e digitalizada no computador, por um primo meu, da nova geração, tenho quase o dobro da idade dele !
Depois desta breve divagação, volto ao assunto de que me ocupo aqui neste artigo.
Como foi que esta nova era da globalização, se tornou o sistema internacional dominante, no final do século XX, substituindo o sistema da Guerra Fria ?
Há várias obras literárias, que se esforçam por definir, compreender e vaticinar o mundo pós Guerra Fria: O Fim da História e o Último Homem de Francis Fukuyama; O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington e, os ensaios e livros de Robert Kaplan.
A pretensão destas obras literárias, é a incerteza e o enigma do futuro, para além desta nossa atual era de globalização, a era pós Guerra Fria, que muitos já compreenderam e sentiram e, da qual, outros ainda andam alheios. Nestas obras literárias, a interpretação prospetiva e reveladora do futuro não é muito holística e, também, muito menos é apodítica.
Se queremos compreender o mundo pós Guerra Fria, temos de começar por compreender, que um novo sistema internacional lhe sucedeu - a globalização. Sob o sistema da globalização encontramos, simultaneamente, choque de civilizações e a homogeneização de civilizações, desastres ambientais enormes e espantosos salvamentos ambientais, o triunfo do capitalismo liberal de mercado livre - a teoria neo-clássica de desregulação, da qual, foram paladinos Reagan e Teacher, na esteira do economista monetarista Milton Friedman - e a reação contra ele, a durabilidade de nações-Estados e, a emergência de atores não estatais, imensamente poderosos.
Comparemos as duas eras, a da Guerra Fria e a que lhe seguiu, a atual era de globalização.
O sistema da Guerra Fria, tinha as suas próprias ideias dominantes: a luta entre comunismo e capitalismo, a détente, o não-alinhamento e, por fim, a fase da mudança, com a perestroika e a glasnost, que foram, impercetivelmente, o prenúncio do fim do comunismo e da queda do império da U.R.S.S.
Tinha a sua própria medida definidora: a capacidade de carga dos mísseis nucleares; tinha a sua própria angústia definidora - a aniquilação nuclear.
O sistema da globalização, ao contrário da Guerra Fria, não é um processo estático mas dinâmico: envolve a enexorável integração dos mercados, nações -Estados e tecnologias, num grau nunca antes visto. A globalização, conduz à homogeneidade e, portanto, a uma perda de identidade, e esta está associada à tradição; o presente - ou talvez futuro - substitui o passado. A inovação substitui a tradição.
A ideia motora por detrás da globalização, é o capitalismo de mercado livre - quanto mais deixarmos agir as forças do mercado e, quanto mais aberta ao comércio livre e à concorrência forem as nossas economias - mais florescentes serão. A globalização significa, a generalização do mercado livre, a praticamente todos os países do mundo.
A globalização, tem também, o seu próprio conjunto de regras económicas - regras que giram à volta de abrir, desregular e privatizar a economia.
Culturalmente, e é a ideia fixa dos seus adversários, ainda que não inteiramente, é o alastramento da americanização, a uma escala global, como é o caso, por exemplo, da proliferação por toda a parte, até em países pobres, dos MC Donalds.
A globalização tem as suas próprias tecnologias definidoras: a computação, a miniaturização, a digitalização, as comunicações por satélite, as fibras óticas e a Internet.
Se a perspetiva definidora do mundo da Guerra Fria era a divisão, a perspetiva definidora da globalização é a integração. Enquanto a medida definidora da Guerra Fria era o peso das ogivas nucleares, que os mísseis conseguiam transportar, a medida definidora do sistema da globalização é a velocidade - velocidade de comércio, de viagem, de comunicação e de inovação.
Segundo o teórico político alemão Carl Schmidt, a Guerra Fria era um mundo de amigos e inimigos; a globalização tende a transformar tanto amigos como inimigos em concorrentes.
O sistema da globalização constrói-se à volta de três equilíbrios, que se sobrepõem e afetam reciprocamente. O primeiro, é o equilíbrio tradicional entre nações-Estados. O segundo equilíbrio, é entre nações-Estados e mercados globais. Estes mercados globais, são constituídos por milhões de investidores, que transferem dinheiro pela forma que já referimos.
Thomas Friedman, chama-lhes o rebanho eletrônico, e este rebanho, agrupa-se em determinados centros financeiros globais chaves, a que Friedman chama os Supermercados.
As atitudes e ações do rebanho eletrônico e dos Supermercados, podem ter um impacte enorme nas nações-Estados, ao ponto de provocarem a queda de governos.
Os EUA, podem destruir um país, largando-lhe bombas em cima e, os Supermercados, podem destruí-lo atirando abaixo o valor das suas ações.
O terceiro equilíbrio do sistema da globalização, o mais recente de todos, é o equilíbrio entre nações-Estados e indivíduos, que se classificam como Superpoderosos. Foi o caso do conhecido milionário saudita, Osama bin Laden, que dispunha de uma rede global própria, que foi apodado de A Sharia mais a Internet e que em finais da década de 90, declarou guerra aos EUA, e a Força Aérea americana viu-se obrigada a lançar um ataque com mísseis de cruzeiro contra ele, como se fosse outra nação-Estado. Foi depois ele o autor do célebre ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. É o caso do influente investidor institucional bilionário George Soros. E, no mundo de hoje, não estamos livres, de atos terroristas de algum tresloucado ou fanático que podem ter um alcance e perigo mundiais.
Nunca se poderá compreender o sistema da globalização, sem atender à complexa interação entre todos e cada um destes três atores: Estados contra Estados, Estados contra Supermercados e Supermercados e Estados contra indivíduos Superpoderosos.
Por agora vou terminar, tenho aqui na minha secretária do escritório, dois livros novos que me interessam ler e, este artigo, já deve ter a extensão mais ou menos ideal, para publicar no jornal, pois este vive sempre pressionado e com limitações, devido ao tablóide.
Continuarei brevemente.

Foz do Douro
Abril 2012

Tabaco, a Escravatura dum Vício

 

fumar-3Se fumar fosse uma necessidade básica do ser humano, como comer, beber, respirar, etc, o homem teria nascido com uma chaminé e tal não aconteceu. Assim, fumar é um hábito, não natural, adquirido e com graves malefícios no nosso corpo, afectando-nos a qualidade de vida e a longevidade. E porque o acto de fumar necessita de gestos do fumador, obviamente que afecta a execução, simultânea, de outras tarefas, por exemplo, falar, conduzir, trabalhar, etc. Estudo recente, concluiu que  os trabalhadores fumadores produzem, em média, menos do que aqueles que não fumam, isto é, o tabagismo afecta, de forma directa, a produtividade, pois um fumador faz, em média, 80 minutos de pausas diárias para fumar. Assim, num dia de trabalho, um trabalhador que fume um maço de tabaco por dia faz, em média, cerca de 8 pausas de 10 minutos num dia de trabalho de oito horas, o equivalente a cerca de  16% das horas de trabalho. Se antes da actual lei, as “pausas” eram relevantes, agora são-no ainda mais porque os trabalhadores ausentam-se do seu próprio posto de trabalho, muitas vezes deslocando-se para a rua. É inegável que o acto de fumar, dentro do horário laboral, prejudica a produtividade dos fumadores, pelo que neste período complicado,  do ponto de vista económico e social do nosso país, e que é pedido a todos os trabalhadores que produzam mais e melhor, os fumadores terão dificuldades em serem ?tão bons como os melhores?, se aqueles não forem fumadores. Assim, os trabalhadores/fumadores verão a sua produtividade afectada e, por essa razão, poderão ter o seu posto de trabalho em risco, porque as leis laborais estão a “apertar a malha”. Logicamente, os trabalhadores não fumadores terão legitimidade para protestarem contra essa ?regalia extra”, porque 16% na produtividade é um valor muito significativo. Assim, para alem de outros graves inconvenientes, os fumadores devem ter em conta esta dependência e evitarem que o tabaco seja o causador de caírem no desemprego ou terem dificuldades em arranjar trabalho, se o empregador se aperceber dessa sua tabaco-dependência.
Uma vez iniciado o consumo de tabaco, por várias razões mas em que “o socialmente aceite” e a imitação influenciam fortemente os jovens, rapidamente este se transforma numa dependência física e psíquica,  provocada  pela nicotina contida na folha do tabaco, como droga psicoactiva. O consumo regular de tabaco passa a representar uma escravatura, apesar do “prazer dum cigarro” e do acto emancipador (!) e aparece relacionado com um conjunto de factores pessoais de vulnerabilidade, sendo frequentemente associado a outros comportamentos de risco para a saúde. Acresce que o tabagismo não só é um factor de risco para o próprio fumador, mas também para todos aqueles que, não sendo fumadores, (con) vivem ou trabalham habitualmente em espaços poluídos pelo fumo do tabaco. Existe hoje a evidência científica  de que as pessoas expostas, de forma crónica ao fumo passivo, têm uma maior probabilidade de vir a contrair cancro do pulmão , doenças cardiovasculares (foi o meu caso pessoal), bem como diversas patologias respiratórias de natureza aguda e crónica.
O número de portugueses que pretende deixar de fumar, tem vindo a aumentar e isso acontece, maioritariamente, por razões económicos e também por efeito da actual lei que torna mais “trabalhoso e censurável” fumar. Contudo, este vício escravizante, torna difícil a libertação de todos aqueles que, inteligentemente e sem egoísmos, entendem que o prejuízo é, no mínimo, duplo e desejam largá-lo. Tarefa muito difícil, pois enquanto 7 em cada 10 fumadores tenta largar o vício, apenas cerca de 5% o conseguem. A diminuição do consumo e dos fumadores terá que assentar, assim, nas vertentes: i)  económica, mas encarecer mais o preço dos cigarros incentiva a evasão fiscal e o contrabando; ii) psicológica, através de campanhas e aconselhamento, apesar da maioria dos fumadores conhecer os malefícios do tabaco; iii) na lei,  impondo mais restrições dos locais de fumo. Se a lei em vigor foi uma “pedrada no charco”, perdão, nas “chaminés do fumo”, ela deixou ainda de fora algumas vítimas e que agora o Governo pretende incluir, nomeadamente a protecção das crianças perante o fumo dos fumadores, por exemplo, nos automóveis. Contudo, esta “agressão” pode começar  ainda antes da criança ser gerada, pois a mulher fumadora tem um risco acrescido decorrente do consumo de tabaco e na sua gravidez, o consumo regular de tabaco aumenta os riscos na gestação e na criança.
Porque somos um país de “puristas” e defensores da liberdade, logo algumas vozes se levantaram contra as medidas anunciadas, como sendo limitadoras da liberdade de cada um, esquecendo-se que “a sua liberdade termina onde começa a dos outros” e que os direitos das crianças, seus filhos ou não, precisam de leis que as defendam. Esta limitação, no que às crianças diz respeito, deveria envergonhar os fumadores  da necessidade de legislação, porque o seu egoísmo não os coíbe de agredirem as crianças com o fumo do tabaco e, também pelo exemplo, contribuírem para que os seus filhos também venham a ser fumadores. Há outros males, argumentam. Sim e muitos deles também os pais não sabem ou não querem proteger os seus filhos. Cada um é livre de fumar (apesar dos custos suportados pela comunidade com as doenças provocadas por esse vício), desde que não prejudique os outros, sejam crianças ou não.  
* Economista

Emílio Porto: o maestro morreu de pé

EMILIO-PortoLá se foi mais um amigo juntar-se ao coro d’Além.
O M. Emílio Porto morreu no seu posto de Maestro, quando ensaiava o Grupo Coral das Lajes do Pico que ele fundou, em 1983, para celebrar o centenário da Festa de Lurdes e da actividade baleeira.
O Grupo, no entanto continuou e continuará, certamente, pois os seus cantores e tocadores encontrarão uma alternativa para o infortúnio que, inesperadamente lhes bateu à porta.
Vem de longe o amor e dedicação de Emílio Porto à música, sobretudo à música coral que ele, nos últimos tempos, partilhava com os amigos no Facebook. As obras de arte e beleza que o Orfeão e a Capela do seminário tinham interpretado e outras peças clássicas, distribuía-as por aqueles que haviam sido “tocados” nos tempos da sua formação.
Emílio Porto tinha qualidades musicais inatas, de grau superior. No entanto, ao longo da vida foi aperfeiçoando a sua cultura e os seus conhecimentos técnicos, de tal modo que, do seu legado, fazem parte, não só arranjos polifónicos de temas do folclore musical açoriano, de melodias actuais de músicos regionais e também de canções populares portuguesas.
“Na memória das gentes” vai permanecer o seu arranjo coral da “Chamateia” (música de Luís Bettencourt, letra de A. Melo Sousa), a melodia “Montanha do meu destino” (Emílio Porto/José Enes) e a peça de maior fôlego “Nossa Senhora-Ilha à roda” (Emílio Porto/José Carlos) poema épico-musical de cariz religioso que enaltece o povo picoense cuja cultura e vivências ele tão bem soube interpretar e projetar.
A história dos grupos corais açorianos tem as suas raízes no Seminário de Angra, com os Padres José d’Ávila e Edmundo M.Oliveira.
Emílio Porto, enquanto seminarista foi regente da capela. Como pároco, implementou esses grupos nas paróquias e instituições por onde passou. Compôs muitos melodias sacras em vernáculo, adequadas aos tempos litúrgicos tendo a preocupação de inovar no respeito pelas normas conciliares do Louvor a Deus, da afirmação da fé e do recolhimento interior. Esse era um princípio de que não abdicava e que lhe servia de critério para ajuizar do canto sacro que se canta nas celebrações religiosas.
Emílio Porto pode muito bem equiparar-se ao maestro e compositor Fernando Lopes Graça.
O seu enorme interesse em conhecer o genuíno folclore musical destas ilhas, levou-o a pesquisar temas do cancioneiro popularte relacionados com as atividades em terra, no mar e nos tempos de lazer que as gentes antigas celebravam com alegria e entusiasmo.
Ficaram célebres temas tradicionais das várias Ihas cujos arranjos para coros constituiram, durante 30 anos, temas dos reportórios do Grupo Coral das Lajes do Pico em muitas deslocações pelo Arquipélago, Continente e  estrangeiro. A qualidade musical desses temas, reunidos em “O Meu Cancioneiro”, (2001) passou também a constar das atuações de outros grupos açorianos e continentais a quem Emílio Porto cedia gratuitamente, tal o desejo que dedicava à promoção da  música açoriana.
A recolha de melodias  populares em honra do Divino Espírito Santo e da quadra natalícia constituem um espólio importante que o Maestro reuniu em CD´s e em programas realizados pela RTP-Açores.
Estou certo que no seu escritório existirão muitas composições suas, inéditas, que não deixarão de ser divulgadas e interpretadas.
Não se pense, porém, que E. Porto se dedicava apenas à música.
Da Igreja, de que era um fiel consciente e preocupado, criticava a mediocridade intelectual de algum clero, a falta de reflexão teológica e a aversão da cúria romana à renovação. Em março passado, escrevia no seu blogue “Alto dos Cedros”: Decorrem 50 anos do concílio Vaticano II, um concílio que tanto prometeu, mas que nunca foi além do vernáculo na missa. Alguém, de créditos firmados, diz que o Concílio é agora. Vou mais longe: é agora, sim, mas já devia ter sido. Muito tempo se perdeu atrás de vaidades e preconceitos sem pés nem cabeça. Os apelos a uma prática antiquada são cada vez mais pontos de desorientação e afastamentos.
Parece que existem duas forças antagónicas. Uma que parte do Vaticano e que aponta sempre no sentido do seu passado interno. Outra que espera abertura a novas formas de estar dentro da Igreja.
A lucidez com que apreciava o rumo pastoral da Igreja, trouxe-lhe alguns engulhos e incompreensões mas nem por isso deixou de afirmar, de forma séria, as suas convicções.
M. Emílio Porto é uma personalidade cujo nome ficará para sempre na história da música e da cultura açoriana, ao lado de Francisco Lacerda e de Tomás Borba.
Se a arte se eterniza no tempo, a do Compositor e Maestro do Grupo Coral das Lajes do Pico será, para as gerações vindouras, uma valiosíssima herança patrimonial. Divulgá-la será a melhor homenagem que lhe farão os agentes culturais dos Açores e desta Ilha Montanha que o viu nascer e morrer.
PS: Quando terminei esta memória fúnebre fui confrontado com outra morte: a de outro picoense - Professor, Jornalista e Comendador - Fernando Melo. Acompanhou-me, durante vários anos, na produção de reportagens televisivas sobre as gentes destas ilhas. Nos arquivos da RTP-Açores há vários documentários, uma herança inestimável que merece ser revisitada. Para além da sua ação na imprensa faialense e terceirense e das funções educativas e sociais que desempenhou, o cidadão Fernando Melo prestou um contributo inestimável a estas ilhas.
jornalista c.p. 536

O Barão Vermelho: Lenda ou Enigma *

No meio do verdadeiro inferno que se vivia por toda a parte, em plena grande guerra, Manfred von Richthofen era muito metódico e preparava sempre cuidadosamente cada ação no seu avião, segundo planos programados. O seu método de combate era muito exigente, com base na “Dieta de Boelcke”, seu mestre, com regras importantes tanto para o esquadrão voador como para o sucesso pessoal.
Se bem que, seguro de si, o Barão Vermelho nunca teve para com os inimigos, prisioneiros ou não, qualquer sinal de rancor pessoal, ou via a guerra como algo que lhe retirasse os hábitos da sua sólida educação ou desse falta de dignidade e lealdade para com os adversários.
Essa guerra ainda viu cumprir-se com dignidade o código de honra e admiração mútua dos combatentes, mais no ar que em terra.
Richthofen foi uma lenda e um mito, admirado até pelos seus inimigos. Por um lado, era um forte incentivo para os alemães e por outro os aliados viam nele a coragem personificada. Uma vez, aprisionaram vários desses aviadores aliados abatidos nos seus pequenos caças. Um inglês, muito intrigado, referiu aos seus captores o rumor de haver uma jovem aviadora no meio dos alemães. Era um boato que corria e até lhe chamavam a nova “Joana d’Arc dos prussianos. O aviador mostrava grande interesse em saber quem era a jovem que usava o seu aparelho pintado de vermelho. A opinião corrente é que tinha de ser uma mulher. Ninguém aceitava que fosse um homem pois parecia que só uma rapariga teria a ideia de ter um avião assim. Richthofen ouviu tudo, calado e extremamente divertido. Disse-lhe então que a tal jovem estava ali na sua frente, pois era ele. O aviador não queria acreditar tal era o espanto por ver pessoalmente o Barão Vermelho, em vez uma extravagante jovem alemã.
Também o conheciam por Diabo Vermelho, “O Cavaleiro Teutônico da Era Moderna” e ainda “Nobre Inimigo de Coragem e Destreza” pois tinha várias designações.
Nada como um herói para exaltar a fantasia e elevar o moral das tropas. Ainda obteve as mais altas condecorações na Alemanha, antes de ser atingido pelos inimigos.
O seu avião, Fokker, nome do construtor, era vermelho para atrair os inimigos e para os desafiar. Assim o declarou:
“ Um belo dia, eu tive a ideia de pintar meu avião de vermelho vivo. O resultado foi que absolutamente todos passaram a conhecer meu pássaro vermelho. Por sua vez, meus oponentes também não estavam completamente desavisados.”
Também lutou em conjunto com os companheiros no chamado “circo infernal” de que foi o comandante em missões diversas. Em abril de 1917 causaram um verdadeiro terror aos aliados com as suas manobras arrojadas.
 Da França e ao Reino Unido sem esquecer  italianos,  russos,  australianos,  portugueses, todos sabiam da existência do lendário  aviador.
Cerca de um ano antes da sua morte, Manfred foi ferido com muita gravidade. Conseguiu aterrar numa perigosíssima manobra em terreno belga. Mas os ferimentos foram muito graves. Ele  contou que, de repente, se apercebeu que estava a ser atacado por trás e adivinhou o perigo, logo a seguir, sentiu uma forte impressão por trás da orelha esquerda, ficou paralisado, inconsciente e cego por momentos, porém, mesmo assim, conseguira recuperar o controlo e pousar de emergência.
Depois foi submetido a múltiplas cirurgias no crânio para remover lascas de ossos na área atingida, o que era muito doloroso e obrigou a operações muito delicadas.
Contra as ordens do médico, teimou em voar antes de acabar o tempo de convalescença. Pode dizer-se porém que, apesar de continuar a luta, nunca mais foi o mesmo.
Além disso, era bastante inteligente para perceber que a guerra do lado alemão já estava perdida apesar de todos os esforços do general Ludendorff numa ofensiva desesperada. O povo estava na maior miséria e sem possibilidades de abastecimentos. Estado consciente da situação, isso também o tornava mais sombrio, cada vez mais inquieto, taciturno, sem aquele seu sentido de humor habitual.
Os ferimentos deixaram sequelas. Passou a ter horríveis dores de cabeça e, todas as vezes que voava, tinha náuseas ao voltar a terra. Segundo se diz, parece que isso lhe afetou o temperamento pois passou a ter crises de distúrbios de humor. Mas ainda conseguiu em convalescença, escrever um livro, a sua autobiografia, “Der rote Kampfflieger”, que foi traduzida e publicada na Grã-Bretanha com o título “A Batalha do voador vermelho” sobre os seus combates. A edição esgotou-se várias vezes em pouco tempo. Fez também diversas viagens para elevar o moral dos alemães enquanto se restabelecia para retornar ao combate.
Embora tivesse passado de caçador das florestas paternas para a de seres humanos, o seu sangue frio e dignidade eram firmes.
A aviação, para quem gostava tanto da caça e de liberdade, ao transformar-se em arma que consegue abater um alvo, similar a si mesmo, no caso de nem ser só humano nem máquina, atinge uma situação que deixa de parecer ação de guerra e muito mais um verdadeiro desafio levado ao seu máximo limite. Abater ou ser abatido. Vencer ou ser vencido. Nunca sem perder o respeito pelo inimigo. Homenageava os aviadores abatidos ou desejava as melhoras quando escapavamm à morte. Chegou a enviar uma caixa de charutos a um oficial que estava no hospital e ele derrubara.
O vestuário adequado para pilotar um avião quase só de fogo e aço, era bem complexo e com todo o rigor, da cabeça aos pés. Também o ruido no ar devia ser terrível e ensurdecedor. Assim, a realidade ficava para trás, face ao contexto em que se travavam os combates. Até que ponto tal ação se coloca entre o desporto e a guerra?
Segundo o que descrevia, sentia-se como que um pássaro, leve, tal qual um albatroz, mas sem asas de penas, com uma liberdade de movimentos extraordinária que nada tinha de parecido com um grande avião, que só serve para transportar toneladas de um lado para o outro, mas sem a liberdade que o caça dava. O Barão Vermelho, com o seu avião, da cor do sangue e da morte, era um desafio vivo que levou a guerra ao seu último limite.
Sem tocar as mãos na terra, nem sentir o cheiro fétido das trincheiras, do horror dos mortos e moribundos, nem o jogo sujo e desesperado de milhares de homens na lama, comandados por chefes invisíveis, que não vêm nem sentem sofrimento, o Barão vermelho a sulcar de morte os céus foi um caso único em toda a história da aviação.
Dizia Richthofen que em breve o avião seria algo comum para o transporte e ninguém mais prestaria atenção ao passar no céu das cidades. Mas esse não era o avião que ele sonhava mas sim um pássaro de liberdade, tal como temos agora os ultraleves e essas máquinas só de desporto. Esse é que era para ele o verdadeiro avião!
O general francês Foch comandante das tropas francesas, ao observar um avião, mesmo no inicio da guerra, exclamou: “Os aviões são brinquedos interessantes, mas sem nenhum valor militar”. Comentários, quem se atreve? O futuro é sempre um enigma.
A lealdade e a igualdade de oportunidades aumentavam o desafio, que ele imaginava ser a antítese da guerra no solo, sem os horrores das trincheiras, dos gases, sem o derramar de sangue, a dor e corpos de cavalos e homens despedaçados dos campos de batalha. Uma corrida nos céus, na maior solidão, juntando a máquina e o homem numa só peça para viver ou morrer juntos. Esta foi uma guerra que teve duas formasde combate  No céu e na terra, completamente distintas.
 Por superstição, os aviadores não gostavam de serem fotografados antes de voar. Por azar ou acaso, a última fotografia de Manfred foi tirada enquanto brincava com o seu cão, Moritz, antes do seu último voo.
Já tinha derrubado 80 aviões, quando foi ferido pelas costas, a 21 de abril de 1918, por um piloto cuja identidade não é segura. Depois, os soldados australianos dispararam do solo e o Barão Vermelho tombava para sempre em Sailly-le-Sac em França. Ia fazer apenas 26 anos e a guerra estava no fim!
Os aliados, resolveram honra-lo no enterro com todas as honras militares, mesmo sendo um inimigo alemão, pois o seu exemplo e coragem assim mereciam. No seu caso, há quem afirme que “a morte não é uma imperfeição mas um triunfo.”
O seu nome, não pode ser recordado pela crueldade, nem pela violência, por ter elevado a guerra ao combate leal e inteligente, divulgando o seu método a todos e sendo talvez o último cavaleiro dos céus, aquele que as Valquírias nos seus corcéis alados levaram para Valhala, para habitar a Eternidade só digna dos grandes heróis.

* Conclusão

 

Lúcia Simas

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