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Parceria apresenta novo Manifesto: “Os Açores necessitam de um novo rumo”

camara-do-comercioA Parceria CCIA, FAA, UGT-Açores e AICOPA apresentou ontem um novo Manifesto, depois do que já tinha apresentado em 2015, desta vez sob o título “Construir a sustentabilidade do emprego com base na competitividade”.

Diz o documento, com cerca de 20 páginas, que, para abordar os desafios da nova actualidade, “a Parceria defende que são precisos novos paradigmas de sustentabilidade, não só em face dos parcos resultados das políticas encetadas nos últimos anos, na educação, na pobreza, na formação e no emprego, como também em face da mais do que certa recessão provocada pelas medidas de saúde pública adotadas para lidar com a doença Covid-19. Afirmam-se agora mais dois paradigmas novos associados ao momento imediato com que somos confrontados e que justificam tomadas de posição muito diferentes ou mais intensas do que as que, anteriormente, eram consideradas adequadas: a salvaguarda da capacidade produtiva das principais cadeias de valor da economia dos Açores e; a ampliação extraordinária do orçamento público para fazer face a necessidades extraordinárias para manter e economia no futuro”.

 

As medidas propostas pela Parceria

 

As medidas propostas pela Parceira são:

1.1. Mobilização maciça de liquidez para a sustentação das empresas através de medidas nacionais e medidas regionais complementares e próprias para manter a capacidade produtiva da economia, com especial enfoque nos sectores críticos, transformando-a em apoios a fundo perdido no curto/médio prazo, ;eliminando-se exigências como a de manutenção do emprego, de prestação de garantias bancárias,  e de não existência de dívidas às Instituições de Crédito..

1.2. Redução conjuntural muito significativa dos custos de contexto para as empresas, incluindo os custos burocráticos, os custos dos transportes e os custos das diversas energias; 

1.3. Melhoria das condições de aplicação do lay-off como medida temporária de suspensão de empregos que noutras circunstâncias são perdidos para o desemprego, com desestruturação da capacidade produtiva. O lay-off deve ser visto como medida de manutenção das empresas tanto como dos postos de trabalho, mas com uma visão de futuro, constituindo a exigência de manutenção de 100% dos postos de trabalho uma ilusão, devendo esta exigência variar em função do volume de negóciosde objetivo s razoáveis. Para além disso, exigir nesta altura a prestação de garantia bancária é gravemente penalizador para as empresas e não cumpre o requisito de urgência que se pretende. 

2. Ampliação extraordinária do orçamento público para a implementação das medidas de mitigação da Covid-19. 

Medidas: 2.1. Reivindicação de verbas nacionais de solidariedade pelos impactos acrescidos das medidas nacionais (à semelhança do que aconteceu para cobertura dos danos associados ao furacão Lorenzo); 

2.2. Aumento do endividamento da Região, através de empréstimo do Tesouro com taxa de juro nula; 

2.3. Aumento do endividamento da Região, através de empréstimo contraído no mercado; 

2.4. Revisão dos critérios de fixação dos limites de endividamento previstos na LFRA;

2.5. Saneamento, com ajudas de Estado, assistido pela EU do grupo SATA;

2.6. Pronto pagamento de todos os contratos de aprovisionamento do sector público e de todos os trabalhos de empreitadas de obras públicas.

2.7. Aumento do investimento público, nos sectores tradicionais, por forma a absorver o desemprego;

2.8. Possibilidade de concessão de adiantamentos nas empreitadas de obras públicas sem a exigência da prestação de garantia bancária;

2.79. O arranque de todos os investimento previstos por forma a permitir absorver os desempregados.

3. Defesa de um novo modelo de desenvolvimento económico que concilie e equilibre o investimento público estruturante e com o investimento privado, de modo a que aquele se constitua como um factor de atracção, criação e capacitação das empresas, para a produção de riqueza e de postos de trabalho qualificados e sustentáveis, suscetíveis de contrariarem o risco de pobreza nos Açores. 

Medidas: 3.1. Implementação do pacote fiscal com redução de impostos (medida que deverá ser tomada por diversos países e regiões); 

3.2. Redução estrutural dos custos de contexto como os associados à burocracia, aos transportes e às energias;

4. Travagem da derrapagem dos resultados do SPER, por má gestão e/ou pela imposição de mandatos não financiados e não autorizados no orçamento público. 

Medidas: 

4.1. Ação imediata do governo ordenando a contenção de custos neste sector; 

4.2. Redimensionamento da operação da SATA internacional por orientação do acionista.

5. Alteração dos modelos de transporte aéreo territorial, aéreo regional e marítimo de mercadorias. 

Medidas: 

5.1. Liberalização total dos acessos territoriais; 

5.2. Revisão do modelo de transporte aéreo inter-ilhas; 

5.3. Criação de novo modelo para o transporte marítimo de mercadorias;

6. A salvaguarda da afectação adequada dos novos fundos europeus para os diversos eixos, com ênfase nos setores primário e nos apoios à Ultraperiferia. 

Medidas:

6.1. Apoio à negociação do envelope de financiamentos para Portugal;

6.2. Marcação de posição nacional para a reserva do envelope para os Açores; 

6.3. Manutenção da taxa de cofinanciamento nos 15%;  

6.4. Permitir que em todos os eixos no ano de transição, 2021, a continuidade dos vários programas, já aplicada à PAC, e conhecida com a expressão:” Old rules, with fresch Money”. Permitindo aprovar projectos com a regulamentação do antigo quadro, utilizando 10% do envelope atribuído no novo quadro comunitário de apoio.

7. Defesa da integração dos trabalhadores com vínculos precários nos quadros das respectivas entidades empregadoras públicas quando comprovadamente se demonstre que os mesmos satisfazem necessidades permanentes destas entidades, e revisão dos programas ocupacionais para que não sejam eles próprios geradores de desemprego ao eliminarem serviços que se pretende sejam contratados ao sector privado como, aliás acontecia anteriormente. 

Medidas: 7.1. Contenção das contratações na administração pública ao estritamente essencial para uma prestação eficaz e eficiente dos serviços; 

7.2. Melhoria das carreiras numa administração pública menos populosa e mais valorizadora do trabalho de cada trabalhador; 

7.3. Implementação da orçamentação de base zero, conforme previsto na Lei Quadro do Orçamento];

8. Defesa de uma formação profissional inicial e contínua na Região orientada para as necessidades do mercado de trabalho, com especial relevância para o sector do turismo pelo dinamismo actualmente revelado, através do qual se observe e respeite os direitos de participação e de auscultação que cabem na matéria às associações empresariais e sindicais e se promova a melhoria das qualificações académicas e profissionais e as competências dos trabalhadores, nomeadamente dos jovens e dos desempregados de longa duração.

Medidas: 8.1. Melhorar a dotação orçamental e a execução de programas de financiamento da formação profissional; 

8.2. Melhorar a dotação orçamental e a execução de programas de apoio à requalificação profissional; 

9.Reforço dos programas de apoio ao primeiro emprego de natureza estagiária e de correcção e melhoria dos actuais programas ocupacionais que permitam o seu correto uso por parte de todos os agentes, quer públicos, quer privados, como importante instrumento de apoio ao primeiro emprego e à integração no mercado de trabalho. 

Medida: 

9.1. Redução do peso dos activos em programas ocupacionais; 

9.2. Reforço dos programas de estágios profissionais, de acordo com as necessidades das empresas; 

10.Libertação da sociedade civil das peias do Governo através da defesa de uma maior e efectiva participação da sociedade civil organizada na discussão, aprovação e execução das políticas públicas de desenvolvimento económico e social. Os parceiros sociais signatários do presente documento, no ensejo comum de contribuírem para a construção de uma verdadeira sociedade democrática, assente numa cidadania ativa e de participação cívica, comprometem-se a manter entre si um diálogo permanente que permita agir concertadamente sobre a sociedade civil naquilo a que chegarem a um entendimento comum, sem prejuízo da liberdade estatutária que lhes assiste em matéria de defesa dos interesses que forem próprios dos seus associados”.

 

“Actualmente, a Rede de Economia Solidária dos Açores emprega mais de 1.400 pessoas e movimenta cerca de 70M€ anualmente”

AACélia pereiraActualmente com 27 organizações cooperadoras dispersas por 6 das 9 ilhas dos Açores, a Cooperativa Regional de Economia Solidária (CRESAÇOR) está a assinalar este ano 20 anos desde a sua fundação. Em duas décadas, a organização apoiou a criação de mais de 420 empresas e micronegócios, que originaram mais de 600 postos de trabalho. Ao Diário dos Açores, a Presidente do Conselho de Administração, Célia Pereira, explica como a instituição procurou “construir uma visão de mudança social que coloca o empreendedorismo e a inovação social ao serviço das pessoas”. Faz ainda um balanço dos projectos desenvolvidos e fala da necessidade de ser criado um  “instrumento de financiamento ao empreendedorismo social”.

 

Diário dos Açores - A CRESAÇOR está a comemorar este ano o seu 20.º aniversário. Que balanço pode fazer da atividade da cooperativa ao longo destas duas décadas? 

Célia Pereira - Avaliar o trabalho e impacto da CRESAÇOR passa, naturalmente, por reflectir os resultados alcançados com as inúmeras iniciativas e projectos desenvolvidos nestes 20 anos de história e actividade enquanto Rede de Economia Solidária dos Açores. A história da CRESAÇOR iniciou-se, no final da década de noventa, com a sua incubação no âmbito do Projecto de Luta Contra a Pobreza e pela criação de um programa para o desenvolvimento das empresas de inserção socioprofissional dos Açores – O Projecto IDEIA. Em Abril do ano 2000 foi formalmente constituída por cerca de oito organizações sem fins lucrativos com Centros de Economia Solidária e empresas de inserção social. Desde então cresceu e consolidou a sua acção, quer pela diversidade de domínios e áreas em que intervém, quer enquanto rede. 

Nestes 20 anos, procurou construir uma visão de mudança social que coloca o empreendedorismo e a inovação social ao serviço das pessoas, contribuindo de forma indelével para a coesão social e territorial da Região, insular, ultraperiférica e diversa na sua identidade. Representa a Rede de Economia Solidária da Região, norteando-se por princípios e valores que são os de uma economia solidária que se propõe responder aos desafios do século XXI como o desemprego, a pobreza e exclusão social, a multiculturalidade e a coesão territorial. Através da articulação das actividades económicas, com criação efectiva de emprego para os grupos mais vulneráveis, da coesão social, do respeito pelo meio ambiente, da valorização da diversidade cultural e de uma boa governança para uma gestão eficiente, em que o território é assumido como um todo, potenciando o desenvolvimento local.

 

Como era falar de economia solidária nos Açores há 20 anos, em comparação com os dias de hoje? O conceito foi alcançando maior importância e dinâmica ao longo do tempo, na região?

CP - O movimento da economia solidária e do desenvolvimento local, na Região, possui uma história com cerca de 25 anos, tendo como organizações precursoras a Kairós e a Aurora Social seguidas dos Centros de Economia Solidária, integrados em Projectos de Luta Contra a Pobreza e dinamizados por diversas IPSS’s em parceria com o Governo Regional dos Açores, nomeadamente o Instituto de Ação Social e a Direcção Regional de Emprego, como forma de luta contra a pobreza e a exclusão social. 

Estas organizações da sociedade civil desenvolveram iniciativas que, entre o cruzamento de problemas e oportunidades que marcaram as décadas de 80 e 90, convertem a sua lógica assistencialista tradicional numa outra de formação e reforço de competências de pessoas em risco de exclusão social ao mesmo tempo que criam actividades económicas, com vista sobretudo à criação de emprego para estes grupos mais desfavorecidos e de condições de sustentabilidade, nomeadamente económica, para estas organizações.

Desde então, constituíram-se como agentes de desenvolvimento, contribuindo de forma preponderante para a construção de respostas aos problemas e necessidades locais alavancando oportunidades, potenciando o colmatar das dificuldades dos territórios e afirmando-se como pilar no apoio à criação de emprego a nível local. Actualmente, a Rede de Economia Solidária dos Açores emprega mais de 1.400 pessoas e movimenta cerca de 70 milhões de euros anualmente. 

 

Quais as áreas de intervenção e instituições que fazem, atualmente, parte da CRESAÇOR? 

Contamos actualmente com 27 organizações cooperadoras dispersas por 6 das 9 ilhas dos Açores. 

Com uma estratégia assente em três grandes domínios, a democracia económica, a justiça social e a valorização das pessoas, a CRESAÇOR, além de procurar fomentar o cooperativismo e o trabalho em rede entre as organizações que a integram, criou e desenvolveu diversas áreas de trabalho e de intervenção.

Desta forma, a cooperativa dispõe de 10 equipas multidisciplinares e descentralizadas que, de acordo com a sua missão e objecto social, colaboram in loco com os cooperadores e públicos em risco ao nível da consultoria e assessoria técnica, nomeadamente: Desenvolvimento de iniciativas de promoção da Economia Solidária e Desenvolvimento Local; Acompanhamento e apoio a migrantes em situação de grave carência económica e social; Acompanhamento territorializado dos agregados familiares com necessidades habitacionais; Aconselhamento a cidadãos e cidadãs em situação de endividamento e/ou sobre?-?endividamento; Apoio ao empreendedorismo social e microcrédito; Concepção de estudos de mercado, de estudos de viabilidade económica e de candidaturas a projectos e sistemas de incentivos regionais, nacionais e comunitários; Criação de imagem; Organização de eventos como a realização de feiras, colóquios e seminários; Realização de acções de formação; Qualidade, higiene e segurança alimentar; Higiene e segurança no trabalho; Desenvolvimento de iniciativas de turismo inclusivo, cultural e de turismo social e solidário, e agricultura biológica.

 

Os primeiros passos da instituição foram dados no âmbito da luta contra a pobreza e a exclusão social. Um assunto que, mais de 20 anos depois, continua a ser uma grande preocupação nos Açores. Considera que o papel das iniciativas de economia solidária tornou-se fundamental nesta luta?  

CP - A economia solidária tem tido a capacidade de crescer em contraciclo, o que significa que lideramos um modelo económico resiliente, competitivo (cooperando para competir) e de interesse comum. Um modelo que não se constitui e organiza na procura do crescimento económico, mas sim, do desenvolvimento integrado, inclusivo e sustentável, em que o combate à pobreza se faz sobretudo com a aposta na formação e capacitação de pessoas em risco por forma a potenciar o seu acesso ao mercado de trabalho. Se somos mais resilientes e capazes de crescer economicamente em contraciclo, deveremos ser também uma referência central das políticas de desenvolvimento de âmbito europeu, nacional e regional. 

A economia solidária e o desenvolvimento local reforçam o papel da sociedade civil no desenvolvimento do seu território, através da promoção de uma cidadania activa e participativa, da igualdade de género, oportunidades e de tratamento, privilegiando a solidariedade horizontal e emancipatória. Um trabalho que privilegia lógicas de pensar, planear actuar e avaliar a partir do local para o global. 

 

Sente que permitiram a mudança na vida de muitos açorianos, com os projetos desenvolvidos nas várias áreas de intervenção? 

CP - Esse sentimento advém sobretudo do testemunho de todos aqueles e aquelas que têm como referencia o apoio dos nossos profissionais e equipas para vencerem adversidades e concretizarem sonhos, nomeadamente o acesso ao emprego e ao trabalho. 

 

É possível contabilizar o número de pessoas apoiadas pela CRESAÇOR nestes 20 anos? E quantas as empresas e postos de trabalho ajudou a criar?

CP - Apoiamos a criação de mais de 420 empresas e micronegócios que originaram mais de 600 postos de trabalho; formamos e capacitamos cerca de 1.427 pessoas e participaram nas nossas acções de sensibilização, workshops e seminários mais de 11.500 pessoas em toda a região; doamos cerca de 125 mil refeições; realizamos mais de 3.500 visitas guiadas; estabelecemos cerca de 175 parcerias; realizamos mais de 750 análises microbiológicas e cerca de 180 auditorias de qualidade; realizamos cerca de 300 eventos; integramos cerca de 30 pessoas em programas ocupacionais; guiamos e animamos em viagens de turismo e lazer, pelas 9 ilhas dos Açores, mais de 4.900 turistas sénior e proporcionamos experiências de animação turística a mais de 6 mil utentes, nomeadamente crianças, jovens, sénior e pessoas com necessidades especiais, de organizações de S. Miguel…

 

Entre os vários projectos desenvolvidos nestes 20 anos, qual o que destacaria pelo maior sucesso obtido?

CP - O que é o sucesso? São muitos os projetos que marcam a história da CRESAÇOR e que tiveram um papel decisivo na afirmação da diversidade da sua intervenção e ação. Todos eles nasceram de diagnósticos rigorosos e com o propósito de, em rede e cooperação, desenvolver respostas adequadas às necessidades a que urgia atender. Alguns deles incubaram as atuais equipas e áreas de intervenção. A maioria foram desafiantes e verdadeiros testes à capacidade de empreender e inovar e, em todos eles, houve momentos menos bons, de frustração até, mas sobretudo de aprendizagem e superação em que, tão determinante como o rigor e dedicação dos nossos profissionais e equipas, foi a sua capacidade de ouvir e compreender as pessoas e organizações, de transformar problemas em oportunidades e de não desesperar face às adversidades e obstáculos. O nosso maior projecto e sucesso, nestes 20 anos de actividade, foi conseguir fazer crescer e consolidar a Rede de Economia Solidária dos Açores, referência a nível nacional e internacional. E para o efeito contribuíram projectos como o Açores+ pelo trabalho de proximidade com os cooperadores e afirmação do Selo de origem de economia solidária CORES; o Azores for All pela defesa do Turismo Acessível e Inclusivo na Região; a Quinta do Norte pelo desenvolvimento de uma quinta comunitária e pedagógica, com produção biológica certificada; o Sertã Solidária que, através da recolha de doações de excedentes e géneros alimentares e com produtos hortícolas da Quinta do Norte, apoia pessoas e famílias com grave carência alimentar; a Semana dos Direitos Humanos que, assinalou os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, e nos recordou como é recente e frágil a garantia de direitos que damos como certos e adquiridos; a Incubaçor que veio completar os domínios de apoio à criação de micronegócios desde a ideia de negócio à implementação da empresa.

 

Tornar os projectos de economia solidária sustentáveis é uma preocupação? 

CP - Na emergência e ADN da economia solidária encontram-se princípios e valores alinhados com o conceito de Desenvolvimento Sustentável pelo que a sustentabilidade faz naturalmente parte da nossa agenda. Na CRESAÇOR procuramos incorporar na nossa estratégia e plano de acção uma articulação efectiva com os 17 ODS. Acreditamos que é essencial a coexistência na nossa Região de espaços privilegiados de concertação para a conjugação de interesses que garantam o reforço do desenvolvimento local e da economia solidária enquanto pilar de desenvolvimento sustentável e da concretização dos ODS. Consideramos que na cooperação temos todos a ganhar, e que a garantia do estabelecimento de relações de proximidade, de participação e reforço da ação das várias entidades públicas e privadas, criará as condições adequadas para que o Desenvolvimento Sustentável se afirme na defesa do bem comum e acima do interesse parcelar. 

 

Que desafios e dificuldades enfrenta, atualmente, a CRESAÇOR?

CP - Ambicionamos contribuir para conseguir uma vida de bem-estar para todos, com dignidade, justiça e equidade. É este o grande desafio e missão da CRESAÇOR e da Rede de Economia Solidária dos Açores.

 

Não poderíamos de deixar de falar na actual situação de pandemia que o mundo atravessa. Uma crise não anunciada que já se está a reflectir num aumento das dificuldades das empresas e das famílias açorianas. De que forma o sector da economia solidária será afetado com esta crise?

CP- O confinamento e distanciamento social a que a pandemia SARS CoV-2 e os riscos que lhe estão associados nos votaram traduzem-se numa crise económica sem precedentes e cujas respostas passam pelo ser solidário, criativo e disruptivo. As nossas empresas de inserção e de economia solidária estão também a sentir os efeitos desta crise mas, confiamos que a nossa capacidade de resiliência e de trabalho em cooperação farão, mais uma vez, a diferença. O que mais nos preocupa e move é atender e acudir às pessoas e comunidades mais afectadas e em risco, por isso estamos também na linha da frente, nas mais diversas áreas de apoio à emergência social e económica. 

 

Quanto ao futuro, o que há ainda a fazer nos Açores no campo da economia solidária? Novos projetos a concretizar?

CP - A CRESAÇOR pretende continuar firme, empenhada na sua missão, ao serviço dos seus cooperadores, das pessoas e da Região e por isso defende a criação de medidas de apoio específicas a modelos económicos alternativos, como a economia solidária e a economia circular, geradores de actividades económicas mais sustentáveis e resilientes a crises, que dinamizam a economia local dos territórios onde actuam, dinamizando circuitos curtos de produção/consumo em que se valoriza a produção e consumo de produtos locais/regionais. Gostaríamos, igualmente, que fosse criado um instrumento de financiamento ao empreendedorismo social para todo o território nacional e em particular para a Região Autónoma dos Açores, para dar resposta às necessidades de financiamento das organizações e agentes da economia social e solidária, com enfoque em associações, cooperativas, misericórdias e fundações. E que tenha em conta não só as necessidades das empresas sociais em termos de financiamento, mas também em termos de capacitação, de coaching e de prontidão para investimento. 

 

“Temos que viver este ano uma peregrinação no coração”, afirma a zeladora da imagem

irmã Zilda MeloTambém para a zeladora da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, irmã Zilda Melo, esta seria a semana das semanas. As horas do dia seriam poucas para atender a todos os pedidos e solicitações que advêm da missão que lhe está conferida. Este ano, a azáfama é outra e em nada é comparada à de todos os outros anos. Contudo, apesar de se viverem momentos diferentes, a irmã confessa que, por estes dias, “num primeiro momento a sensação pode ser de tristeza, de sentir a falta daquilo que seria a nossa rotina nesta semana, porque o que estava previsto era que esta semana fosse totalmente diferente do que o que está a ser. Mas nós não podemos fazer desta situação um drama, temos que manter o nosso espírito aberto, manter a nossa esperança e temos que viver este ano uma peregrinação no coração”. Entende Zilda Melo que é chegada a altura de “sermos peregrinos no coração” considerando que “pode ser uma experiência tão bonita e tão enriquecedora como aquela que fazemos todos os anos pelas ruas da nossa cidade. Sede peregrinos no espírito, é o convite que acho que o Senhor Santo Cristo nos faz este ano”.

Apesar do confinamento a que todos estão obrigados a irmã Zilda Melo revela que o santuário não deixou de ter comunicação com o exterior. Até porque são muitas as pessoas que ligam diariamente para o convento. Como diz, são “emigrantes, pessoas das outras ilhas que perguntam como estão as irmãs no Santuário e também muitos devotos a nos pedirem orações e intenções para as Eucaristias porque sabem que todos os dias temos a nossa Eucaristia no interior do convento. Apesar do distanciamento social, continuamos unidos ao Senhor”, comenta.

Sem o barulho que vem do exterior e, principalmente, sem os milhares de devotos que iriam, certamente, dirigir-se ao Santuário, à roda ou à igreja da Esperança e que fariam da rotina habitual da zeladora da imagem não ter mãos a medir para poder chegar a todos, a irmã confessa que, mesmo assim, este ano não fará nada diferente. Como diz, “eu vou fazer o que faço sempre que é viver estes dias como vivo todos os dias, com a mesma proximidade, com a mesma emoção e com o mesmo carinho perante a imagem do Senhor Santo Cristo. Colocar uma flor, ou colocar 100 para mim é sempre com o mesmo sentimento”, conclui.

 

Por Olivéria Santos

Autoridade de Saúde prepara respostas, caso tribunal determine quarentenas obrigatórias como ilegais

1 AAA Tiago lopes

A Autoridade de Saúde Regional está a testar pessoas que ainda não terminaram o período de 14 dias de quarentena em unidades hoteleiras de São Miguel e Terceira, a que estão neste momento obrigadas quando chegam à Região. Um medida tomada pela “salvaguarda da saúde pública”, explicou Tiago Lopes, face à possibilidade de o tribunal determinar as quarentenas impostas como ilegais.

“Na salvaguarda da saúde pública, decidimos testar preventivamente antes do fim da quarentena, no sentido de precaver uma situação que possa propiciar o fim destas quarentenas antes do previsto. Antecipadamente, fizemos estas colheitas de amostras biológicas para prevenir alguma situação que possa acontecer”, referiu o responsável máximo pela Autoridade de Saúde, em conferência de imprensa.

“Pese embora todas as tentativas que possam estar a tentar fazer para levar a cabo outros intentos, o nosso interesse maior é de facto conter a propagação e a disseminação do novo coronavírus aqui na Região, dando continuidade ao trabalho feito até ao momento”,  acrescentou.

Tiago Lopes falava em mais um dia em que não foram registados novos casos de covid-19 nos Açores, mas nove recuperações. Neste momento, há 104 recuperados e 25 os casos activos no arquipélago, o mesmo número de casos activos a 27 de Março passado (12º dia do surto na Região). 

“Estamos a trabalhar em todas as frentes e a precaver todas as situações e mais algumas que possam causar danos à saúde pública dos açorianos e das açorianas”, referiu, garantindo que estão a ser preparadas respostas caso a região seja obrigada a terminar com as quarentenas obrigatórias em unidade hoteleira.

“Não bastava já o coronavírus, temos também as frentes da própria sociedade e as dificuldades que nos surgem por via dos entendimentos e desentendimentos e da colaboração e da falta de colaboração de diversos intervenientes da sociedade”, afirmou o responsável. 

Tiago Lopes, que é também director regional da Saúde, salientou que “todos os cenários possíveis” já foram “acautelados”, mas não quis adiantar que medidas estão a ser pensadas caso as quarentenas sejam consideradas ilegais. “Qualquer que seja o cenário, já temos respostas preparadas para o efeito”, assegurou.

Segundo considerou, a implementação das quarentenas obrigatórias foi uma medida que “coadjuvou de forma bastante significativa a contenção do surto aqui na região”.

 

1796 testes já realizados

na comunidade escolar

 

Tiago Lopes adiantou ainda que já foram realizados 1796 rastreios na comunidade escolar da região, “entre docentes, não docentes e estudantes”. Destes, 1141 aguardam ainda por colheita ou análise laboratorial e 655 tiveram resultado negativo.  

Estes rastreios estão a ser desenvolvidos nas ilhas Terceira, Graciosa, Faial, Pico e São Jorge e “terá continuidade ao longo dos próximos dias”. Em Santa Maria, Flores e Corvo não foram realizados testes para despiste de covid-19, pois não registaram qualquer caso positivo para infecção pelo novo coronavírus desde o início do surto nos Açores.  

 

Cercas sanitárias no Nordeste

 

Sobre as cercas sanitárias que estão ainda implementadas no concelho do Nordeste até às 00h00 do dia 18 de Maio, Tiago Lopes não quis adiantar “o seu possível levantamento ou não”. 

A decisão terá de ser tomada, “conforme tem vindo a ser feito, articuladamente, quer com o município, quer com a mesa da Santa casa da Misericórdia do Nordeste, quer com as entidades governamentais, protecção civil e forças de segurança”, referiu, admitindo, contudo, que “a evolução da situação em termos epidemiológicos, neste momento, deixa antever um cenário bastante favorável para o Nordeste”. 

 

Nove recuperações 

 

Na conferência de imprensa, Tiago Lopes confirmou a informação que havia sido avançada durante a manhã de ontem, sobre a recuperação de nove novos casos de Covid-19 nos Açores, elevando para 104 o número de recuperados na Região. São eles oito mulheres, com idades compreendidas entre os 27 e os 91 anos, e um homem de 42 anos, todos residentes na ilha de São Miguel. Seis das recuperações dizem respeito a utentes da Estrutura Residencial para Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Nordeste, com idades entre os 74 e 91 anos, bem como de um funcionário e de um contacto próximo de um caso positivo diagnosticado na mesma estrutura. 

Até ao dia de ontem já foram detectados na Região um total de 145 casos de infecção, verificando-se 104 recuperados, 16 óbitos e 25 casos positivos activos para infecção pelo novo coronavírus, destes, 17 em São Miguel, dois na Graciosa, um em São Jorge, três no Pico e dois no Faial.

Entre os casos activos, cinco estão internados no Hospital de Ponta Delgada, um no da Terceira e os restantes 19 encontram-se no domicílio.

Quanto aos profissionais de saúde, Tiago Lopes avançou que existem neste momento apenas seis casos positivos activos (dois do hospital de Ponta Delgada e quatro do lar de idosos do Nordeste). 

Entre as pessoas que aguardam resultados ou colheitas de amostras biológicas, há 1918 pessoas provenientes de rastreios e nove casos suspeitos. Até ao momentos, já foram testadas 12637 pessoas desde o início do surto na Região.

 

Por Alexandra Narciso

 

“É uma honra poder ter participado na execução da nova corda”

Ana Paula Ferreira

Foi a Ana Paula Ferreira e à irmã, Ivone Custódio, que coube a missão de criar as novas cordas que irão estar colocadas sobre os braços da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Um trabalho executado a quatro mãos, mas que Ana Paula Ferreira faz questão de frisar que, maioritariamente, foi desenvolvido pela irmã que também é voluntária no Santuário e que, pontualmente, faz trabalhos que sejam necessários.

Como explicou ao Diário dos Açores, “toda a corda em si, foi feita pela minha irmã. A minha intervenção foi mais ao nível das joias e da sua aplicação. Tive que seleccionar e escolher as mais adequadas à nova peça. Foi preciso também limpar alguns cordões de prata e ainda escolher alguns brincos e anéis para utilizar as pedras preciosas para colocar na nova corda”.

A corda das mãos, que pesa cerca de três quilos, levou exactamente três meses e 11 dias a ser criada. A corda tem no seu interior um algodão branco e é toda forrada com uma fita dourada. Uma opção que as irmãs tomaram “porque podia acontecer que quando colocássemos os cordões poderiam ficar aberturas e poder-se-ia ver o miolo, depois da forra foram então colocados os cordões de ouro”. De acordo com Ana Paula Ferreira, “a ideia inicial era que a corda tivesse apenas cordões de ouro, mas como ia ficar muito dourada, decidimos colocar cordões de prata e de pérolas para fazer um bonito contraste”, refere, adiantando que “a nova corda, nos terminais, que foi a etapa mais difícil, é exactamente igual aos terminais da corda anterior. Tivemos que mandar fazer fora da ilha mas é precisamente igual à anterior. Tudo o que imita as linhas da borda da corda são tudo cordões em ouro, cortados à mesma altura e colocados nos terminais”, assevera. 

Também o relicário, que está ao peito da imagem, sofreu uma alteração, tendo em conta que a corda das mãos forma um conjunto com o relicário. Assim, as duas irmãs optaram por fazer também a corda que está à volta do relicário. “Estamos a falar de uma corda mais fina, tendo sido um trabalho que durou cerca de um mês e 13 dias a estar concluído”, comenta.

Mais do que querer ser reconhecida, Ana Paula Ferreira considera ter sido “um orgulho” executar aquela pela, mas, adverte, “não por o meu nome ou o da minha irmã que vão ficar para sempre ligados à criação daquela peça”. De facto, avança, “é um grande orgulho e uma grande alegria para nós podermos ter feito aquele trabalho, porque nunca na vida pensamos em fazer algo do género. Era um trabalho impensável”, frisa, esclarecendo que “foi algo que ao criarmos, sentimos sempre a presença do Senhor. Em algumas etapas que se mostravam mais difíceis, Ele ajudou-nos muito e o trabalho está feito. É uma grande honra e uma grande alegria. Sempre que a imagem do Senhor Santo Cristo sair na procissão, saber que leva um trabalho realizado por mim pela minha irmã enche-me de alegria”, conclui.

 

Por Oliveira Santos