Região poupa milhões com ensaios clínicos

cristinaCristina Fraga é médica especialista em Hematologia clínica, possui a competência de Gestão de Unidades de Saúde e dirige o Serviço de Hematologia do Hospital do Divino Espírito Santo. Natural de S. José, em Ponta Delgada, estudou na Universidade de Lisboa e especializou-se no Hospital geral de Santo Antônio, no Porto.
Decidida a voltar para a sua terra depois de tirar o curso, regressou em 2001 por um breve período e após a conclusão da especialidade, em 2006, assentou arraiais.
Não veio sozinha: tinha entretanto casado com um colega de curso, o médico Mário Freitas, e constituíram família em Ponta Delgada.
Mas um dos segredos de Cristina Fraga é que ela é um dos únicos 7 “board-advisors” que a empresa Genzyme/ Sanofi tem no mundo para acompanhar e validar cientificamente a introdução no mercado do medicamento Eliglustat, que se destina à Doença de Gaucher.
Essa validação passa pela utilização do medicamento antes de ser lançado no mercado através de ensaios feitos em pacientes seleccionados.Por conseguinte, ela é coordenadora desses ensaios nos Açores – aliás, é a coordenadora nacional do projecto.
Nos Açores existem 5 pacientes de Gaucher, 4 em S. Miguel e 1 na Terceira. A doença, que é raríssima, caracterizase por o paciente apresentar mutação num gene que tem a “receita” da enzima chamada glicocerebrosidase, que digere um certo tipo de gordura, o glicocerebrosídeo.
Nestes pacientes com Doença de Gaucher, como a enzima não funciona, essa gordura não é digerida dentro do lisossoma, e acumula-se progressivamente nas células, os macrófagos.
As células de Gaucher acumulam-se principalmente no fígado, no baço e medula óssea, enfraquecendo inclusivé os ossos.
Estes pacientes apresentam cansaço fácil, fraqueza devido à anemia, hemorragias por terem as plaquetas baixas, equimoses (nodoas negras) e hematomas, muitas dores ósseas e dor abdominal por apresentarem o baço e o fígado muito aumentados Mas para além da óbvia contrapartida humanística e científica, a componente económica é avassaladora: o tratamento custa à Região cerca de 500 mil euros por ano por doente. O que, no caso dos doentes açorianos, representa um custo de 2,5 milhões de euros por ano.
Mas esse é um valor que, graças a este estudo, a Região irá poupar até ao ano de 2015 e depois até à comercialização do medicamento.
É que enquanto o ensaio decorre, os doentes não pagam nada.
O ensaio, que já está na fase III, visa substituir o actual método da aplicação endovenosa para simples comprimidos, o que representa um avanço importante no tratamento da doença.
Os pacientes estão cobertos, não apenas no medicamento, como também em todos os exames de diagnóstico e acompanhamento e outros custos – como nas despesas de deslocação do paciente terceirence.
É um pleno: desde 2011, quando o estudo começou, até 2015, quando deverá terminar, o hospital poderá poupar até 12,5 milhões de euros, o que é uma espécie de fortuna.
Cristina Fraga acha que este tipo de parcerias poderia ser repetida para muitos outros tratamentos. “Dadas as condições específicas das ilhas, elas são autênticos laboratórios que podem ser utilizados de forma superior pela sociedade científica internacional”, diz.
A ideia não é nova.
Há muitos anos que esse potencial é reconhecido, por especialistas locais e estrangeiros. Aliás, os Açores têm essa característica de interesse científico internacional a vários outros níveis, e este é um conceito aceite em áreas que vão da sociologia à climatologia e vulcanologia.
Mesmo ao nível da medicina, decorrem neste momento outros ensaios clínicos, no mesmo Serviço de Hematologia, em várias outras doenças como o Mieloma múltiplo, a Leucemia linfocitica crónica, o Linfoma não hodgkin. E estão a decorrer estudos observacionais com doentes com Hemofilia, Mieloma múltiplo, Tr o m b o c i t o p e n i a imune.
Segundo Cristina Fraga, poder-se-ia fazer ainda mais, por exemplo noutras doenças raras, embora reconheça que “existem constrangimentos, nomeadamente a falta de recursos humanos, fundamentais para o acompanhamento destes estudos”.
Todos estes estudos e ensaios trazem mais valias aos doentes, porque estão sob um intenso acompanhamento e beneficiam da utilização dos mais modernos medicamentos, e também ao hospital, especialmente ao nível financeiro.
Mas o maior impacto é de longe na doença de Gaucher. Muito recentemente, estimouse que o custo que é neste momento evitado com este estudo poderá representar cerca de 20% do total de despesa da farmácia do HDES, o que não é de modo algum negligenciável.
Para os que falam em investimentos em I&D (Investigação & Desenvolvimento), suportados por verbas públicas mas com resultados imprevisíveis mas de difícil sucesso, os ensaios com a doença de Gaucher parecem demonstrar o contrário: que com um investimento residual, a Região tem capacidade para começar já a facturar.
Neste caso, aparentemente bastou apenas apostar nos recursos existentes...
 

Número de desempregados passa pela 1ª vez a barreira dos 21 mil...

desemprego2O número de desempregados nos Açores ultrapassou pela primeira vez a barreira dos 21 mil, o que resultou numa taxa de desemprego de 17,6%, que no 3º trimestre do ano foi superior à média nacional, que baixou para os 15,6%, sendo a segunda pior por regiões, ficando apenas abaixo dos 17,9% de Lisboa.
Trata-se de um aumento de 13% em relação ao 2º trimestre de 2013, e de 15,8% em relação ao trimestre homólogo.
O número de empregos aumentou 0,8% em relação ao 2º trimestre, mas baixou 2% em relação ao período homólogo. Na verdade, o número de empregos neste momento é um dos mais baixos da década: é o 4º pior desde 2003 (40 semestres), remetendo o emprego para níveis de 2001. O problema é que naquela altura a população activa era de apenas 105 mil pessoas, enquanto que neste momento atingiu os 121.899, que é o mais elevado de sempre: o número de activos aumentou 2,7% em relação ao 2º trimestre, embora apenas 0,75% em relação do período homólogo.
O mais curioso, no entanto, acabou por ser as reacções oficiais. A nota do GACS tem o título de “Aumento da população ativa supera o crescimento do emprego, afirma Sérgio Ávila”.
A nota refere que “o aumento da população empregada foi acompanhado, no último trimestre, por um crescimento muito acentuado dos açorianos que passaram a demonstrar intenção de entrar no mercado de trabalho”. E Sérgio Ávila refere que “é esta a razão da taxa de desemprego nos Açores ser superior à nacional, o que não significa um menor dinamismo económico regional relativamente ao resto do país, muito pelo contrário. “Está associada, sim, a um aumento da população ativa, ou seja, com mais pessoas a chegarem ao mercado de trabalho”,  acrescentando que “se a população ativa se tivesse mantido no último trimestre, a taxa de desemprego nos Açores teria descido para 14,5%”...
Pois teria, mas só em teoria, porque se o número de desempregados fosse calculado com base na população activa do 2º trimestre, o valor seria de 15,5%, e não de 14,5%, como refere o Vice. E se fosse com base no valor do trimestre homólogo, ol valor seria de 17%.
A questão é que raramente estes valores podem ser encarados assim, pois o conceito de desemprego está intimamente ligado ao valor da população activa existente no mesmo momento.
Mas apesar disso, a posição oficial também foi repetida pela deputada do PS, Graça Silva, que era uma das mais conhecidas sindicalistas dos Açores.  “Os dados hoje divulgados pelo INE registaram pelo segundo semestre consecutivo um aumento da população empregada nos Açores”, e realça o “aumento muito acentuado da intenção dos açorianos, mais 3.252 pessoas, de ingressarem no mercado de trabalho, nos últimos três meses”. E voltou a assinalar “o facto de a Região registar o valor mais alto de sempre de população ativa no arquipélago, 121.899 pessoas”.
Poderá ser outro lapso de língua, mas não há um “um aumento da população empregada por um segundo semestre consecutivo”, mas apenas 1. E a verdade é que do 3º para o 2º trimestre, o crescimento foi muito inferior ao verificado entre o 2º e o 1º trimestre.


Construção civil diz que “há redução de investimento público em obra nos Açores”

construção civilOs empresários da construção civil dos Açores dizem que há uma redução de 1,90% no investimento público regional “quando traduzido em obra”, embora haja, de “forma genérica, um aumento do total”.
Segundo a agência Lusa, a redução é apontada no parecer da Associação dos Industriais de Construção e Obras Públicas dos Açores (AICOPA) sobre a ante-proposta de plano de investimentos para 2014, apresentada pelo Governo Regional aos parceiros sociais no final de setembro.
“Embora de forma genérica tenha havido um aumento total do investimento público de 2013 para 2014, não podemos deixar de referir que quando traduzido para obra, verifica-se uma redução de 1,90% de investimento para o próximo ano”, lê-se no documento.
A AICOPA destaca que se somada a redução de 1,90% para 2014 à verificada de 2012 para 2013, que foi de 9,38%, há um decréscimo de investimento de 11,1%.
“Não podemos deixar de realçar que devido a esta redução será vital que a execução desse mesmo investimento seja consumado durante 2014. Como exemplo e como já referimos anteriormente, sugerimos que o valor conquistado de 8 milhões a mais ao abrigo do novo quadro comunitário de apoio [2014-2020] seja traduzido em trabalho para o nosso sector”, defende a AICOPA.
A associação diz que o sector “terá de estabilizar” para entrar “no sentido da recuperação e do crescimento, o que apenas será concretizável através de uma correcta política de investimento”.
No que concerne às políticas sectoriais do Plano para 2014, a AICOPA revela “alguma apreensão com o tempo de negociação” dos programas FEDER E FSE, uma vez que se podem “atrasar alguns investimentos”, o que seria um “rude golpe para um sector já tão flagelado pela actual conjuntura”.
A associação defende que medidas como as de requalificação urbana contempladas no Plano para 2014 e outras “mais incisivas, impõem-se”.
A AICOPA conclui que a Carta Regional de Obras Públicas “será fundamental para a manutenção do sector da construção” nos Açores.
Já a Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores (AMRAA), no seu parecer sobre a ante-proposta de Plano para 2014, considera que o documento “contém todos os elementos de uma política voltada para a dinamização económica e de um esforço de coesão social”.
“Consideramos esta opção extremamente relevante na actual conjuntura, o que contraria, e bem, de forma inequívoca, a lógica da austeridade empreendida pelo Estado e que não tem produzido quaisquer resultados positivos”, lê-se no parecer da AMRAA.
A AMRAA deixa, no entanto, a sugestão de que o Conselho Regional de Concertação Estratégica seja dotado de ferramentas que permitam “avaliar o real impacto das políticas que se pretendem implementadas e a exequibilidade da actual proposta”.
O Plano e Orçamento dos Açores será debatido e votado no parlamento açoriano no final do mês.

“Renda” da Scut atinge 25 M€ em 2014, com aumento de 31% em relação a 2013

scutA “renda” pela Scut do Nordeste no ano de 2014 será a maior até ao momento, com um total de 25 milhões de euros projectados na proposta de Plano como  “Rendas da concessão rodoviária e Assistência técnica e jurídica” (que é a mesma terminologia utilizada no Plano de 2013). Trata-se de um aumento de 31% em relação à “renda” do corrente ano.
Como já acontece desde 2012, quando essa “renda” começou a ser paga, a Scut representa mais de 99% do total da rúbrica de “Construção de estradas regionais”. O remanescente em 2014 será de 225 mil euros (94 mil em 2013 e 194 mil em 2012). Como medida de comparação, considere-se que em 2011 a verba dessa rúbrica tinha sido de 2,1 milhões de euros, 5,9 milhões em 2010 e 7,6 em 2009. Por outras palavras, não haverá qualquer construção de monta ao nível das estradas regionais nesta rúbrica – e será assim pelo 3º ano consecutivo.
Em relação à “Reabilitação de estradas regionais”, os cortes são significativos. De médias acima dos 12 milhões de euros antes de 2012, em 2013 passou-se para apenas 6,3 milhões de euros, e será de 6,6 milhões em 2014.
Por outro lado, juntando estas duas rúbricas, há um aumento significativo da factura a pagar. De 15,7 milhões de euros em 2011, o seu custo saltou para 35,4 milhões em 2012. No ano de 2013 baixou para 25,5 milhões, graças à quebra para metade da “reabilitação de estradas regionais”, mas em 2014 atingirá os  os 31,9 milhões de euros.
Ou seja, trata-se de um aumento de 74% em relação à média dos anos de 2009 a 2011, quando ainda não havia Scut. Faltam mais 27 anos para a obra ficar paga…

quadro scuts

Dívida avalizada é superior à directa

notasA dívida do sector empresarial público açoriano avalizada pela Região é superior à dívida directa pública em cerca de 45 milhões de euros, segundo os dados relativos a Dezembro de 2012 contidos na proposta de Orçamento Regional para 2014.
A dívida regional é de 412,3 milhões de euros, enquanto a responsabilidade da Região pela dívida das empresas atinge os 458,2 milhões de euros.
A esmagadora maioria dessa dívida avalizada é na prática dívida da Região. As únicas empresas com capacidade para gerar receita capaz de fazer face às suas dívidas serão a EDA, que neste momento tem 70 milhões de euros de dívida avalizada, e eventualmente a Atlanticoline, que tem 2 milhões de euros de dívida avalizada.
Os restantes 385 milhões de euros terão de ter intervenção oficial. A Saudaçor tem dívidas avalizadas de 218,7 milhões de euros, a SPRHI 132 milhões, a Lotaçor 10,8 milhões e a Sinaga 5,65 milhões de euros.
A proposta de orçamento permite ao Governo operar diversas mexidas em ambos os níveis.
Em termos da dívida pública direta da Região, o Governo “fica autorizado, através do membro do Governo Regional responsável pela área das finanças, a realizar as seguintes operações de gestão de dívida pública direta da Região:  a) À contratação de novas operações destinadas a fazer face ao pagamento antecipado ou à transferência das responsabilidades associadas a empréstimos anteriores; b) Ao reforço das dotações orçamentais para amortização de capital; c) Ao pagamento antecipado, total ou parcial, de empréstimos já contratados; d) À renegociação das condições de empréstimos anteriores, incluindo a celebração de contratos de troca (swaps), do regime de taxa de juro, de divisa e de outras condições contratuais; e) À emissão de dívida flutuante, para fazer face a operações de reforço de tesouraria”.
Ao nível da gestão da dívida do Setor Público Empresarial Regional, o Governo “fica autorizado, através do membro do Governo Regional responsável pela área das finanças, a realizar operações de aquisição de dívidas das empresas do Setor Público Empresarial Regional, avalizadas pela Região”.
Em termos de avales, o limite máximo para a concessão de garantias pela Região em 2014 é fixado em 135 milhões de euros, acrescendo “o montante de 50 milhões que se destina a um contrato de financiamento do Banco Europeu de Investimento à EDA - Empresa de Eletricidade dos Açores, S.A., operação da qual a Região Autónoma dos Açores será co-garante com o Governo da República”.

Privatizações
Há ainda uma curiosidade: apesar de negar que pretenda privar as empresas públicas, a proposta de Orçamento Regional prevê que o Governo “fica autorizado a alienar as participações sociais que a Região Autónoma detém em entidades participadas”.