Campanha SOS Cagarro: trabalho dos voluntários muitas vezes é um logro...

luismonteiroTudo começou em 1991 com a iniciativa de Luís Rocha Monteiro, um engenheiro do Ambiente que dedicou a sua vida à protecção ambiental e aos estudos das aves marinhas nos Açores, distinguindo-se no campo da Ornitologia, Ecotoxicologia Marinha e Conservação da Natureza. Os pormenores não são conhecidos, mas foi ele quem mexeu os cordelinhos para que a Câmara do Corvo decidisse desligar a iluminação pública durante as cerca de 2 semanas em que os cagarros juvenis, com cerca de 3 meses, se preparam para a sua primeira migração de centenas de quilómetros pelo oceano Atlântico.
Mas a primeira medida lançada para salvar cagarros não foi a sensibilização de voluntários para os apanhar quando caiam. A Acta da reunão ordinária da Câmara Municipal do Corvo de 2 de Outubro de 1991 é clara:  “foi aprovado por unanimidade apagar a iluminação pública dos caminhos a partir das 00h30 durante as semanas de 13 de Outubro a 10 de Novembro para proteger as pardelas-de-bico-amarelo do encadeamento provocado pela iluminação pública, evitando assim numerosas mortes da espécie”.
O facto é que, apesar de ser claramente uma ideia inovadora, dois anos depois, em Março de 1993, o Governo Regional e os Amigos dos Açores juntam-se a Luís Monteiro e, como é referido no site da iniciativa (azores.gov.pt/Gra/dram-soscagarro) “foi lançada a campanha ‘A Escola e o Cagarro’, onde se fez um inquérito sobre a espécie, destinado a alunos dos 1º e 2º ciclos. Distribuíram-se 10 mil folhetos informativos. É nesta sequência que a Campanha SOS-Cagarro é formalmente criada em 1995 por Luís Monteiro no âmbito do projeto LIFE ‘Conservação das comunidades de aves marinhas dos Açores’ em que o Governo dos Açores era parceiro”.
No entanto, apesar da questão da luz ser de longe a mais importante, o facto é que o exemplo do Corvo nunca foi seguido pelo resto do arquipélago, nem mesmo pelo Governo, que se assume neste momento como o grande responsável pela acção.
Em 1999 toda a estratégia estremeceu, quando Luís Monteiro morreu no acidente da SATA em S. Jorge – uma morte que para além de ter chocado toda a região, chocou a comunidade científica; em 2004, foi mesmo lançado o “Prémio Luís Rocha Monteiro” com o intuito de incentivar e divulgar os trabalhos científicos na área de ecologia e biodiversidade do meio marinho dos Açores (embora tudo indica que não se repetiu). Em Dezembro próximo decorrem 15 anos do acidente, mas não consta que algo se tenha alterado na questão das luzes.
O facto é que o problema manteve-se, tanto que na semana passada foi entregue ao Governo um manifesto que apela a “um compromisso das entidades públicas para a redução da iluminação pública durante as duas semanas da Campanha SOS Cagarro”, nos Açores, alertando para o impacto das luzes naquelas aves.
“A campanha SOS Cagarro é bastante válida, mas um dos pontos que leva à queda de cagarros juvenis na via pública é a iluminação e enquanto não se resolver o problema, nomeadamente nos campos de futebol e portos de pesca, que têm iluminações muito fortes, a campanha tem um ar um bocado dúbio”, afirmou José Pedro Medeiros, um dos promotores (o documento é assinado pela Associação Amigos do Calhau, pelos Amigos dos Açores e pelo CAES – Coletivo Açoriano de Ecologia Social).
José Pedro Medeiros sabe do que fala, pois já publicou em revistas científicas internacionais estudos realizados sobre o assunto. A conclusão é clara: perto de 20% dos cagarros juvenis são fatalmente atraídos pelas luzes.
No ano passado, o relatório final aponta para um total de 7 mil aves recuperadas, o que foi sensivelmente o dobro da média dos anos anteriores, segundo dados da Secretaria Regional dos Recursos Naturais. Muitas morreriam atropeladas se não fossem salvas mas não se sabe ao certo quantos morrem mesmo apesar do esforço de todas as “brigadas de salvamento”, que por estes dias surgem em praticamente todos os concelhos. Mas pelos gráficos do último relatório, é provável que ascendam a mais de 7% do total de aves capturadas vivas. Os Amigos dos Açores, que também têm online um formulário que deve ser preenchido pelos voluntários (http://goo.gl/YCv4fh), têm um número concreto: para 301 animais apanhados vivos em S. Miguel no ano de 2013, houve 38 apanhados mortos (um valor bastante significativo de mais de 12%).
O manifesto estima que “perto de um milhar no passado ano ficaram feridos ou morreram”. E garante que “metade das quedas de aves tem por causa a exagerada iluminação pública de infraestruturas como portos de pesca, campos de futebol e estradas situadas junto ao litoral” e não é de admirar que conclua que “todo o trabalho dos voluntários muitas vezes não passa de um logro, limitando-se na realidade a recolher as aves que previamente são obrigadas a cair em terra devido à excessiva iluminação”.
Então por que não avança o Governo com maior determinação da resolução do problema, sabendo-se que daria em simultâneo uma fantástica imagem do seu interesse ambiental, com óbvia incidência turística?
A resposta parece ser, de novo, de cariz político. O ponto de vista do Governo, patente no texto de apresentação do projecto no site oficial, é que “esta campanha visa essencialmente alertar a população açoriana para a necessidade de preservação desta espécie protegida que nidifica nos Açores” – e não, como pretendem os activistas desde 1991, salvar os animais. Por outras palavras, a campanha é uma espécie de pote de ouro para mostrar trabalho ao nível ambiental, e o site desenvolve o conceito de “visando a sensibilização para os cuidados mais adequados a ter em situações de encadeamento e atropelamento de cagarros jovens nas estradas, desenvolvem-se múltiplas atividades de sensibilização e educação ambiental junto das escolas da Região; adicionalmente, são divulgados pelos parceiros da Campanha (voluntários, etc.) materiais promocionais e educativos”…
Pela última contagem, ontem já tinham sido salvos 480 cagarros e provavelmente algumas dezenas acabaram por morrer. É um balanço cruel, especialmente sabendo-se que a solução está à vista...

Depressão na infância atinge mais meninos do que meninas

claudia pires de lima CORCasos mais graves podem levar ao suicídio

Embora pouco relatado, o suicídio na infância acontece. Não são conhecidos números em Portugal, mas a terapeuta Cláudia Pires de Lima garante ao Diário dos Açores que casos graves de depressão podem ter esse desfecho. A perda de um ente querido, o divórcio dos pais, o afastamento de familiares e amigos, a mudança de residência e o “bullying” são alguns dos factores que facilitam o aparecimento de sintomas depressivos numa criança, pelo que é fundamental estar atento e procurar ajuda psicológica. Ao contrário dos adultos, nas crianças a depressão surge predominantemente em meninos, sendo inferior a taxa de meninas.
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Relatório sobre a baleação em São Miguel foi aprovado por unanimidade no Conselho de Ilha

fabrica baleia2O Conselho de Ilha de S. Miguel, realizado no dia 20 de Outubro, discutiu e aprovou por unanimidade o “Relatório da Baleação Micaelense” produzido pela Secção do Bote Baleeiro do Clube Naval de Vila Franca do Campo (SBB), tendo sido o único tema que não suscitou quaisquer dúvidas ou divisões entre os presentes.
O Relatório, que traça um pouco do historial “negro” do desinteresse que tem caracterizado nos últimos anos a actuação das entidades políticas da ilha (culminando com o desaparecimento da “Fábrica da Baleia dos Poços”), faz um levantamento dos locais onde a história da baleação ainda pode ser utilizada e conclui com uma “sugestão” aos elementos do Conselho para que solicitem informação à Direcção Regional de Cultura, que é uma autêntica tomada de posição.
As perguntas sugeridas são se “o Governo Regional reconhece o estado de abandono a que foi sujeito o Património Baleeiro, móvel e imóvel, da ilha de São Miguel? Que medidas se preconizam para alterar a situação? Qual a proporcionalidade das verbas atribuídas à ilha de São Miguel, no âmbito do Programa de Recuperação do Património Baleeiro dos Açores , desde 1998 até hoje? É do conhecimento do Governo dos Açores a existência de um modelo construtivo, designado por «bote micaelense», específico de São Miguel e que se diferencia esta ilha no contexto do Bote Baleeiro Açoriano? É do interesse do Governo dos Açores o estudo, preservação, recuperação e reconstrução destes «botes micaelenses», pelo seu carácter distintivo e enriquecedor para o Património Baleeiro da Região? Qual a prioridade que lhe será dado?”
Segundo Miguel Cravinho, que representou a SBB no encontro do Conselho, parece evidente que as autoridades já estão a mexer. O presidente do Conselho, Noé Rodrigues, “manifestou considerações muito positivas sobre a iniciativa no plano da intervenção cívica e associativa, salientando pertinência e interesse do tema”. Ricardo Rodrigues, presidente da Câmara da Vila Franca, “elogiou o trabalho apresentado, regozijou-se por ter sido uma instituição da Vila a apresentar a questão e manifestou disponibilidade em apoiar projectos subsequentes”. José Manuel Bolieiro, presidente da câmara de Ponta Delgada, falou no “interesse da questão para São Miguel, concordando que esta ilha estava fora do roteiro da Baleação Açoriana” e “comprometeu-se a estudar formas de qualificar locais de interesse no tema”. Humberto de Melo, do PSD, “salientou o trabalho realizado, manifestando a vontade e disponibilidade do grupo parlamentar do PSD apresentar iniciativa parlamentar junto do Governo para consideração do assunto no âmbito do Plano e Orçamento 2015”. E a deputada do PS Renata Botelho “informou a assembleia sobre as reuniões havidas com representantes do grupo parlamentar do PS, transmitindo que havia reunido com o Director Regional da Cultura para avaliar procedimento a adoptar relativamente ao assunto, devendo elaborar uma Resolução a apresentar ao Governo com proposta para se implementar um Estudo sobre as técnicas e design do bote baleeiro Açoriano, o que poderá abrir a porta a projectos concretos a apresentar no âmbito do Património Baleeiro dos Açores”.
O anterior Secretário Regional da Cultura propôs a classificação da chaminé (única parte que ainda existe) da antiga Fábrica dos Poços – esta foi a primeira fábrica da baleia a ser construída nos Açores e representa a fase mais pujante da industrialização baleação, promotora de inovações tecnológicas associadas à actividade. O SBB considera que isso “não constitui qualquer benefício e não tem suporte técnico-científico”.
Há também a Estação Baleeira do Faial da Terra, de 1952, que está ao abandono há vários anos. “A Casa dos Caldeiros foi vandalizada, os equipamentos subtraídos ou destruídos, a rampa de varagem subsiste, embora se tenham perdido 2 cabrestantes (aparelho que içava as baleias para terra)” diz o relatório aprovado. A Câmara Municipal da Povoação e a Junta de Freguesia do Faial da Terra consideram o interesse histórico e patrimonial do sítio.
Há ainda a Rampa de Varagem/Alagem de Santa Iria; Vigia do Cintrão [Câmara Municipal da Ribeira Grande]; Complexo Baleeiro das Capelas; Porto das Capelas; Casa dos Botes do Porto das Capelas; Armazém da UABSM no Porto da Capelas; Vigia do Morro; Bairro dos Baleeiros; Rampa de Alagem dos Poços; Calhau Miúdo; Complexo Baleeiro da Ajuda da Bretanha (caldeiros); Varadouro Baleeiro dos Mosteiros; Vigia da Várzea; Posto Baleeiro de Ponta Delgada [Câmara Municipal de Ponta Delgada]; Vigia de Água de Pau [Câmara Municipal da Lagoa]; Vigia da Ponta Garça; Rampa de Varagem de Vila Franca do Campo [Câmara Municipal de Vila Franca do Campo].
“Nenhum destes locais está devidamente identificado e integrado no roteiro turístico da ilha de São Miguel relacionado com a caça à baleia. Alguns mesmo estão votados a total abandono, sem que autarquias locais e entidades competentes de ilha ou regionais façam a mínima diligência/iniciativa para a sua qualificação, identificação e aproveitamento. Conclui-se que eventualmente não haverá uma estratégia clara para o Património Baleeiro em São Miguel”... Pois!

Custo de vida nos Açores pode estar a disparar

Pessoas na rua - PDL“O custo de vida nos Açores é superior ao do continente e penaliza profundamente os trabalhadores que auferem menores salários, pelo que se impõe fazer justiça remuneratória”. É assim que começa o diploma (Decreto Legislativo Regional n.º 1/2000/A) que institui o “acréscimo ao salário mínimo nacional na Região Autónoma dos Açores” – e que visou sobretudo compensar os que ganhavam menos pela recente benesse da redução do IVA e do IRS que beneficiava apenas os açorianos que ganhavam mais, os que na prática eram taxados.
 Não deve ser difícil imaginar que isso seja assim e talvez seja por essa razão que esse conceito faz quase parte do imaginário colectivo. Só com um ligeiro detalhe: tendo em conta os poucos estudos existentes, isso não corresponde à realidade: os Açores têm na verdade um dos mais baixos custos de vida do país!
O primeiro estudo conhecido sobre o assunto foi publicado em 1995 pelo Ministério da Economia, intitulado “As relações financeiras com as regiões autónomas”, e foi realizado pelo Gabinete de Análise Económica (GANEC) da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Aliás, esse estudo tem uma curiosidade: a equipa que o fez, sob orientação do prof. António Pinto Barbosa, incluía o então professor associado de Economia Vitor Gaspar (que viria a ser ministro da Economia), e Luís Morais Sarmento, que viria a ser seu secretário de Estado do Orçamento.
O estudo debruçava-se “sobre as relações financeiras no âmbito do sector público administrativo entre as regiões autónomas e o Estado” e visava “concretizar na prática a tarefa complexa que é a descentralização financeira óptima, isto é, a divisão adequada entre as funções orçamentais a atribuir ao centro e às regiões autónomas”.
Estabelecendo o índice 100 em Lisboa, o estudo concluía que o custo de vida nos Açores era o mais baixo do país, com uma taxa de apenas 94,4%. Era um estudo realista: não comparava exactamente os mesmos produtos, mas a estrutura do cabaz de consumo real em cada uma das regiões – o que levava em conta características próprias de cada uma. Por outras palavras: se uma família açoriana comprasse os produtos que costumava comprar nos Açores em Lisboa, pagaria mais 5,6%...
Só no ano de 2001 é que voltou a haver outro estudo sobre as diferenças de custo de vida entre as várias regiões do país, desta feita realizado pelo INE e usando o Norte como região de referência. Intitulado “Índices de custo de vida: um estudo sobre a realidade portuguesa”, foi realizado por Teresa Bago d’ Uva e Paulo Parente, e usou uma metodologia diferente, reconhecendo algumas limitações ao nível da diferença de tendências de consumo especialmente no caso das ilhas. Mesmo assim e utilizando 5 tipos de índices, o estudo chega a uma conclusão semelhante: o custo de vida dos Açores não era o mais baixo, mas era dos mais baixos do país (ficando apenas acima da região Centro em praticamente todos os índices).
Esse estudo foi publicado cerca de um ano depois da legislação que estabelece por decreto que o custo de vida é mais elevado que no resto do país – e o facto é que desde então não houve mais nenhum. No entanto, quando se analisa a evolução do Índice de Preços no Consumidor  (a inflação), percebe-se que se alguma coisa mudou, ela mudou foi para pior – e os dados sugerem que todos esses apoios tiveram o efeito de aumentar o custo de vida, e não de o diminuir.
Em Setembro de 1997 o índice de preços nos Açores era 89,3% do que se registou no ano de 2012 (que agora serve de referência), o que estava abaixo dos 90,7% do Norte -– os Açores eram a 3ª região a esse nível. Em Setembro de 2014 o nosso índice é de 102,293, ou seja, quase 3% acima do valor de 2012; e é, simplesmente, o maior valor do país... Mesmo Lisboa, que tradicionalmente é onde o custo de vida é mais elevado, está apenas 0,7% acima do que estava em 2012... Por outras palavras, ao contrário do resto do país, o custo de vida está a aumentar significativamente!

Açores reintroduzem vacina pneumocócica no programa regional de vacinação

vacina pOs Açores têm, desde o início do mês, um novo Programa Regional de Vacinação que reintroduz a vacina contra a doença pneumocócica e prevê alterações na administração da vacinação contra o vírus responsável pelo cancro do colo do útero.
“A partir do dia 01 de outubro de 2014, o PRV [Programa Regional de Vacinação] passa a incluir uma vacina contra a doença pneumocócica, aplicável às crianças até aos 5 anos de idade, comparticipada de acordo com o previsto na Portaria n.º 52/2014, de 30 de julho”, lê-se numa portaria publicada ontem no Jornal Oficial da Região Autónoma.
Em julho deste ano, a Secretaria Regional da Saúde, a propósito da publicação de nova legislação sobre reembolsos, já tinha revelado que passaria a haver nos Açores comparticipação da vacina pneumocócica (que protege de doenças como a pneumonia e a meningite) a partir deste mês, na totalidade “para as pessoas com menores rendimentos” e parcialmente para os restantes utentes, “em função das suas condições económicas”.
Por outro lado, e também desde o dia 01 de outubro, há alterações no calendário da administração da vacina HPV (contra o vírus do papiloma humano, uma das causas do cancro do colo do útero).
Neste caso, a portaria prevê a “vacinação universal de rotina no âmbito do PRV 2014 com a vacina HPV, recomendada às raparigas com idades dos 10 aos 13 anos de idade inclusive, podendo coincidir com a administração da vacina contra o tétano e a difteria (Td)”.
A vacinação contra o HPV pode, no entanto, “ser iniciada até aos 18 anos de idade exclusiva e completada (2.ª ou 3.ª dose) até aos 25 anos de idade inclusive”.
O PRV “é aplicável a todos os indivíduos presentes na região com idade inferior aos 18 anos” e, no caso do tétano e difteria, “durante toda a vida”.
O texto explica que, na sequência da aprovação do Programa Nacional de Vacinação, pelo Ministério da Saúde, se tornou necessário “alterar o Programa Regional de Vacinação de forma a conseguir-se maior uniformidade no acesso à vacinação”.