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(Re)visitações de uma continental Parte 1

Quando a Senhora Engenheira Delfina Porto me convidou para aqui estar, hoje, apresentando a vontade da Casa dos Açores de Lisboa celebrar os 35 anos da Revista de Cultura Açoriana, pediu-me que desse o meu testemunho sobre a receção da literatura e cultura açorianas no continente, uma vez que, como sabemos, uma das razões desta revista foi divulgar o universo açórico neste lado do Atlântico.
Não sou açoriana, nasci em Lisboa, tal como os meus pais e dois dos meus avós; quanto aos outros dois, a minha avó paterna era algarvia e o meu avô materno, ribatejano. Nunca fui casada com um açoriano, não tenho, portanto, nenhum laço familiar com os Açores. Não deixa de ser, no entanto, interessante notar que, quando falo sobre algum escritor dos Açores ou outro qualquer aspeto do seu universo, há sempre alguém que me pergunta se sou açoriana. Respondo: Sou açoriana de coração que é a melhor forma de pertença. Contudo, se falo de Miguel Torga, ninguém me questiona se sou transmontana, ou se falo de António Aleixo, ninguém me pergunta se sou algarvia, ou se sou lisboeta, quando falo de Fernando Pessoa.
Posto isto, importa ressalvar que, embora emane de factos, como o exemplo que acabo de apresentar, o testemunho que, aqui, vou prestar é necessariamente limitado e, em algum momento, subjetivo.
Há cerca de trinta anos, num seminário de Estudos pessoanos, do mestrado em literatura que, então, levava a cabo, a professora Teresa Rita Lopes apresentou-me o poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues. Esta apresentação foi feita unicamente através dos poemas com os quais ele participara na revista Orpheu. Feita a apresentação importava conhecer o poeta, ou seja, ler a sua poesia e, para tal, tinha de ter acesso aos seus livros. E assim tentei fazer. Porém, nenhum livro do poeta, e muito pouco do seu universo, se encontrava nas livrarias lisboetas. Consegui, por milagre, um exemplar da antologia de poemas de Côrtes-Rodrigues, organizada e, magistralmente, prefaciada pelo professor Eduíno de Jesus, e nada mais.
A razão desta ausência deu-ma um livreiro: «As edições açorianas não circulam por cá». Mas se não circulam, em Portugal, as edições portuguesas, por onde circularão elas? Retorqui com esta interrogação retórica que expressava a minha perplexidade. Afinal quando eram passados vinte anos sobre o 25 de Abril, Açores continuava a ser distância, a aproximação que a democracia nos trouxera, fragilizava-se nos livros que não chegavam. E continuam a não chegar. Encontramos alguns livros da Companhia das Ilhas, raramente os da Letras Lavadas e nenhum das restantes editoras açorianas, quinze, pelos menos, o número que esteve presente na última edição da Feira do Livro de Lisboa.
Se um ilhéu tem apoio, e muito bem, para vir ao continente, ou seja, para poder circular no seu país, por que não criar-se um mecanismo semelhante para que os livros, que se publicam em Portugal, do Minho ao Corvo, circulem entre os portugueses?
Prende-se com este aspeto um outro que me intriga. Há mecanismos de apoio financeiro, e muito bem, para que os cidadãos europeus se conheçam. Falo, por exemplo, dos programas ERASMUS que permitem aos estudantes e professores dos diferentes níveis de ensino irem ao encontro dos seus congéneres nos países que integram a União Europeia. Interrogo-me: Porque não dispomos do mesmo mecanismo para que os jovens, ilhéus e continentais, sobretudo os dos ensinos básico e secundário, possam, em intercâmbio, conhecer o seu país, ou seja, saber quem São?
Deve-se, seguramente, a este desconhecimento de quem Somos – desconhecimento que a Revista de Cultura Açoriana contribuiu para inverter – muitos equívocos, alguns, porque vindos de gente com responsabilidade, se repetiram e instituíram. Refiro-me, por exemplo, a uma certa crítica, que ignorando o espaço açoriano e a sua circunstância, portanto, sob a “lupa” continental, analisou a obra de Côrtes-Rodrigues e de outros, nomeadamente Domingos Rebelo, rotulando-a de menor. Eu esclareço:
A primeira metade da década de 20 do século passado, em Portugal do continente, caracterizou-se, segundo palavras de Vitorino Nemésio, por uma «(…)modernidade tímida que deixara morrer Orpheu»1. Porém, em Portugal dos Açores, estes anos são marcados pelo Movimento Autonómico, que se estrutura num fervilhante movimento cultural caracterizado por uma forte dimensão telúrica. Em Setembro de 1921, Côrtes-Rodrigues ruma à Terceira por ter sido colocado como professor no liceu de Angra. Aqui priva e vive em tertúlia, de entre outras personalidades, com Luís da Silva Ribeiro que, nas páginas do Correio dos Açores, teorizava a criação do «Espírito açoriano», o tal «Espírito», a que uns chamaram «Consciência açoriana», outros, «Alma açoriana», Côrtes-Rodrigues expressou-o em «Sentimento açoriano» e Vitorino Nemésio, dez anos depois, fixaria na palavra açorianidade.
É, pois, imbuído deste «Espírito» que o poeta micaelense leva a cabo a sua ação cultural e desenvolve a sua escrita, e chama o Amigo-Irmão, Domingos Rebelo, para pintar a sua gente açoriana.
É, pois, neste tempo, nesta senda e obedecendo a um programa cultural 2 que são publicadas obras de autores açorianos ou de temática açórica, que teriam de chegar a Portugal do continente, bem como a outros espaços, nomeadamente às comunidades açorianas do Brasil e da América do Norte. Em 1924, há, portanto, 100 anos, é publicado um número significativo de autores açorianos, entre os quais se conta Côrtes-Rodrigues, com o seu livro de poemas Em Louvor da Humildade, e O Paço do Milhafre, um livro de contos do jovem Vitorino Nemésio. O mesmo jovem que, no ano anterior, tinha integrado o grupo de estudantes ilhéus que, no continente, pugnavam pela autonomia insular e dera uma entrevista a Rebelo Bettencourt intitulada “Por que não temos Literatura açoriana?”3.
Com o mesmo propósito, na primavera de 1924, visita os Açores, a convite de José Bruno Carreiro, um grupo de intelectuais do continente, que ficou conhecido pela «visita dos continentais». Deste grupo faziam parte Trindade Coelho, Joaquim Manso, de entre outros, bem como José Leite de Vasconcelos que regista, num diário, as impressões desta visita que resultariam no livro O Mês de Sonho. Em Junho, chega Raul Brandão e do que viu e sentiu nas ilhas que visitou, escreveu o livro As Ilhas Desconhecidas.
Eis, em síntese, a dinâmica cultural açoriana de há cem anos. Porém, como referi, a crítica continental, por desconhecimento, não a considerou na sua análise, rotulando, ora de «tradicionalista» ora de «regionalista», a arte que, neste tempo, se criou nos Açores, considerando estes conceitos no que eles comportam de reaccionários e retrógrados.
É, afinal, sobre este desconhecimento de quem Somos que Antero falava, há cerca de 150 anos, e cujas palavras estão inscritas na página 3, do primeiro número da revista dirigida por Eduíno de Jesus, que hoje celebramos4
«… algumas pequenas ilhas, perdidas no meio do oceano, demais esquecidas até hoje e que, apesar disso, não são das jóias de menos valor do diadema de Portugal. Falo do arquipélago dos Açores» .
Ouso contrapor, à humildade de Antero relativamente à grandeza do arquipélago açoriano, alguns factos. Tenho para mim que as 9 «jóias» são das de maior valia do «diadema». Portugal açoriano tem gente extraordinária. Talvez seja esta região que mais Gente boa, por metro quadrado, tem dado ao país. Quando falo Gente boa, refiro-me a escritores, poetas, jornalistas, empresários, médicos, investigadores, juristas, professores artistas, de todas as artes.

1Jornal do Observador: Lisboa, Editorial Verbo, 1974, p.54. Talvez não tenha sido alheio a este facto o golpe militar de 28 de maio de 1926 que instaurou a ditadura fascista que o povo português sofreu durante 48 anos.
2Vide, por exemplo, uma carta de Côrtes-Rodrigues a Armando Monteiro, publicada pelo professor Carlos Cordeiro no Vento Norte, suplemento do Diário Insular, Nº24, 3/2/1994, pp.1-5
3Diário dos Açores, Ponta Delgada, Nº9348, 2/5/1923, pp.1-2
4Revista de Cultura Açoriana, Lisboa: Casa dos Açores de Lisboa, Ano 1, Nº 1, 1989

*Intervenção de Anabela Almeida na sessão realizada na Casa dos Açores (CA) em Lisboa, dia 22 março2024, conforme edição Especial Aniversário do Boletim Informativo nº 38 de hoje, 27-04-2024, da CA, por ocasião do seu 97º Aniversário.

Anabela Almeida*

Continua

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