“As grávidas é que são culpadas dos partos fora dos hospitais. Não vão aos Centros de Saúde, não têm telemóveis e não falam português.”
Estas declarações da Ministra da Saúde a propósito da grávida falecida em 31 de outubro, tal como aconteceu no dia seguinte com o seu bebé, por ter sido mandada para casa dois dias antes, sem a assistência adequada à condição de grávida de risco, são reveladoras, no mínimo, de uma gritante falta de humanidade por três diferentes razões:
– São discriminatórias e xenófobas: Quem faz partos fora dos hospitais são mulheres pobres e estrangeiras, e por essa condição, são culpadas à partida se as coisas correrem mal e puserem em risco as próprias vidas (mãe e bebé);
– São arrogantes: As grávidas têm culpa porque não vão aos Centros de Saúde, o que no caso em apreço até se tratou de uma grande mentira, já que a mulher em questão já fora antes sinalizada pelo SNS como grávida de risco;
– São irresponsáveis: Por princípio, quando as coisas correm mal e até haja mortes envolvidas, a assistência pública às grávidas que são pobres e não sabem falar português, não deve ser responsabilizada pelo sucedido.
Se esta ministra continua no cargo, é porque mantem a confiança do 1º ministro e está a cumprir no essencial o (real) programa de governo e dos seus partidos, PSD/CDS, em relação à saúde, com o aval dos que o suportam: IL, Chega e, no caso do Orçamento, do próprio PS (que diria António Arnault se fosse vivo?). Mas sei também que uma demissão sua, servirá apenas para branquear, sem o alterar, o atual rumo destruidor do SNS imposto pelo governo.
Sei igualmente que o neoliberalismo económico, dominante no Ocidente, refletido nestas políticas, é o primeiro responsável pela degradação geral dos serviços públicos, incluindo a saúde. E nesse sentido, as políticas (reais) dos governos ocidentais vão-se tornando cada vez menos democráticas e cada vez mais desumanas, precisamente em consequência das constantes cedências e crescentes benefícios que outorgam à predominância do poder económico.
E de gritante falta de humanidade a uma escala agora só com paralelo aquando da ascensão do nazi-fascismo e das guerras, entretanto travados pela chegada do Exército Vermelho a Berlim em 1945 e a derrota infligida à Alemanha de Hitler, deve ainda acusar-se sem rebuço o 1º quartel do Século XXI.
Desde logo com o genocídio em curso na Palestina, agora em situação de cessar fogo fictício promovido pelos EUA, que já acrescentou em poucos dias mais cerca de 3 centenas de palestinianos (quase metade crianças), mortos por Israel, aos cerca de 70 mil chacinados desde outubro de 2023, a maioria mulheres e crianças. Fora o incontável número de vítimas por condenação à fome, à doença ou soterradas por baixo de escombros na sua própria terra.
Mas também com a contínua violação das regras da segurança e da paz mundiais, do direito internacional e da carta da ONU, por parte sobretudo dos EUA e da NATO, na real busca a qualquer preço pela posse e o domínio das matérias-primas e da energia, disseminando guerras e bombardeamentos selvagens pelo planeta e sacrificando povos inteiros, à luz de princípios anacrónicos como “a paz pela força”, ou a luta contra o narcotráfico e o terrorismo (Venezuela, Colômbia e Nigéria, hoje sob ameaça eminente).
Mesmo que de momento enfraquecida pelo ascenso da militarização, das guerras e da prepotência do domínio económico no mundo, a vozes pela Paz e pela Justiça Social não podem deixar de fazer-se ouvir, seja no dia a dia ou nas grandes ocasiões, nas ruas ou nos gabinetes, como a condição mais firme e garantida da sobrevivência da humanidade.
Mário Abrantes