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Ano Novo e a Capital Portuguesa da Falta de Cultura

À hora e ao dia que escrevo estas linhas, ainda é possível passar pelo portal do Governo Regional dos Açores e aceder à página da Direção Regional da Cultura, onde se encontra a nota biográfica da sua anterior diretora regional, no lugar de figura de proa do setor do arquipélago. Claro que, nas restantes secções, quem aparece é a senhora Secretária. Fruta da época. De uma época de total desrespeito pela atividade cultural e pelo património identitário das nossas ilhas, sem dúvida alguma.
Este é sempre um artigo complicado de se escrever. Tenho permanente receio de enviar para publicação uma página que vai estar desatualizada na hora seguinte, porque a qualquer momento poderá ser necessário decidir que é preciso nomear algum pobre coitado. Ou o senhor presidente pode lembrar-se que convém ter alguém a dirigir a pasta técnica da Cultura, num arquipélago que se quer vender como cultural. Todavia, estamos no final de um ano e no começo do seguinte, o que significa que é preciso fazer balanços e desejar futuros melhores. E isso passa por recordar que 2025 foi mais um ano horrível para a cultura açoriana.
Não há memória de um tempo assim. O reinado desta secretaria regional tem sido de tal forma grave que o que de bom se fazia foi desaparecendo, e o que de mal se precavia tem emergido como regra e lei. A equipa técnica da DRAC permanece revestida de gente profissional, mesmo depois de muitos talentos terem sido afastados, por se terem incompatibilizado com as políticas ditatoriais em vigor. Todavia, quem lá ficou a trabalhar bem, padece de umas fortíssimas algemas ideológicas. Para a senhora secretária, não é preciso gastar dinheiro em direções regionais. O Estado da Arte, é ela. E património, parece nem saber soletrar o seu significado.
Assim ruma o barco, entre escândalos empurrados para debaixo do tapete, processos judiciais em curso e maus fígados. Nos bastidores da secretaria sombra, ouvem-se vozes antigas, que mesmo que oficialmente afastadas, permanecem ideólogas da política cultural em vigor. Terra queimada para quem não beijar o anel. Coitados dos que frequentarem livrarias ou espaços de curadoria da lista negra! E, quando cair a cobertura de uma igreja, não se esqueçam de empurrar a culpa para o gabinete do lado.
Em Rabo de Peixe, no final de 2025, a igreja do Bom Jesus foi vítima do descuido concertado de várias autoridades culturais, curiosamente interligadas de certa forma através da direção regional da cultura. Se é certo que, legalmente, não há obrigatoriedade daquela entidade na gestão de património que não é classificado, há, pelo menos, o bom senso de procurar proteger o que se considera necessário, e utilizar os recursos da Região em defesa da mesma. Mas, para isso, era preciso que houvesse alguma pessoa tecnicamente capacitada para pensar cultura, na pasta da gestão da mesma. O que há, é um vazio gritante na sua direção, e todos os outros problemas que não me farto de elencar, no remanescente.
Este é o ano da Capital Portuguesa da Cultura no arquipélago, conforme tantas vozes continuam a afirmar, e o que se vê é o desespero de quem deseja trabalhar. Soubemos, tarde e a más horas, que afinal a responsabilidade máxima pelos atrasos e os descontrolos parece residir na sede do município e no adjacente apêndice teatral. A coisa permanece debaixo de olhos, e o triste fado que vamos receber não é mais do que o resultado de uma secretaria que nada fez para resolver o assunto, quando poderia e deveria tê-lo feito.
Perdemos a conta aos casos de destruição de património açoriano que são diariamente denunciados, face a uma equipa técnica que, ou já não existe, ou não consegue trabalhar, debaixo de tamanha pressão interna. Registamos, pelo menos uma vez por semana, alguém que é responsável por organismos com peso cultural a clamar por ajuda. Pedem dinheiro na rua, mendigando para poder fazer um bocadinho que seja pelas ilhas onde nasceram ou escolheram viver.
Caímos no ridículo. Sei que já o escrevi antes, mas a verdade é que a situação não melhora, nem tende a melhorar, e é preciso continuar a dizer com todas as palavras a dura realidade: caímos na incompetência generalizada, aliada do umbiguismo desregulado. Numa terra de equipamentos culturais a cair de podre, a prioridade de uma secretaria deve de ser restaurar um Palácio para lá sentar a sua secretária? Faz lembrar a chefia de uma empresa, que começa por instalar o ar condicionado no escritório da gerência e depois arranjará tempo e dinheiro para cuidar dos pobres coitados que trabalham de sol a sol.
Este 2026, começa com a cultura no mais lastimável poço, quase sem fundo. Exceção feita a alguns museus e bibliotecas, bem como a algumas e alguns agentes culturais. A Região estremece de raiva. Quando foi preciso defender, a senhora secretária optou por dizer que tudo vai bem, e que não há pressa em nomear responsabilidades técnicas. O ano termina com tristeza, para muitas pessoas. E começa com perspetiva de infelicidade, para muitos negócios na área da cultura. Hoje, mais do que nunca, é preciso dar sangue, suor e lágrimas, para fazer um bocadinho que seja, na realidade insular. Para este ano que começa, o mínimo que se deseja é um bocadinho mais de respeito, senhora secretária. Não é um favor que nos faz. É a sua função.
Da secretária, onde redijo estas linhas, entre chuva, vento e nevoeiro, faço votos de um bom Ano Novo. Para todas as pessoas: as que me leem e as que não me leem. As que apreciam os meus escritos e as que os desprezam. A liberdade é assim. Linda!
Alexandra Manes

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