SV Versus VS
A avaliar pelos resultados da primeira volta das eleições presidenciais, é evidente que mais de um milhão de eleitores portugueses viram em André Ventura características que, aos seus olhos, o tornam um candidato plausível à Presidência da República. Que seja visto como persuasivo ou como manipulador — distinção que depende muito da sensibilidade de quem observa —, não é surpreendente que a sua mensagem, fortemente ancorada em apelos a sentimentos populares, encontre ressonância nas redes sociais, nas ruas, mas também nas urnas. Muitos discordam das suas posições, e com razão; ainda assim, seria difícil negar a sua eficácia comunicativa e a forma como ajustou o seu discurso ao longo do tempo.
O crescimento do Chega e a projeção política de Ventura não podem ser analisados isoladamente. São também consequência de escolhas políticas acumuladas ao longo de décadas. Políticas públicas mal-sucedidas e episódios de governação amplamente contestados — do período de José Sócrates aos executivos liderados por António Costa — alimentaram um sentimento de frustração que abriu espaço ao surgimento de forças políticas mais radicais.
Para muitos cidadãos, o Partido Socialista passou a simbolizar promessas adiadas e expectativas goradas. Neste contexto, a hipótese de um Presidente da República proveniente dessa área política levanta receios quanto à continuidade de práticas que alguns consideram responsáveis por enfraquecer a governação e limitar a capacidade de resposta do Estado.
Isso não significa, contudo, que as propostas de Ventura representem, por si só, uma alternativa mais segura. Apesar do apoio que mobilizam, levantam dúvidas quanto à solidez democrática da visão que propõem e quanto à preparação técnica necessária para o exercício dos mais altos cargos do Estado — preocupações frequentemente apontadas pelos seus críticos.
O momento político é, por isso, particularmente complexo e exige uma reflexão ponderada. Nesse sentido, candidaturas como a de João Cotrim de Figueiredo foram referidas por alguns analistas como capazes de oferecer uma perspetiva diferente, mais orientada para o futuro, assente em reformas estruturais e numa estratégia de longo prazo.
Mas assim não quis o destino e no próximo dia 8 de fevereiro a escolha entre Seguro e Ventura, ou Ventura e Seguro, parece-me uma equação muito fácil de resolver.
Luís Soares Almeida