Corria o ano de 1980 quando António Variações se estreou na televisão. O refrão da música que cantou, ecoou: “Toma o comprimido, toma o comprimido que isso passa”.
Ao pensar este texto lembrei essa música, bem como o seu primeiro álbum, Anjo da Guarda. Pensando no bem-estar das pessoas, comecemos este texto, em que se abordará a medicação e a psicoterapia, por reforçar que importa não olharmos para o comprimido como a única panaceia, nem olhar para o psicólogo como o anjo da guarda que, sozinho, tudo resolve e tudo defende, qual entidade divina. Pensar as abordagens terapêuticas implica desafiar os preconceitos, quebrar estigmas e aprender com a evidência e com aquilo que a ciência ensina.
A visão dicotómica entre a medicação e a psicoterapia, partindo de um princípio de exclusão de uma forma de intervenção em detrimento da outra, marcou e tende a marcar a discussão à volta da intervenção na saúde mental. O que se ganha na simplificação e economia de pensamento perde-se naquilo que realmente interessa: o desenvolvimento das melhores intervenções.
A evidência, os estudos existentes e a prática clínica apontam para o erro subjacente a essa dicotomia, com prejuízo para os utentes e para a sua saúde, encorajando a existência de abordagens personalizadas alicerçadas na integração de cuidados, concretizando a ideia de que a realidade é complexa, exigindo respostas alicerçadas na evidência, defendendo os utentes e os próprios sistemas de Saúde.
Informação decorrente da investigação, mormente de meta-análises, e as orientações das entidades oficiais nacionais ou internacionais defendem que as pessoas podem melhorar com o auxílio da psicoterapia, dispensando a abordagem psicofarmacológica, desde que a sua situação o permita. Por exemplo, em quadros psicopatológicos depressivos e ansiosos leves, devidamente avaliados e diagnosticados, existem ganhos terapêuticos identificados como relevantes para os utentes.
Desafie os seus estigmas e preconceitos. Procure questionar-se sobre as visões que pode ter sobre as diferentes abordagens terapêuticas, de forma crítica, identificando e questionando eventuais ideias pré-concebidas que possa ter.
Coloque questões, sempre que tiver dúvidas. Questione os profissionais de Saúde sobre todos os aspetos relativos aos processos de tratamento em que intervém.
Valorize as conquistas da ciência e da ciência psicológica, em particular. Procure as abordagens baseadas na evidência, rejeitando as práticas pseudocientíficas e privilegiando profissionais capacitados e devidamente reconhecidos pelas ordens profissionais.
Consulte o portal Eu Sinto-me. A OPP criou o portal Eu Sinto-me, onde pode encontrar diversos conteúdos psicoeducativos sobre a intervenção na saúde mental.
Finalizando, e voltando ao Variações, há coisas que podem passar sem o comprimido, sendo a Psicologia um importante aliado do utente. E outras em que o comprimido, sendo essencial, é parte integrante da solução. O anjo da guarda ficará ao critério da fé de cada um.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os açorianos.
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Filipe Fernandes *
* Psicólogo Clínico e da Saúde e Vogal da Direcção da DRA-OPP