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O riso na tristeza (in)quieta:breve estudo para uma gramática da depressão

“entristecido (tetiêménos, particípio de tetíêmai, «estar triste», verbo etimologicamente relacionado com a palavra latina quies, «quietude», portanto uma «tristeza quieta») no seu coração”.

Frederico Lourenço (2018) nas suas Notas ao Canto 1, sobre a descrição de Telémaco em “Odisseia” de Homero (~ séc. VI AEC)

“Sente a boca e os maxilares contraírem-se de premonição, antecipando algo ainda mais terrível do que o riso”
William Faulkner, “Luz em Agosto” (1932)

Stephen Fry. Jim Carey. Robin Williams. A lista de comediantes notoriamente com sintomas depressivos é longa. Remete-nos para o conhecido quadro de 1862 do pintor polaco Jan Matejko, no qual um bobo de vermelho se encontra sentado numa tristeza pensativa, isolado da restante fanfarra. O riso está presente numa pessoa com depressão como numa pessoa sem depressão. Na verdade, a diversidade emocional humana (uma complexidade com várias respostas psiconeurofisiológicas) possibilita que o riso apareça mesmo em estados depressivos. Apesar dos esforços da ciência psicológica em promover literacia em doença e saúde mentais, mantêm-se no imaginário popular caricaturas do que é a depressão, ora como um permanente apagamento do corpo esquecido imóvel numa cama, ora como uma indolência moderna de quem se entrega à preguiça. Recentemente, num programa de tv, a depressão de um influencer foi invalidada por ele se apresentar a rir num vídeo. Se a língua é a ferramenta-chave para uma boa comunicação, mapeemos a gramática da depressão para que não confundamos diversidade com inautenticidade, e complexidade com contradição.
Morfologia: a depressão não é só psicológica, nem é só biológica. É multissistémica. Estudos de neuroimagem mostram mudanças funcionais e estruturais no cérebro deprimido, tais como a redução do volume de estruturas subcorticais e de circuitos do sistema límbico associados à regulação das emoções e do stress. Mas até essa assinatura cerebral é heterogénea, e duas pessoas com depressão podem ter diferentes substratos neurofisiológicos.
Fonologia: a depressão pode ter um som lento, pausado, silencioso. Mas também pode ser prolixa, rápida e expressiva. Essa fonologia diversa não refuta a sintomatologia: informa-nos de que podem ocorrer flutuações dependentes de um estado ou contexto variável. Alguém com depressão pode ser the life of the party num dado momento, voltando, atropelado por um estímulo interno ou externo, ao silêncio de quem arrasta consigo a noite (auxilio-me de um verso de Jacques Prevel).
Sintaxe: na depressão, os sintomas relacionam-se com outros sintomas e com o funcionamento global da pessoa, desempenhando funções variadas. Essa sintaxe comporá diferentes apresentações consoante a sintomatologia resulte de vulnerabilidade biológica, experiências precoces negativas, eventos traumáticos, luto e perdas, stress crónico, e/ou outros. As diferentes combinações criam uma tapeçaria variada, para cuja compreensão, mais do que quais sintomas, o que importa é como estes se relacionam com a pessoa e seu contexto, e que função desempenham (no passado, e agora).
Semântica: a depressão pode moldar a forma como nos vemos e compreendemos. Para algumas pessoas, é parte fundamental de quem são; para outras, é um intruso que se barrica e se recusa a sair. Diferentes pessoas, em diferentes momentos, com o mesmo diagnóstico, podem viver vidas interiores completamente distintas: ora vergonha e autocriticismo, ora revolta e raiva, ora angústia e desespero. Não se compreende a depressão com uma lista de sintomas, mas sim com uma exploração do(s) significado(s) para a pessoa.
Estilística: a depressão tem vários estilos. Ainda que maioritariamente negativista e pessimista, pode, no entanto, apresentar-se num estilo compensatório: alimentada por perfecionismo, elevados padrões de realização, hiperfuncionalidade, e/ou solicitude e autossacrifício – por vezes lido, erradamente, como força e resiliência, e, consequentemente, atrasando o reconhecimento e procura de ajuda, e levando a processos de cronicidade.
A depressão não é uma única emoção, postura, ou forma de estar. Não há depressão:
há depressões. Compreender a sua gramática permite-nos não só identificar – em nós e nos outros – quando a sintomatologia se aproxima, como também reconhecer, cuidar e responder com compaixão.
Fique bem, pela sua saúde e de todos os Açorianos! Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Sérgio Andrade Carvalho*
*Investigador Doutorado CINEICC/
Professor Auxiliar Convidado Faculdade de Psicologia e da Ciências
da Educação da Universidade de Coimbra

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