O Atlantic Connect Group considera que, com ou sem divulgação do relatório, o desfecho da privatização da Azores Airlines revela uma realidade que já não pode ser ignorada: trabalhadores e investidores participaram num processo que nunca teve uma verdadeira intenção de conclusão, de acordo com nota enviada à nossa redacção.
Ao longo de três anos, o consórcio estruturou uma proposta exigente, ajustada à realidade financeira da companhia, e abriu canais de diálogo com pilotos e tripulantes. Foi discutida a situação da empresa e o seu futuro, com realismo, não foram prometidas soluções fáceis. Os trabalhadores responderam com sentido de responsabilidade, autonomia e maturidade, celebrando acordos de estabilidade laboral.
A estabilidade social e os acordos celebrados com o SPAC e SNPVAC, aprovados em Assembleias Gerais expressamente convocadas para o efeito, foram simplesmente ignorados pelo Júri do Procedimento, não tendo merecido qualquer relevo na avaliação da proposta apresentada.
Em contrapartida, ao chumbar a proposta do Atlantic Connect Group, o Conselho de Administração da SATA optou por manter problemas que são estruturais e que antecedem este processo: a não separação dos Serviços Partilhados, apesar das obrigações decorrentes da decisão da Comissão Europeia; o aumento significativo do número de trabalhadores entre 2022 e 2025 sem reforço da frota; e a tentativa de impor ao comprador a assunção definitiva de obrigações que o próprio caderno de encargos previa ajustar num período de transição.
O Conselho de Administração da Azores Airlines agravou drasticamente a situação da empresa nos últimos 3 anos e foi totalmente incapaz de separar as empresas. Ainda hoje existem vários trabalhadores que têm um vínculo laboral com a Azores Airlines, mas que são, na prática, trabalhadores das outras empresas do Grupo Sata. Esta situação é tão confusa que nem nos cargos de chefia foram capazes de fazer a separação, revelando uma inércia e total incapacidade de tomar decisões ao longo de todo este processo de privatização.
Querer imputar esta incapacidade ao Consorcio é mais uma clara manifestação da falta de pudor na condução de todo este processo, numa tentativa de esconder uma gestão incompetente, e contrária aos objectivos definidos pela Comissão Europeia.
Perante este quadro, é legítimo perguntar se todos estavam verdadeiramente comprometidos com o mesmo objectivo.
Enquanto o Atlantic Connect Group negociava soluções e assumia responsabilidades à mesa com os trabalhadores, outros cenários começaram a ser preparados nos bastidores e apresentados no espaço público, antecipando o fracasso da privatização – antes mesmo de esta ser formalmente encerrada (o que ainda não sucedeu!).
O Governo Regional dos Açores e a administração da SATA não podem tratar os trabalhadores como variável secundária numa estratégia política. Quando o maior ativo da companhia é mobilizado para um processo desta dimensão e importância, não estão apenas em causa questões técnicas ou financeiras. Está em causa a confiança institucional.
Os trabalhadores foram chamados a assumir compromissos que, afinal, se revelaram irrelevantes para quem decidiu. Ao Atlantic Connect Group poderá caber o lamento pelo tempo e pelos recursos investidos, com as respetivas consequências no plano jurídico, mas o dano mais profundo é outro. A confiança dos trabalhadores na condução de um qualquer processo de privatização pode ter sido seriamente comprometida.
E quando a confiança se fragiliza num sector onde segurança, responsabilidade e cooperação são essenciais, o impacto é estrutural e impossível de quantificar.
Se o Governo Regional e a administração da SATA não assumirem com clareza as consequências deste desfecho, investidores e trabalhadores terão legítimas razões para se sentirem figurantes e concluírem que participaram num processo cujo resultado estava previamente definido e para o qual era irrelevante as suas propostas ou esforço.
