“Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como potência hegemónica, enquanto a Europa enfrentava a reconstrução e a recuperação da situação arrasadora em que ficou.”
As relações entre os Estados Unidos e a Europa evoluíram de uma aliança estratégica pós-guerra, para uma parceria multifacetada que conjuntamente enfrenta os desafios globais. De 1945 a 2025, essa trajetória foi marcada por cooperação, tensões e adaptações às mudanças geopolíticas. A tão desafiante leque, adiciona-se a vertiginosa alteração do mundo tecnológico, de que a IA-inteligência artificial generativa é expoente máximo.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como potência hegemónica, enquanto a Europa enfrentava a reconstrução e a recuperação da situação arrasadora em que ficou. A ajuda americana foi decisiva: o Plano Marshall, traduzido em Lei pelo Presidente Truman, após aprovação no Congresso (Senado e Câmara de Representantes1948) injetou milhares de milhões de dólares na recuperação europeia, consolidando a influência dos EUA e promovendo a integração económica do Velho Mundo. Essa iniciativa não apenas revitalizou economias devastadas, mas também fortaleceu os laços transatlânticos, criando uma base sólida para futuras alianças, o que não tardou a verificar-se.
Com o início da Guerra Fria, a relação EUA-Europa tornou-se essencial para conter a expansão da União Soviética. Em 1949, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar liderada pelos EUA que incluía países europeus ocidentais e que cedo se tornou o principal instrumento de segurança coletiva contra o bloco soviético. Durante esse período, os EUA mantiveram tropas na Europa, especialmente na Alemanha Ocidental, como parte da estratégia de dissuasão nuclear. A Europa, por sua vez, beneficiou da proteção americana, embora tivessem surgido tensões em momentos como a Guerra do Vietname e a crise dos mísseis em Cuba, quando ficaram vieram à tona algumas divergências estratégicas, reveladoras de rivalidades latentes. Com o colapso da União Soviética em 1991 a ameaça comum desapareceu, e as relações EUA-Europa passaram por uma reconfiguração. A Europa iniciou um processo de integração mais profundo, com a criação da União Europeia (UE) e a adoção do euro em 1999. Os EUA apoiaram essa integração, mas também demonstraram preocupação com uma possível autonomia estratégica europeia. Recordo-me bem disso, nos anos em que fui membro da delegação inter-parlamentar US Congresso – Parlamento Europeu. Durante os anos 1990, os EUA e a Europa cooperaram em intervenções nos Balcãs, bem como na Bósnia e no Kosovo, reforçando a importância da OTAN como instrumento de estabilidade regional. No entanto, a liderança americana nessas operações evidenciou mais uma vez a dependência europeia em termos militares. Dependência que chegou até aos nossos dias, mau grado os sucessivos alertas dos próprios norte-americanos. Os atentados de 11 de setembro de 2001 marcaram uma nova fase nas relações transatlânticas.
A Europa apoiou os EUA na guerra contra o terrorismo, com participação em operações no Afeganistão. Contudo, a invasão do Iraque em 2003 gerou forte divisão: países como França e Alemanha opuseram-se, enquanto o Reino Unido e outros aliados apoiaram Washington. Essa cisão revelou diferenças profundas na abordagem da segurança e política externa, embora a cooperação económica permanecesse robusta, com a UE e os EUA mantendo a maior relação bilateral de comércio e investimento do mundo.
Durante o governo Obama (2009–2016) houve esforços de reaproximação focados no multilateralismo, acordos climáticos e negociações comerciais como o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), que acabou não sendo ratificado. A eleição do Presidente Trump em 2016, trouxe desafios à relação EUA-Europa. A retórica protecionista, críticas à OTAN e à UE, e a retirada dos EUA de acordos internacionais como o Acordo de Paris, geraram atritos. A Europa respondeu com iniciativas de defesa própria, como a Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), procurando maior autonomia estratégica. Apesar das tensões, manteve-se a cooperação em áreas como segurança cibernética, combate ao terrorismo e comércio. A pandemia de COVID-19 e a invasão russa da Ucrânia (2022), reacenderam a importância da aliança transatlântica. Os EUA lideraram o apoio militar à Ucrânia, com forte respaldo europeu, reforçando a OTAN e revitalizando o vínculo geoestratégico.
Em a 2025, com a reeleição de Trump, a Europa enfrenta o desafio de equilibrar a dependência dos EUA, ao necessitar reafirmar a sua soberania em vários campos, dos quais o mais premente é o militar. Mas não apenas este: a globalização coloca desafios tremendos a empresas e aos próprios Estados Membros da União Europeia, não se compadecendo com tiros nos pés tipo Brexit, ou divisionismos à húngara versão Victor Orban. Há que repensar o atual modelo da União Europeia. Antes que seja tarde demais. A ascensão da China como potência global também influencia essa dinâmica, exigindo coordenação entre Washington e Bruxelas para lidar com questões comerciais, tecnológicas e geopolíticas. A evolução das relações entre Estados Unidos e a Europa de 1945 a 2025, reflete uma parceria resiliente, moldada por interesses comuns, divergências estratégicas e desafios globais. De aliados na reconstrução pós-guerra, a parceiros na defesa da ordem internacional, EUA e Europa continuam interdependentes, embora cada vez mais conscientes da necessidade de redefinir posicionamentos num ameaçador mundo multipolar.
Vasco Garcia