Entre 25 de novembro e 10 de dezembro assinalam-se os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres: um tempo para ouvir, refletir e agir. Todos os anos, em Portugal, dezenas de mulheres continuam a perder a vida por causa da violência de género, uma realidade que não pode ser silenciada. É preciso assumir o compromisso de repensar as masculinidades, porque sem essa mudança a violência continuará a ser normalizada e nenhuma sociedade pode evoluir enquanto a vida das mulheres não for tratada com a dignidade que merece.
Em pleno século XXI, ainda se espera que o homem seja forte, racional, controlado e emocionalmente impenetrável. Crescemos numa cultura que confunde vulnerabilidade com fraqueza e aprisiona os homens em estereótipos que os afastam de si próprios e dos outros. A ideia de ser homem não é uniforme, sendo o conceito de masculinidade hegemónica, desenvolvido por Raewyn Connell (1987), uma das formas mais reconhecidas. Este modelo dominante descreve o homem como aquele que manda, decide, não falha e assume o papel de provedor. É o padrão que a sociedade tende a valorizar e que reforça o sistema patriarcal, definido como práticas e estruturas sociais que colocam os homens numa posição de domínio e subordinam as mulheres (Walby, 1990).
Esta construção tem legitimado a opressão das mulheres e alimentado a competição entre os próprios homens. O resultado é uma muralha de silêncios, medos e máscaras. É urgente promover uma masculinidade saudável, libertando os homens do fardo de terem de ser “fortes” sempre. Como fazê-lo? Desconstruindo a dualidade entre coragem e sensibilidade e mostrando que cuidar é um ato de poder, respeitar requer maturidade para lá de se impor e que chorar é, muitas vezes, mais humano do que reprimir. Uma masculinidade saudável não fragiliza — fortalece.
As novas masculinidades mostram que o homem pode ser forte e sensível, racional e emotivo, protetor e vulnerável. É ter liberdade para amar sem rótulos e cuidar de si e da sua rede de apoio sem medo de julgamento. A luta pela igualdade de género não ameaça a identidade masculina — desafia-a a ser mais livre, inteira e autêntica. Os 16 Dias de Ativismo convidam à introspeção, ao diálogo e à educação emocional. É fundamental ensinar os jovens que pedir ajuda não é fraqueza e lembrar que a verdadeira coragem está em reconhecer a dor, não em escondê-la.
A sociedade deve ter um papel ativo, reconsiderando normas “tóxicas” perpetuadas ao longo do tempo. A liberdade das mulheres depende também da dos homens, presos a expectativas impossíveis, à repressão dos afetos e a mitos que os mantêm reféns dos papéis que a sociedade lhes exige. O futuro da masculinidade passa por valorizar a diversidade humana. Por onde começar? Sendo conscientes e questionando o que nos disseram ser “normal”. Reconhecendo que a coragem está em viver a masculinidade de forma livre, responsável e consciente, desafiando padrões que limitam tantas pessoas.
Ao fazê-lo, abrimos caminho para a desconstrução do sistema patriarcal e para a criação de identidades masculinas que questionam o domínio, o poder e os privilégios da masculinidade tradicional, e assim podemos iniciar um percurso, rumo a uma verdadeira igualdade.
Sara Lemos*
* Técnicas da APF – AÇORES /(A)mar – Açores pela Diversidade
Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres 2025