Caro leitor, tal como eu, certamente já foi confrontado com esta enorme mentira fundacional. Uma mentira que teima em existir desde o ano 985. A Gronelândia (Greenland) não é verde. É branca!
Branca até doer os olhos. Completamente branca de gelo antigo, glaciares imensos. Tão branca que recusa qualquer tipo de verdura que, por teimosia, possa tentar existir.
Já a Islândia (Iceland), carrega no nome a ameaça de um eterno inverno glacial. Um local digno de um filme passado na Sibéria. Digno de ser a residência permanente do Pai Natal.
Pois bem, a Islândia é verde. Verde do musgo. Verde de pastos. Verde o suficiente para fazer inveja ao estádio José Alvalade.
Nada disto faz sentido.
Certamente foi engano, pensa talvez. Não foi engano, foi enganar. Passo a explicar:
Vamos, em primeiro lugar, nomear os culpados: os Vikings. Pessoal porreiro, viajado, empreendedor. Se não fossem as inúmeras campanhas homicidas, podiam perfeitamente ser considerados um povo pacífico. Um deles, Hrafna-Flóki, chegou um dia a uma ilha em todos os aspetos ideal. Apesar de estar um friozinho, toda a matéria vegetal indicava ser um lugar perfeito para colonizar. Assim o fez. Nesse mesmo ano apanhou um inverno miserável. Provavelmente o pior do século. Zangado, viu gelo no topo de umas montanhas, um glaciar minúsculo no horizonte e decidiu… decidiu atirar tudo para o lixo e chamar o sítio Terra do Gelo – Islândia. Não foi estratégia geopolítica. Não foi uma tentativa de afastar possíveis vizinhos. Foi raiva!
Ainda assim, lá o sítio se colonizou. Os habitantes: vikings sedentos de sangue, navegadores natos e nomencladores de baixa categoria.
Décadas depois, nessa mesma Islândia, surgiu um tal de Erik, o Vermelho. Pelo nome já deve ter percebido que a palete de cor deste individuo nórdico devia-se, muito provavelmente, à presença abundante de hemoglobina nas suas vestes. Este senhor, certo dia, foi exilado por matar várias pessoas. Deve ter atingido um número que até os Vikings consideram indecente. Ou simplesmente não gostavam dele. Não interessa…
O seu exílio fez com que navegasse para oeste à procura de algo melhor. O que encontrou foi uma massa de terra muito maior do que tudo o que tinha visto antes. Enorme. Vasta. Branca. Sim completamente branca, coberta de gelo. Gelo por todo o lado, caro leitor.
Lá encontrou uns míseros metros quadrados para construir a sua barraca e ficou uns anitos.
Numa noite gelada, tremendo incontrolavelmente, Erik teve uma ideia brilhante. Uma ideia genial até: “Se chamar a isto Greenland (terra verde), isto é capaz de vender.”
E vendeu.
Acredite, caro leitor, isto é verdade. Chamou aquele monstro branco, Terra Verde, única e exclusivamente com o intuito de atrair colonos. Colonos estes, que coitados, na sua maioria vieram da terra do gelo que, por sua vez, é verde… Esta até a mim me confundiu a escrever.
Provavelmente sentia-se sozinho. Coitado… Ou com saudades de tingir as roupas de vermelho. Ninguém sabe. Nem eu. E estou a inventar isto.
Veja bem, Greenland é apenas uma publicidade enganosa versão Viking. Imagino até um panfleto imobiliário do ano 985. “Excelente exposição solar. Ideal para famílias. Propício para veraneio.” Tudo mentira! Mas… funcionou. E é isso que interessa.
Mas surge agora uma dúvida enorme. Uma dúvida que o olhar atento do comediante Shane Gillis captou: será que Donald Trump, mil anos depois, caiu na esparrela e pensa que a Gronelândia é mesmo verde? Isso explicava muita coisa caro leitor.
Veja bem, o homem já deve estar a imaginar resorts e campos de golfe. Na cabeça dele já se consegue ouvir – “Se têm o nome Greenland, quantos campos de golfe é que se podiam meter ali.” Será que a mentira de Erik, o Vermelho apanhou o homem laranja. Eu digo que é bastante provável…
Philip San-Bento Pontes