“O mundo mudou definitivamente. Isso parece ser uma certeza inalienável. A toda a hora, recebemos uma quantidade absurda de estímulos que fazem com que tudo pareça passar a correr.
De repente, já nos esquecemos do ontem e do amanhã.
O presente é a única coisa que existe.”
Não há um consenso histórico certo para aferir a origem da pena de morte por crucificação, ainda que saibamos que ela existiu, pelo menos desde a antiga Pérsia, e que foi posteriormente aperfeiçoada pelo Império Romano, transformando-se no castigo mais humilhante e decisivo a se aplicar ao indivíduo, a par das suas ações de dizimação, para lidar com grandes grupos rebeldes. O que sabemos é que a crucificação consistia no ato de pregar uma pessoa a uma cruz, levantando-a no ar e deixando-a a sofrer, até acabar por sucumbir às dores, à fome, sede e desespero. Pode parecer estranho estar a descrever tudo isto, principalmente, num arquipélago que é profundamente cristão, e está bem habituado às suas cruzes. Todavia, parece-me importante que visualizemos coletivamente a dor de uma crucificação, para regressarmos à mais perigosa das notícias que saiu na semana passada.
Com conivência de um grupo substancial de agentes da Polícia de Segurança Pública portuguesa, dois terão sido acusados de um vasto conjunto de atos criminosos associados à tortura de pessoas, na sua maioria sem-abrigo, ou toxicodependentes. A lista de alegações é vasta, mas importa detalhar: tortura em geral, abuso de poder, violação, sodomização, ofensas à integridade física, entre outras ações de ódio e rancor. A autoridade policial transformada em psicopatia emocional. É mais um belíssimo exemplo do que acontece quando procuramos seguir um país que é conhecido pelos seus crimes de guerra, como é o caso dos Estados Unidos. Portugal refez-se à sombra de uma ideologia neoliberal que agora se transformou em capitalismo selvagem, regressando atrás mais de cinco décadas para se desejar como Estado autoritário, onde a força do agente é maior do que a liberdade do cidadão.
Não acreditam? Esses polícias de (in)segurança pública estão acusados de atos como o de introduzir um bastão no ânus de um ser humano. Ao que é possível apurar, ainda em processo de investigação, há uma alegação de terem algemado uma mulher a um banco da esquadra, como se a crucificassem. Enquanto ela rezava e pedia ajuda ao seu Deus, eles riam e abusavam da sua integridade física e emocional, atacando com gestos demasiado obscenos para aqui reproduzir. Há colegas que, pelo que se sabe, riam e filmavam, enquanto tudo aquilo acontecia. Coniventes ou inconsequentes, o que revelaram foi um exemplo clássico do que conhecemos como a banalidade do mal. Se não é comigo, porque é que me devo importar?
É uma consequência concertada de uma missão estruturada pelo grande movimento fascista do século XXI, que nos bombardeia com imagens nojentas a toda a hora, para nos tornar dormentes ao sadismo e ao caos de uma ação como esta. Para a e o cidadão comum, que liga o noticiário ou pesquisa o seu feed de notícias, é normal encontrar inocentes a serem espancados ou presos nas ruas de Minneapolis. Quando tomam conhecimento de uma crucificação em Portugal, acabam por suspirar e pensar que é só mais uma tristeza. Mas não é. É um ultraje, que a todos nós deve tocar de forma profunda. Indignar. Revoltar. Apelar à luta.
Há muito que as forças da extrema-direita financiadas pelos grandes grupos económicos, alguns estrangeiros, outros portugueses, andam a piscar o olho às forças policiais. É certo que há muitos bons polícias em Portugal. Gente de bem, que se esforça por ajudar e por manter uma postura correta, num mundo cada vez mais dividido e impróprio para consumo. Mas também há os que seguem aquele percurso profissional em busca de poder próprio ou de um escape para a sua natureza interior. E são esses que, frustrados com uma vida que não os compreende, se viraram para o chamado Movimento Zero, o primeiro de todos os braços armados do partido do 4.º pastorinho, que, entretanto, se fundiu com outros grupos, como o 1143. Para quem já não se lembra, esse Zero nasceu de um conjunto de outras acusações de abuso policial, feitas a polícias que perseguiram e espancaram cidadãos na Cova da Moura. No auge da pandemia, o Movimento ganhou vida própria, associada às organizações “pela verdade”. Não me esqueço de dizer que o jornal oficial do chega em tempos já se chamou Folha Nacional Pela Verdade, por estar ligado a essas chalupices todas.
Conforme o atesta a investigação de Miguel Carvalho, recentemente censurada por um autarca do PSD, em mais uma demonstração dos laços que unem a Spinumviva a Ventura, o Movimento Zero evoluiu nas sombras e nas reuniões de bastidores, para construir os pilares da segurança oficial do partido, e manter uma presença ativa nas forças de segurança, que não faz campanha oficial, para não ferir a legislação que ainda existe, mas que vota e cacica quem quer votar, de forma evidentemente musculada. Ao longo dos últimos cinco anos, não foram poucas as notícias e alegações trazidas a terreiro contra agentes. Foram muito poucas as consequências que essas investigações trouxeram.
E, assim, regressamos à crucificação na esquadra 22.º do Rato, em Lisboa. E aos outros abusos todos que aquelas mulheres e aqueles homens sofreram, sendo filmados e passados de mão em mão como se fossem brinquedos para psicopatas partirem aos bocados. Não sei se estes polícias são do Movimento Zero, ou já alguma vez estiveram a ele ligados. Parece-me que são pessoas a necessitar de apoio psicológico, que aprenderam com o que se passa na televisão e nas ruas, escutando as mensagens políticas do perigoso líder do partido salazarista, enquanto assistem à ascensão de um Estado fascista no país que Portugal acreditava ser o farol da Liberdade no Ocidente. Aliás, o que se passa com as forças do ICE e a dizimação romana não é assim tão distante. A própria líder política do projeto, Noem, apareceu há poucos dias em frente a um pódio que tinha o slogan nazi: “quando atacam um de nós, atacamos todos vós”.
O mundo mudou definitivamente. Isso parece ser uma certeza inalienável. A toda a hora, recebemos uma quantidade absurda de estímulos que fazem com que tudo pareça passar a correr. De repente, já nos esquecemos do ontem e do amanhã. O presente é a única coisa que existe. Essa condenação da memória, que os romanos também procuraram aperfeiçoar, leva a que o choque de uma crucificação no Rato nada mais seja do que uma vírgula na semana que passou. Mas, basta uma breve escavação nas páginas do passado recente para perceber que o que isso significa é que o Movimento Zero não morreu. Está entre nós, pronto a servir o fascismo, no que se avizinha ser o futuro de Portugal. Nos Estados Unidos, as pessoas lutam pela sua vida. Um dia, seremos nós.
Ficarás no sofá?
Alexandra Manes