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O Louco de Deus no Fim do Mundo, de Javier Cercas

“As conversas e o convívio de Javier Cercas com os missionários na Mongólia tocaram-no profundamente e os leitores do livro por certo não lhes ficarão indiferentes.”

Não me lembro de como descobri este livro, mas tenho bem presente a razão por que o comprei: sendo o “Louco de Deus” o Papa Francisco e o autor Javier Cercas, provavelmente o maior escritor espanhol vivo, lembrei-me da afirmação frequente do meu professor e grande amigo, Padre Roque Cabral SJ: “vale a pena ler os grandes escritores, porque vêem longe”. A leitura das primeiras páginas confirmou a sentença.
O autor inicia a escrita contando como tudo começou. Em Maio de 2023, no fim de uma sessão de autógrafos em Turim, Lorenzo Fazzini, responsável pela Libreria Editrice Vaticana, abordou-o com esta proposta: estava planeada a ida do Papa à Mongólia para Agosto desse ano e, no Vaticano, tinham pensado propor-lhe que “escrevesse um livro sobre a viagem, o papa, a Igreja, o Vaticano, sobre o que quisesse” (p. 16). O escritor, estupefacto e não acreditando no que ouvia, reagiu: “Mas, oiça, não sabem que sou um tipo perigoso?”. Resposta: sabiam que ele não era crente e precisamente por isso o convidavam, e explicou: “que eu saiba, será a primeira vez que o Vaticano abre as suas portas a um escritor para que fale com quem quiser e pergunte o que quiser” (16). Na continuação da conversa, Fazzini explicou que a ideia era que o livro fosse escrito por alguém de fora do Vaticano, e que, cito Javier Cercas: “eu disporia, evidentemente, de liberdade total, que, na realidade, o livro não era uma encomenda do Vaticano, que só me possibilitavam escrevê-lo, que nem sequer pretendiam publicá-lo na sua editora, que poderia publicá-lo onde quisesse, como quisesse e quando quisesse”; limitar-se-iam a “garantir-me todas as facilidades”, os objectivos não eram propagandísticos ou económicos (17). O escritor perguntou se, caso aceitasse o desafio, teria oportunidade de falar a sós com o papa, dando a entender que era uma condição sine qua non. A resposta foi que pensariam nisso depois, caso o papa aceitasse o projeto.
O escritor confessa: “(n)essa noite não preguei olho” (17) a recordar aquela conversa e a imaginar o que poderia ser a concretização da ideia. Pouco a pouco foi vendo que estava perante uma oportunidade única que não podia perder. A ideia apresentada por Fazzini foi acolhida pelo papa e Javier Cercas aceitou a proposta, embora sem estar confirmado o encontro a sós.
O escritor começou a sua investigação, procurando tudo o que poderia interessar para o livro, desde a vida de Jorge Bergoglio, na Argentina, a sua formação de jesuíta e o seu trabalho depois de ordenado sacerdote, nomeadamente os anos em que foi superior provincial da Companhia de Jesus naquele país (1973-1079), nos tempos difíceis da ditadura militar (1976 a 1983), e os posteriores, particularmente os dois anos de apagamento em que foi superior na residência da Companhia em Córdoba.
De toda esta preparação, considero de particular interesse as entrevistas/conversas do escritor com variadíssimas pessoas, umas próximas e outras afastadas da Igreja e do Vaticano, no que teve a ajuda preciosa de Fazzini, sugerindo temas e nomes e estabelecendo contactos. Estas recolhas enriquecem sobremaneira o livro, alargando-lhe o ângulo de visão, o que é de enorme importância quando se está perante uma instituição com uma história de mais de dois mil anos que marcou o mundo, estando de tal modo entranhada na nossa cultura que muitas vezes já nem nos apercebemos da sua presença no nosso dia a dia. Dessas variadíssimas entrevistas/conversas, vou apenas assinalar algumas.
A primeira (p. 97-111), logo no dia da chegada a Roma do escritor para a viagem, foi com o padre Antonio Spadaro, jesuíta, tal como o papa, na altura diretor de La Civiltà Cattolica, publicada em Roma pela Companhia de Jesus desde 1850 e considerada por muitos o órgão oficioso da Santa Sé; o oficial é L’Osservatore Romano. É de ter em conta que foi a Spadaro que o Papa Francisco deu a primeira entrevista após a sua eleição, sendo o texto publicado por La Civiltà e por outras revistas dos jesuítas; em Portugal, saiu na Brotéria [177(2013), pp. 113-144]. A conversa entre o escritor e o padre jesuíta é muito significativa. De um lado temos alguém que quer saber e pergunta com perspicácia e, do outro, um jesuíta muito bem reparado, próximo de Francisco, com uma cultura vastíssima e um pensamento articulado. Voltarão a conversar no voo de regresso da Mongólia.
A segunda foi com o Cardeal José Tolentino de Mendonça, na sede do Dicastério para a Cultura e Educação, de que é perfeito. Javier Cercas inicia a descrição do encontro com estas palavras: “(c)om o cardeal Tolentino acontece uma coisa insólita: a afinidade é imediata. O cardeal é poeta e a afinidade cria-a a poesia” (111). A leitura das páginas consagradas à conversa com o cardeal português (111-126) mostra essa afinidade e o entusiasmo do escritor espanhol em aproveitar a conversa com um poeta de sensibilidade requintadíssima. Quem conhece minimamente Tolentino de Mendonça não estranha esse entusiasmo devido à sua abertura aos outros e a sua capacidade de encontrar sempre um ponto de vista inesperado para olhar a realidade. A conversa sobre a fé – diz Tolentino: “(p)ara mim, a fé é uma espécie de intuição” –, a cultura, o entendimento do ser humano e outros temas é muito estimulante. O impacto deste diálogo em Javier Cercas é evidente ao longo do resto do livro; várias vezes o escritor se lembra da conversa com o poeta.
Seguem-se muitas outras conversas/entrevistas com pessoas muito diferentes, umas mais ou menos ligadas à Igreja e outras bem afastadas. Essas conversas são acompanhadas de reflexões do escritor que vão abrindo cada vez mais a nossa visão sobre a Igreja, o Vaticano e o mundo.
As conversas e o convívio de Javier Cercas com os missionários na Mongólia tocaram-no profundamente e os leitores do livro por certo não lhes ficarão indiferentes. O Padre Ernesto (208-212, passim), italiano, missionário em África durante 12 anos e a trabalhar na Mongólia desde 2004; o Padre Giovani, durante 10 anos missionário na Coreia do Sul e há 30 anos a viver a China, disfarçado de empresário (238 e ss); a Irmã Ana, missionária queniana (270); a Irmã Francesca, uma ex-universitária anticatólica de Turim agora missionária, chegada à Mongólia há um ano (286-296). Estas conversas são inesquecíveis. O escritor espanhol considera que é o “superpoder da fé” que distingue os missionários.
A última conversa/entrevista que Javier Cercas relata foi com Victor Manuel Fernández, nomeado por Francisco perfeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, (396-416) que, com ironia, o escritor chama “[o] grande Inquisidor de Bergoglio” (397). É uma conversa muito elucidativa no que se refere ao Papa, ao Vaticanos e à Igreja em geral. Algumas passagens serão surpreendentes para muita gente.
A merecer leitura atenta e meditada é a reflexão que Javier Cercas faz, quase no fim do livro em cinco páginas impossíveis de sintetizar (423-427), sobre quem é “O louco de Deus”. São de uma profundidade e, em meu entender, de um acerto insuperáveis.
O Louco de Deus no Fim do Mundo [Lisboa: Porto Editora, 4ª ed., 2025] é um livro excecional. Com a sua leitura aprende-se imenso, não só sobre o Papa Francisco, o Vaticano e a Igreja Católica, instituição milenar e verdadeiramente universal, e o mundo, num livro de um grande escritor que teve uma educação católica na Espanha franquista, que faz questão de dizer, em epigrafe à obra: “Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laicista militante” (11) e, mais adiante confessa: “sou escritor porque perdi a fé” (31)”. A literatura, como a filosofia, é uma constante reflexão que tenta responder à pergunta kantiana “O que é o homem?” É o que Javier Cerca faz ao longo deste livro.
José Henrique Silveira de Brito

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