Hoje recebi um poema do meu filho dedicado à memória da mãe e uma nova versão musicada do poema “Maria Nobody” https://youtu.be/dFJ5XlKtmQ4?list=PLwjUyRyOUwOKRIA8XUWpVdMb8qRyjwlPB
. Uma surpresa agradável, a contrastar com mais um dia de bruma, chuvosa (menos vento do que nos últimos dias) e com a vontade de fugir, de emigrar para um local mais tropical. Há momentos na vida que apetece guardar. IA ou não, o que conta é a intenção e o seu significado latente. Exatamente quando me estava-a recordar de que, exceto no futebol (a Nini era fanática benfiquista) tínhamos muitos gostos em comum e partilhávamos muitas semelhanças, aparte daquelas que fomos construindo ao longo dos anos, ao moldarmo-nos um ao outro. Enquanto muitos casais hoje se “gastam” e não “se consertam”, nós íamos conseguindo emendar algumas coisas, mesmo sem fita-cola nem adesivo. E conseguíamos falar sem nos insultarmos, como tantos casais que por aí andam, a fingir. Conseguíamos discutir pontos de vista diferentes e, por vezes, chegávamos a um consenso. E é nisso que ela me faz falta diariamente. Por vezes, esqueço-me de que ela já não está fisicamente presente e digo: “olha, sabes…” e dou conta da sua real ausência. Sei que ela gostaria de ouvir o poema do João e escolheria uma das versões de que mais gostava da “Maria Nobody”. Eu continuo a ter de viver sozinho e, diariamente, percorrer fotos e memórias da nossa vida em comum. A maior parte da nossa vida foi agradável e conseguimos ultrapassar os escolhos e os Everest com que nos deparamos.
Quando vejo os estragos no continente, imagino como seria bom se fôssemos japoneses ou chineses… assim, tenho de me contentar em ouvir um ministro dizer que vai demorar 9 meses para reparar a Linha do Oeste da ferrovia! Eles construíam uma nova nesse tempo ou menos. Vai demorar anos a restaurar o que se danificou, fora aquelas obras de Santa Engrácia, que nunca serão concluídas, sempre adiadas para as calendas. A incompetência, a desresponsabilização, a incúria, a falta de manutenção de pontes, estradas e tudo o mais é o que me custa mais a ver. Mas se fosse em casa deles, aposto que seria numa pressinha.
Como escrevi há mais de 15 anos, o mundo ocidental — o imperialismo capitalista — aproxima-se do seu termo.
Infelizmente parece que vai ser substituído por autocracias e fascismos. Andam todos muito contentes com a máxima votação para Presidente da República, mas esquecem-se de que se os partidos não alterarem radicalmente o seu funcionamento, é só uma questão de tempo para o Ventura e a sua corja ascenderem ao poder, de mérito próprio, eleitoral, tal como aquele austríaco de nome Adolfo.
Custa-me imaginar que estarei vivo quando isso suceder; toda a vida lutei para que isso não se repetisse, mas ninguém lê ou estuda a História e repete os mesmos erros. Dizem que Caracala foi o pior de todos. Calígula era louco e Cómodo também vivia em outra realidade. Caracala era simplesmente cruel por crueldade. Dito isso, Cómodo leva o bolo pelo maior dano de longo prazo ao império romano no menor espaço de tempo, se estamos medindo dessa forma. Calígula foi o mais depravado, enquanto Caracala foi o mais cruel entre os três. Provavelmente, o mais excêntrico tenha sido Cómodo. Talvez Trump esteja a competir diretamente com ele.
Certa vez, tendo o imperador Calígula, que governou de 37 a 41 d.C., adoecido gravemente, dois cidadãos romanos apresentaram-se: um desejava oferecer a própria vida e outro propunha-se a lutar como gladiador se o imperador se recuperasse. Calígula recuperou a saúde e exigiu que cumprissem as promessas, de modo que ambos morreram. Cometeuincesto com as irmãs, queria fazer do seu cavalo cônsul e afirmou ser capaz de comunicar com a deusa lunar.
Diz-se que Nero, imperador de 54 a 68 d.C., se considerava um artista talentoso. Cantava, tocava cítara, escrevia poesia e conduzia bigas. Exibiu-se em teatros e arenas de circo e até fez uma digressão pela Grécia em67/68. Em Roma, utilizou imensos recursos do império para promover luxuosos banquetes públicos e para construir um complexo palaciano para si, no centro de Roma, que ligava a colina do Palatino à do Esquilino e ocupava uma área de cerca de 50 hectares.
Diz-se que Domiciano, imperador de 81 a 96 d.C., teria aterrorizado a aristocracia romana de forma sistemática, obrigando-a a comparecer às suas receções matinais e jantares noturnos no palácio. Ao fim do seu reinado, tinha tanto medo de conspirações que instalou espelhos nos muros do palácio para ver o que aconteciana sua retaguarda.
Calígula, Nero, Domiciano, caso nos centremos no primeiro século d.C., personificam de maneira absoluta a imagem negativa dos imperadores romanos nas fontes literárias antigas. As fontes citam como características comuns orgulho, ódio e perseguição da aristocracia senatorial, luxo e prodigalidade, crueldade e perversão sexual, megalomania e, ainda — no caso de cada imperador, de forma mais ou menos óbvia —, sinais de doença mental. Todos os três foram assassinados — no caso de Nero, forçado a cometer suicídio. Após as mortes, foram apagados da memória pública pelo Senado, mediante damnatio memoriae, e os seus atos foram postumamente declarados inválidos. Foram esses três imperadores, acima de tudo — além de Cómodo, que governou entre 180 e 192 — que deram sentido ao termo moderno “loucura imperial (ou loucura cesariana)”. Esse termo começou a aparecer no século XIX e também foi aplicado a governantes contemporâneos, mostrando-se útil desde então em vários contextos não académicos, sendo uma espécie de categoria-síntese para designar a perda de contacto com a realidade por parte de potentados modernos, causada pelo próprio papel que desempenhavam. Olhem em volta e descubram semelhanças. Isto sem falar na anormalidade do caso E P S T E I N.
Chrys Chrystello*
*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713
MEEA-AJA (IFJ)