Entre a dispersão e a necessidade de pertença, os clubes portugueses surgem como refúgios simbólicos – espaços onde a identidade se recompõe e a saudade ganha forma.
Na Flórida, onde vivem cerca de cem mil pessoas de origem portuguesa, há um paradoxo curioso na geografia afetiva da diáspora. O número de clubes e associações sociais é superior ao que se encontra em estados com presença lusa historicamente muito maior. À primeira vista, parece uma desproporção. Contudo, olhando com atenção, estes clubes não são apenas instituições, mas também casas simbólicas, rituais de continuidade – são pequenas ilhas de memória num território onde tudo é movimento.
Embora a presença portuguesa naquela grande península remonte à época colonial espanhola, a migração para a Flórida como parte dos Estados Unidos é recente, fragmentada e dispersa. Não há bairros portugueses, nem ruas com mercearias de sotaque familiar como em Newark ou Fall River. Nem a densidade humana do norte substitui a necessidade de estruturas formais. Na maioria das vezes, o português chega adulto, reformado ou em trânsito interno ido dos estados nortenhos. Chega com a mala cheia de passado e um futuro ainda por desenhar. É precisamente neste intervalo – entre o que se deixa e o que ainda não se conhece – que nasce a necessidade de um clube.
A psicologia da migração ajuda a explicar o fenómeno. Quem chega a um lugar novo procura rituais que estabilizem a identidade: uma festa, uma mesa, uma música, um sotaque. Wilfred Bion (Learning from Experience, 1962) diria que estes espaços funcionam como “continentes” de ansiedade; Jung veria neles a expressão do arquétipo da casa, o lugar onde o eu se recompõe. Como observou Sylvia Duarte Dantas (Identidade, migração e suas dimensões psicossociais, 2010), a migração implica um “luto cultural” e a necessidade de criar redes simbólicas que sustentem a identidade. Estes clubes, portanto, não são apenas espaços de convívio, mas sobretudo dispositivos psicológicos que ajudam a metabolizar a ansiedade e a saudade. Transformam a perda em memória compartilhada. Dantas sublinhou que, diante da rutura, o sujeito busca estratégias para manter a continuidade do eu, e os clubes cumprem exatamente esta função.
Mas há também uma leitura semiótica. Um clube português representa um texto cultural, no sentido que Umberto Eco o veria: um sistema de signos que comunica pertença. A bandeira na parede, o galo de Barcelos, o cheiro a caldo verde, a fotografia antiga de uma festa do Espírito Santo – tudo isto é linguagem. Numa ótica informada pela teoria de Peirce, ali convivem ícones (objetos que recordam Portugal), índices (sinais de presença real, como o sotaque ou a música) e símbolos (a portugalidade enquanto construção coletiva). O clube é, assim, um triângulo semiótico vivo, onde cada elemento aponta para uma memória maior do que ele próprio.
Curiosamente, quando olhamos para a comunidade brasileira – muito mais numerosa na Flórida – a diferença não está na quantidade, mas na cultura associativa. Os brasileiros organizam-se em redes, igrejas, eventos; os portugueses preferem instituições formais, com estatutos, direções e sedes. É uma herança açoriana e madeirense, mas também uma forma de transformar a saudade em estrutura. Onde há dispersão, o português constrói um centro.
Por isso, apesar de serem poucos, em quase todas as regiões do estado os portugueses criaram clubes cuja existência transcende a função de espaços de convívio. Na realidade, são símbolos latentes no inconsciente – arquivos vivos. Guardam sotaques, receitas, histórias de aldeia, memórias de infância, fotografias de festas que já não se realizam como antes. No fundo, representam pequenas cápsulas de continuidade num estado onde a mobilidade é regra e a raiz é exceção.
Reside nesta perspetiva psicológica a explicação para o paradoxo inicial. Na dispersão geográfica, onde a cultura determina em silêncio quem somos, o isolamento requer um lugar onde a identidade se possa sentir. Assim, os clubes surgiram como casas simbólicas. Sem repetir o passado, nutrem uma estratégia para lidar com a ansiedade inseparável da saudade. Como diria Dantas, são espaços que permitem ao sujeito migrante reconstruir narrativas de pertença, evitando que a fragmentação se transforme em desamparo.
No fim, estes clubes falam menos de números e mais da alma da migração: são lugares onde a saudade encontra forma e a identidade encontra abrigo.
Manuel Leal