Edit Template

A Batalha de Fall River

“Como todos sabem, as batalhas de Lexington e Concord, em Massachusetts, deram o início à guerra da independência (1775), que mesmo depois do nascimento da nação, em 1776, se prolongou até 1783.”

Por todo o lado, no território dos cinquenta estados que compõem esta grande nação americana, nota-se os preparativos para a celebração do quarto de milhar de anos do nascimento deste país. Mas a zona das originais treze colónias britânicas sente maior obrigação nestas festividades. E por mais reduzido que tivesse sido o contributo de certos lugares para o sucesso da independência, todos eles querem mostrar, para não cair no esquecimento, a utilidade que tiveram na causa.
Como todos sabem, as batalhas de Lexington e Concord, em Massachusetts, deram o início à guerra da independência (1775), que mesmo depois do nascimento da nação, em 1776, se prolongou até 1783.
Na onda deste pensar, a cidade de Fall River não quer de modo algum ficar atrás. Graças às suas sociedades históricas, nos últimos anos se tem reproduzido em cartaz cultural, e em vésperas de verão, a batalha de Fall River. É que, assim de repente, alguns se questionarão se, realmente, o lugar da cidade dos teares foi um palco de batalha.
Foi sim. Um pequeno contributo, sem grandes derramamentos de sangue, para a liberdade e garantia da independência. Porque, pensando bem, esta já havia sido declarada dois anos antes. Vejamos o que se passou:
Os ingleses haviam tomado Newport, RI, e lá se aquartelaram por algum tempo, representando uma grande ameaça às pequenas localidades costeiras das baías Narragansett e Mount Hope, assim como as do rio Taunton.
No entanto, algumas destas localidades anti-britânicas, como Tiverton e Fall River, estavam fazendo sua própria pólvora, e aperfeiçoando a manufactura caseira de pequenas armas de fogo, criando as suas próprias milícias, as quais protegeram muito bem os seus designados lugares. Sob o comando do coronel Joseph Durfee, guardaram as costas de Mount Hope e Taunton River.
Perto das cascatas de baixo, as mais baixas, perto do cais, precisamente na foz do rio Quaquechen, o coronel Durfee instalou o posto da guarda de “Fallsriver”, como naquela altura o local era designado. Era ainda parte de Freetown, e tinha pouco mais de uma dúzia de casas de habitação, para além de uma serra d’água e de um moinho de cereais.
No dia 31 de maio de 1778, estando no posto de guarda um tal de Samuel Reed, foram vistos alguns barcos a aproximarem-se. Logo foi dado o alerta, e pouco depois a milícia, por detrás de uma parede de pedra começou a disparar contra o inimigo, com toda a fúria, até os ingleses reponderem com um tiro de canhão, obrigando o recuo da milícia, que segundo alguns, era composta por 16 hábeis soldados, e segundo outros, 40 homens de armas.
Depois, como anotou o coronel Durfee no seu relatório, “dois dos homens foram enviados para remover as tábuas que tinham sido colocadas sobre o ribeiro inferior para que as pessoas pudessem atravessar, e depois recuámos lentamente até atingirmos a estrada principal(…)” [i]. Aí batalharam tanto, que o inimigo recuou, deixando um morto e um ferido grave, o qual, antes de expirar, disse que havia 150 britânicos na carga comandada pelo Major Ayers; e que, ao desembarcar, o inimigo incendiou a casa de Thomas Borden, o seu moinho e a sua serragem, situados na foz do rio Fall (rio Quequechan).
O tempo em que o Coronel Durfee elaborou o seu relatório já foi um pouco distante destes acontecimentos, e por isso nota-se algumas repetições, gralhas, e talvez algum pequeno exagero. Até a data do acontecimento, que ele marcou como 25 de maio, na realidade teve lugar a 31.
Continuando o relato, Durfee diz que as tropas inglesas na sua retirada incendiaram a casa e outros edifícios pertencentes a Richard Borden (pai de Thomas), que na altura era um homem idoso. E fizeram-no prisioneiro. Foram perseguidos de tão perto que os edifícios que tinham incendiado foram salvos. E continuaram a disparar sobre eles enquanto desciam para a baía. Depois, Já nos os barcos, ordenaram ao Sr. Borden que se levantasse na embarcação, para que os americanos cessassem o fogo, mas ele recusou-se a fazê-lo, e atirou-se para o fundo da embarcação. Enquanto estava baixo, um tiro matou um soldado britânico, que a seu lado estava.
De acordo com as notas de Gloria Schmidt, num estudo sobre o assunto publicado no seu blogue de notas históricas [ii], existe a versão inglesa do relatório da batalha de Fall River, que não difere muito daquela do coronel Durfee. De resto, como o nosso povo diz, Cada um puxa a sardinha à sua brasa. Vejamos algumas passagens:
Na versão do soldado britânico Frederick Mackenzie, no dia 31 de maio, o General e o Comodoro decidiram tentar destruir alguns Serrerias e uma quantidade de Tábuas para construção de barcos, que tinham em Fall River, com 100 homens do 54.º Regimento sob o Comando do Major Eyre.
Foram enviados para este serviço à noite, e aproximando-se da costa perto de Fall River foram atacados por uma guarda de cerca de 40 homens. Sem medo desembarcaram e dispersaram o inimigo. Em seguida, queimaram a serra d’água e o moinho, 9 barcos, e uma grande quantidade de madeira que se destinava à construção naval. Avançando para o centro do povoado encontraram um número considerável de inimigos, posicionados à frente e acima deles, de onde receberam um forte fogo, que lhes matou 2 homens e feriu outros cinco, incluíndo um oficial. Por isso os ingleses fizeram a retirada. Nenhuma palavra sobre o soldado morto no barco, e muito menos sobre o prisioneiro Richard Borden.
Voltando à narrativa de Durfee, antes de explicada a batalha, propriamente dita, ele diz que, “em 1777, os cidadãos de Fallsriver propuseram levantar uma guarda para afastar o assédio das tropas britânicas. Ele procurou a ajuda do general Sullivan e recebeu provisões para uma guarda de 20 homens” [iii].
Concluíndo, ficamos com esta versão:
Na madrugada de domingo, 31 de maio, um dos guardas descobriu a presença britânica no rio. Deu o alerta, e toda a vizinhança rapidamente se armou. Dispararam contra os barcos, mas os britânicos responderam com os seus canhões, e desembarcaram. Ambas as forças, com uma grande desigualdade de homens batalharam no coração da aldeia, por pouco mais de uma hora. Os ingleses, perdendo ali dois combatentes, iniciaram retirada. Tomaram Richard Borden como refém, e incendiaram a sua casa, e outros edifícios da família, que os defensores do lugar conseguiram recuperar. Ainda nesta retirada, já no barco em fuga, perderam mais um homem, que foi morto a tiro.
“Ambos os relatos são semelhantes. Mackenzie menciona incendiar barcos e tábuas. Em ambos os casos, os cidadãos de Fall River parecem estar mais alerta do que as comunidades de Bristol e Warren. Os Rebeldes de Fall River tinham uma organização mais estruturada” [iv].
No dia em que estas notas estâo sendo escritas Fall River encontra-se em estado de emergência, com ruas intransitáveis, negócios paralisados, e grandes montanhas de neve. O reultado do grande nevão de 2026, que ficará gravado na história. Há muita gente descontente com o governo municipal, e Deus permita que não haja pancadaria por causa disso. Podemos imaginar um campo de batalha no centro governamental da cidade: desta vez sem canhões e espingardas. Em breve visão podemos observar os residentes atirando aos governantes fatias de queijo de São Jorge, morcelas e malassadas. Em lugar de destaque, o “mayor”, levando com chouriços pela cara, à vista de toda a gente (eheheheh).
E hoje ficamos por aqui. Haja saúde, e Viva Fall River!

Fall River tem bom chouriço
Inteiro ou às rodelas,
Muita gente de serviço
E também boas morcelas

[i] In: Centennial History of Fall River, Massachusetts, de 1877, citada e reproduzida parcialmente no livro de Alfred J. Lima, “A River and its City”.
[ii] Portsmouth history notes
[iii] Idem
[iv] Idem

Alfredo da Ponte

Edit Template
Notícias Recentes
Sazonalidade no turismo dos Açores
Turismo começa 2026 com crescimentos moderados com os Açores entre as regiões em queda
Cadeia dinamarquesa de mobiliário JYSK vai abrirloja em Ponta Delgada até ao final de 2026
Oferta de casas novas duplica em cinco anos mas Açores continuam com pouca construção
Governo reúne Conselho Consultivo Regional para concretizar medidas de imigração e integração
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2023 Diário dos Açores